03

maio11

Fim do uso dos caracteres do Português com Inclusão de Gênero

Atualização (04/05/11, 14:11): Até o momento um leitor e uma leitora manifestaram pesar pelo fim do uso do PCIG. Devo fazer uma enquete a qualquer momento sobre isso para decidir se volto ou não a usar arrobas, æ e barras nos posts.

A partir deste momento, deixo de usar no Consciencia.blog.br o uso dos caracteres do Português com Inclusão de Gênero – a arroba “minúscula” (diminuída com a tag HTML <small></small>), a ligadura æ e as barras em palavras como “cristã/o”.

Não vi ainda reprovações válidas (educadas, vindas de pessoas de mente aberta) explícitas ao uso por mim do PCIG, idealizado por Thomas M. Simons do site Números Polêmicos. Mas também nunca me veio qualquer aprovação dos leitores do blog, nem mesmo das leitoras, ao uso daqueles caracteres; nunca me chegou qualquer sinalização de que essa tentativa de vanguarda ortográfica minha e de Simons é ou será apreciada pelos brasileiros como uma possibilidade futura.

Digo com lamentação que essa é uma derrota de quem visa a igualdade entre mulheres e homens, visto que nosso idioma é androcêntrico por considerar o gênero masculino dominante e de uso padrão e o feminino um gênero recessivo e de uso meramente específico. Neste momento, nem mesmo o uso machista das palavras homem (como ser humano) e mulher (como esposa), algo muito mais fácil de se lidar do que a totalidade da disposição de gêneros na língua portuguesa, ainda é uma pauta constante no próprio feminismo lusófono.

Está longe de mim considerar a linguagem como algo meramente secundário nas relações de gênero. Mas nossa sociedadade, tão machista e androcêntrica como é hoje, é imatura demais para sequer considerar palatável uma mudança futura para a igualdade entre gêneros no idioma português. Para se ter uma ideia, nem mesmo as próprias mulheres em sua maioria se incomodam em usar despudoradamente a palavra homem como sinônimo de ser humano e mulher como sinônimo de esposa, cônjuge feminino.

Infelizmente o PCIG, ou qualquer outra ortografia igualitária, é uma fase onde as sociedades lusófonas só chegarão depois de superar as tradições machistas mais evidentes do que a fala e a escrita, tradições essas que levam inclusive à violência masculina contra mulheres – seja ela doméstica ou urbana. É um nível de igualdade superior mesmo ao próximo nível, o da superação do machismo comportamental, que sequer alcançamos.

Sem falar no negativo efeito prático. Sem uma fonética própria e considerando-se também o aspecto visual, o PCIG pode tornar a leitura bastante desconfortável para muitos. É bem mais palatável ler um artigo meu que usa o português normal de hoje do que um cheio de arrobas, æ e barras a cortar as palavras. Ou seja, plantei igualdade entre os leitores mas só colhi leituras desconfortáveis.

Isso tudo se aplica à alternativa atualmente usada por grupos libertários (de esquerda): o uso do x no lugar das letras de gênero (ex.: alunxs, professorxs). É igualmente desconfortável tentar construir foneticamente no pensamento palavras assim escritas, visto que esse outro português inclusivo também não tem uma fonética própria.

Assim sendo, me resigno neste momento ao nosso tradicional português machista. Terei que escrever como se todos e todas vocês fossem do sexo masculino. Já o faço nos artigos, agora terei que estender isso a todos os novos posts de agora em diante – e modificar alguns posts antigos de modo a torná-los mais confortáveis de ler.

O uso de uma escrita que lembre igualdade acontecerá apenas em casos em que seja impossível juntar mulheres e homens em um único grupo, tratá-los conjuntamente como um gênero genérico. É o exemplo de “namorado(a)”, “parceiros(as)” – nesse caso, há o detalhe altamente inconveniente de que essa não genericidade se aplica apenas a casos de relação conjugal, ou seja, o único momento em que as mulheres não são anuladas em nossa linguagem é justamente quando são tratadas como cônjuges, parceiras.

