02

maio11

O “bem-estar” animal da Globo Rural

Texto imprescindível da irmã de consciência Renata Octaviani Martins, direto do Vista-se.

 

Globo Rural destaca “bem estar” animal
por Renata Octaviani Martins

O Globo Rural do dia 01 de Maio de 2011 destacou em 2 matérias complementares, durante 2 blocos, a questão do bem estar animal para produção.

Minha impressão é que a matéria tem duas utilidades: pesar menos a consciência de quem não quer pensar além do que é mostrado e também revelar um cenário preocupante para quem entendeu  as entrelinhas e em perceber alguns detalhes.

Na primeira matéria (http://g1.globo.com/videos/economia/globo-rural/v/produtores-comecam-a-adotar-praticas-que-evitam-o-sofrimento-dos-animais/1497521/#/Todos%20os%20v%C3%ADdeos/20110501/page/1) , foi mostrado o trabalho das “bezerreiras” em uma fazenda de produção de leite. Com a sugestiva frase “Todo bezerro precisa de uma mãe” gravada nas tábuas do curral, a matéria mostra o “desmame progressivo” dos bezerros. Resumindo: ao invés de retirar os bezerros do lado de suas mães verdadeiras de uma hora para a outra, substituindo os habituais 4 litros de leite por ração, eles são encaminhados para esses currais separados e alimentados com 1 litro de leite em pó por dia, além da ração. Entre os “mimos”, são escovados, sugam o leite de pontas de borracha, são conduzidos de um lado para o outro sugando os dedos das bezerreiras, têm acesso a ar livre. Mais: quando se abrigam em galpões tem acesso a um ambiente limpo e com palha trocada 2 vezes por semana. Resultado direto: redução da mortalidade de 6 bezerros por mês para 2.

Parece o paraíso? Pense de novo.

Primeira questão a ser levada em consideração: essa fazenda – assim como todas as outras mostradas na segunda matéria – são consideradas “fazendas-modelo” e, portanto, com procedimentos que são considerados exceção. A regra são bezerros – conseqüência de reprodução forçada todos os meses – separados abruptamente das vacas. Ok, você pode ignorar que a realidade na produção de leite é essa e ter um pensamento otimista de que o mundo está tentando mudar. Então vamos analisar a situação vendida como ideal.

Outra coisa que me chamou a atenção nessa matéria foi justamente  a necessidade até física que os bezerros têm das suas mães. Mas em nenhum momento se falou da necessidade que as mães possam ter de seus filhotes, focando apenas na ordenha – mecanizada – no caso de animais adultos. Ainda, que todos os procedimentos paliativos mostram sempre que os animais manifestam o que, pra mim, não pareceu senão carência. Minha pergunta é: não fosse a produção, a situação realmente ideal e que realmente leva em conta a realidade e instintos desses animais não seria simplesmente deixar os bezerros com suas mães, as vacas? Então a pergunta inevitável é: porque manter a produção, se podemos viver sem leite? A extinção da pecuária não só de corte como a de leite levaria a diversos benefícios no aproveitamento da produção de grãos, reduziria o consumo de água, traria benefícios ambientais diversos, incluindo  mais espaço disponível e mais argumentos para a diversificação na produção de alimentos de origem vegetal, orgânicos e até agrofloresta.

Apesar das bezerreiras se referirem aos bezerros como “filhos” e até como “iguais a crianças”, não parece que elas – e nem a veterinária responsável –  se preocupam ou têm algum controle sobre o destino desses animais.

Não bastasse, a reportagem fala sempre em novilhas, ficando no ar o que acontece com os machos.  E os machos – conforme procedimentos recomendados pela própria Embrapa – são destinados ao mercado de vitelos. A questão é: como produzir “carne branca, produzida de animais anêmicos” (definição adotada pela própria Embrapa, conforme é possível ver em http://www.cnpgc.embrapa.br/~gelson/196.htm) levando em conta o pleno bem estar desses animais?

A verdade é que o sistema é levado em consideração por um motivo muito simples: ele acabou se refletindo em aumento da produção e diminuição de custos com antibióticos.

A segunda reportagem mostra a pesquisa da Unesp de bem estar no manejo do gado de corte (ou seja, bem estar dos animais que só são colocados nesse mundo para serem abatidos. Muito humano, não?). Também mostra uma fazenda que adotou os procedimentos e as análises químicas do “produto” final ( http://g1.globo.com/videos/economia/globo-rural/v/testes-de-laboratorio-comprovam-que-estresse-interfere-na-qualidade-da-carne/1497529/#/Todos%20os%20v%C3%ADdeos/20110501/page/1).

Não tenho como me alongar na análise desse vídeo até por uma questão de limite da paciência. Mas vou destacar algumas coisas que eu gostaria que os leitores percebecem quando assistirem à matéria:

a) Mais uma vez, é uma situação que reflete a exceção.

b) Os grandes privilégios desses animais são caminhar menores distâncias, ter água, sombra e sal disponíveis. Além de não serem chicoteados, cutucados, empurrados ou tocados com bastões de choque.

c) Os peões ainda apelam para violência física “de vez em quando”, apesar de treinados para não fazer isso; eles não são sequer ANIMAIS, são bifes sobre quatro patas. E nota-se que a regra geral entre os que trabalham com animais é considerar “boiolice” se preocupar com esse tipo de coisa.

d) Os animais da “fazenda modelo” são todos marcados a ferro, alguns inclusive em áreas como a cabeça.

e) Os animais não têm liberdade de irem para onde querem.

f) Ninguém teve coragem de mostrar o abate e sequer procedimentos muito comuns como castração, muitas vezes a sangue frio justamente em um daqueles espaços reduzidos de confinamnto (à faca tradicional, à faca com amarrio do cordão espermático, à faca com emasculador, à faca com destruição parcial do testículo, com burdizzo ou com elastrador, vide http://www.cnpgc.embrapa.br/publicacoes/divulga/GCD22.html).

g) Todos os animais continuam sendo tratados, avaliados e considerados apenas enquanto algo que tem que produzir resultados.

h) A preocupação com esses procedimentos mínimos acabou surgindo muito mais por uma preocupação com resultados da produção, qualidade da carne, diminuição de custos e aumento na eficiência, exigências do mercado externo e como forma de agregar valor ao “produto”, do que por uma preocupação com os animais.

Por tudo o que eu vi, não posso senão lamentar que o futuro que os profissionais da área vislumbram e desejam não é senão manter indefinidamente o ciclo de exploração.

Na próxima semana, o programa promete mostrar a criação de galinhas poedeiras, frangos de corte e suínos. Não espero um cenário melhor, infelizmente.

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo