O Funk do Hino Nacional e o questionamento implícito do mundo militar
Na última semana vimos um evento polêmico filmado num quartel do Rio Grande do Sul: pós-adolescentes, em seus 18 ou 19 anos, dançando o “Hino Nacional Brasileiro Funk Remix”. De um lado, o senso comum e o conservadorismo milico-nacionalista expressavam revolta pela “profanação” de um dos “símbolos nacionais”. De outro, a parcela mais liberal e cosmopolita, que não liga para a tradição do apego aos símbolos cívicos e sequer vê nestes alguma relevância prática, mostrava-se indiferente ou até gargalhava com o tocar e a dança do hino em ritmo de funk.
Não sendo um militar sob propriedade do Estado e estando amparado pela liberdade de expressão e de consciência desprovidas de apologias criminosas, garantida pela Constituição (Art. 5º, IV e VI), dou abaixo minha opinião, que evidentemente não agrada aos saudosos da época da Educação Moral e Cívica.
Eu, que sou opositor do nacionalismo e do militarismo e indiferente ao alegado valor dos símbolos nacionais, pessoalmente caí em risadas quando vi a notícia e assisti ao vídeo. Além disso, vi a cena mais que como um simples funk divertido e dançante. Encarei-a como um talvez inconsciente questionamento da sacralidade e importância prática dos “símbolos da pátria” e também dos valores militares internos mais arbitrários e autoritários – nestes incluída a conscrição. Considerei-a como um peteleco forte na orelha dos milicos conservadores, dos saudosos da Ditadura, dos simpatizantes do serviço militar obrigatório.
Os jovens que se divertiram com o “funk cívico” talvez não tenham pensado nisso naquele momento. Mas sua atitude teve uma importância positiva que faz a todos os brasileiros pensarem sobre muitas coisas. Sobre o regime de prática escravidão existente nos quartéis de todo o mundo. Sobre a juventude que as armas, gritos e humilhações dos “superiores” não conseguem obliterar, reprimir totalmente. Sobre o fascista ato de forçar parte do povo a servir ao Estado ao invés de o Estado servir integralmente ao povo.
Também põe na mesa um discussão muito pertinente numa sociedade cada vez mais pluralista, multicultural e cosmopolita: o que é mais importante de verdade? O civismo fajuto de adorar símbolos nacionalistas como se fossem ícones religiosos e jurar morrer pelo Estado, ou o exercício prático e ativo da cidadania democrática pelo bem dos habitantes de seu país e do mundo?
Encaro assim: o funk do hino, antes de divertido, foi um instrumento de resistência usado por jovens que foram provavelmente* obrigados a servir e postos num ambiente onde liberdade, democracia, direitos e cidadania são palavras proibidas. Foi uma forma de dizer ao Brasil – o vídeo foi posto no YouTube, ainda que removido depois – que eles não querem ser escravos do Estado, não aceitam ser cegamente submissos às ordens de “superiores”.
O funk e a dança foram os meios através dos quais os rapazes clamaram: “Somos jovens sedentos de vida e de liberdade! Estamos aqui contra nossa vontade, e nossa juventude aqui está sob repressão! Não nos encaixamos no sistema escravocrata dos quartéis! Queremos vestir as camisas e calças que sempre vestimos civilmente, não uniformes-coleira com cores vegetais escuras! Nosso lugar está nos nossos bairros, nas nossas festas, como adolescentes livres e contentes, não num quartel onde somos gado açoitado e tocado por peões**.”
Sendo o hino nacional a música escolhida para ser remixada e dançada, questionou-se implicitamente também: por que os “símbolos nacionais” são tão sagrados, intocáveis e veneráveis como se fossem ídolos religiosos? O que lhes dá tanto valor assim? Por que um trecho de planeta precisa ter um hino, “armas nacionais” que lembram guerra e violência, enfim, coisas que o tornem diferente ou mesmo “superior” a outros pedaços do globo terrestre? Aliás, o que mais importa na prática: uma entidade abstrata como o Estado ou a “pátria” ou as pessoas que habitam o país controlado por esse Estado? E quem deve servir um ao outro? O Estado servir a população ou vice-versa?
Pior é que a postura rebelde implicitamente questionadora dos jovens funkeiros está para ser reagida com repressão, por causa do Artigo 161*** do Código Penal Militar – a saber, um código originado em 1969, justamente na pior época da ditadura brasileira, durante a vigência do famigerado AI-5. Numa amostra de que questionar verbal ou comportamentalmente os dogmas militares dentro dos quartéis é motivo de repressão e prisão.
É provável que os funkeiros do quartel sejam punidos por tal lei originada em ditadura, mas o seu “grito musicado e dançado” foi lançado à sociedade brasileira, que agora tem em que se inspirar para questionar os valores militares internos e nacionalistas, cada vez mais anacrônicos e incompatíveis com uma sociedade de valores democráticos.
*Há casos em que o funcionário do quartel pergunta aos jovens quem quer ou não quer servir às Forças Armadas, sendo aqueles que optaram por não servir dispensados por “excesso de contingente”. Por isso o serviço militar obrigatório no Brasil tem seus momentos de não obrigatoriedade.
**Na verdade os animais de gado, a despeito do senso comum humano onívoro, também desejam viver e ser livres.
***Art. 161. Praticar o militar diante da tropa, ou em lugar sujeito à administração militar, ato que se traduza em ultraje a símbolo nacional: / Pena – detenção, de um a dois anos.
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6 respostas a O Funk do Hino Nacional e o questionamento implícito do mundo militar
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Parabéns pelo texto, Robson!!! Maravilhosas colocações.
Obrigado Cristal =) Será um prazer vc divulgá-lo =)
bjos
Vejo nisso muita criatividade. Acho que a criatividade deve ser bem liberada. Os símbolos da Pátria continuam inteiros se são usados de outras maneiras. Já vi acontecer algo semelhante com o hino da França, pois como tem muitos árabes e ciganos por lá fizeram uma versão com gingado meio árabe/cigano. Ficou bem legal. As influências são inegáveis e não há por que abafa-las. Abraço.
Eu conheço mais de trezentos jovens que fazem “obrigatoriamente”, totalmente contra sua vontade.Continue assim, o blog num todo está ótimo.
Valeu Hyou =)
Conheço mais de trezentos jovens brasileiros que fazem contra sua vontade, estou disposto a condenar esse serviço obrigatório totalmente obsoleto.