Escrevi este post decepcionado, me sentindo derrotado por uma tradição machista-androcêntrica tão grande que os libertários de esquerda (adeptos do “x igualitário”), Thomas Simons e eu somos meras pulgas em tamanho diante dela. Mas ainda tenho esperança de ver em vida o nosso português começar a mudar para uma versão igualitária em gênero.

Mas uma coisa continua, apesar disso: minha persistente militância contra o uso falsamente unissex da palavra homem e o uso diminuidor da palavra mulher como sinônimo de cônjuge feminino. Nesse caso temos substitutos de sobra no nosso português, todos minimamente igualitários. E continuarei também trazendo artigos feministas que denunciam o machismo de nossa linguagem o qual acabou de me vencer.

imagrs

13 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Lunie

março 22 2016 Responder

sabem existem pessoas não binárias

    Robson Fernando de Souza

    março 23 2016 Responder

    Por isso também eu abandonei essa proposta de “Português com inclusão de gênero”.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 13 2014 Responder

    Li esse texto, cheio de reacionarismos, falsas dicotomias e implícitas falácias do espantalho. O ideal seria a existência de um gênero neutro no português, feito o inglês e o latim.

Daniel Cortes

fevereiro 13 2014 Responder

A sociedade nao é machista, é feminista. E se a lingua fosse machista, os homens teriam um generno que os representasse como grupo.

Num grupo misto, usamos o genero masculino. O mesmo que se usa num grupo exclusivamente masculino. Logo, nao é possivel saber se o grupo é só de homens. As mulheres são o gênero marcado, tem um genero gramatical que as expressa e identifica como grupo. Os homens , não.

Lingua machista? Acho que é o oposto.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 13 2014 Responder

    1. Uma língua que admite “1.000.000 de professoras e um boneco de massa foram incluídOs”, mas não “500.000 moças e um homem foram escolhidAs”, não é machista?
    2. O que é feminismo pra você?

Fernando Cônsolo Fontenla

maio 29 2011 Responder

Cara, admito que causa desconforto na leitura, mas para isso basta se dar ao trabalho de escrever por exemplo “alunos e alunas” em vez de “aluno/as”. Assim você une a defesa da igualdade com o conforto de leitura. É o que eu faria.

    Robson Fernando de Souza

    maio 29 2011 Responder

    Fernando, tem o porém: escrever “alunos e alunas”, “cidadãos e cidadãs”, “professores e professoras” com muita frequência vai tornar a leitura e a escrita desconfortáveis também. Perceba que ninguém usa esse tipo de linguagem.

Bruna

maio 4 2011 Responder

Além do PCIG e do “x”, é possível também revezar substantivos masculinos e femininos quando se quer expressar algo genérico, como o Gato Negro fez aqui:
http://pt.scribd.com/doc/12352832/Primeiros-Passos-para-Veganismo

* em vez de responder a sua pergunta, coloco outra alternativa para complicar um pouco mais…

    Robson Fernando de Souza

    maio 5 2011 Responder

    É, eu já havia lido esse texto no passado. Ainda assim acho que a grande maioria dos leitores e leitoras não estaria pronta pra me ver fazendo esse revezamento sem ter que pôr uma nota de rodapé em cada post.

    * em vez de responder a sua pergunta, coloco outra alternativa para complicar um pouco mais…

    hehehehehehe

BÁRBARA DE ALMEIDA

maio 4 2011 Responder

Eu admito que era uma das características do blog que eu mais gostava! Sinto muito por não ter dito antes!!

Júnior

maio 3 2011 Responder

Não é por nada não, mas até que enfim foi abandonado esse tipo de escrita. Só servia para atrapalhar a leitura. Só!

E esse negócio de usar o “x”, me parece mais coisa de analfabeto.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo