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maio11

O recorde de emissões de gás carbônico e a necessidade de mudanças globais profundas

Foi divulgado hoje pela Agência Internacional de Energia que as emissões de gases-estufa bateram recorde em 2010, superando o ápice de 2008 e anulando completamente a ligeira queda de 2009, ano de crise econômica mundial. Estimou-se também que “80% das emissões projetadas para 2020 no setor de energia já estão comprometidas, por virem de usinas elétricas atualmente instaladas ou em construção”.

Começa-se a perder as já frágeis esperanças de se controlar as emissões de modo que obedeçam em 2020 ao limite de 32 bilhões de toneladas de gás carbônico (o que, provavelmente, exclui a emissão de outros CO2-equivalentes*, que quase dobraria esse número). O que ameaça causar um aquecimento atmosférico médio superior a 2 graus centígrados até 2100.

Isso é uma amostra do evidente, do quase óbvio: o paradigma atual de economia e consumo é, sem exagero, totalmente adverso a qualquer esperança de diminuição da poluição termoatmosférica global.

 

A ingenuidade de crer na diminuição das emissões sem mudanças profundas nas sociedades modernas

Espera-se ingenuamente que este mundo capitalista-industrialista, regido pelo crescimento econômico ilimitado, pelo consumismo compulsivo, pela lógica de poluir e desmatar para crescer e pela alienação ambiental individual e coletiva, assuma e cumpra abnegadamente o compromisso de diminuir o impacto ambiental de suas atividades de modo a salvar o planeta de um colapso futuro. Isso, me desculpem a acidez do comentário, é análogo a acreditar na existência do Superman.

Está se escancarando de forma cada vez mais inexorável que o mundo não será salvo enquanto permanecer forte e valorizada a atual tradição econômica. A perspectiva é de que apenas um novo sistema socioeconômico, sem os vícios e desigualdades intrínsecos ao capitalismo e o autoritarismo do socialismo histórico, terá o potencial de diminuir substancial e generalizadamente as emissões de gases-estufa e também os demais impactos (socio)ambientais do sistema global atual.

Mas essa constatação, na grande maioria das vezes, é encarada por duas formas: como se fosse uma aberração, uma preconização ideológica tão polêmica ou reprovável quanto o fascismo, ou com um ceticismo extremamente conformista e desanimador, expressado em dizeres do tipo “Não adianta, a humanidade não vai sofrer essas mudanças nem tão cedo, é mais provável ela se extinguir por causa das mudanças climáticas antes disso”.

Porém, salvo se aparecer a qualquer momento alguma receita milagrosa que domestique de forma submissiva o capitalismo de modo a torná-lo um sistema esverdeado, atrelado a limites e minimamente consumista, a necessidade do terceiro sistema, um sistema social-político-econômico-ambiental verde e igualitário (ou o mais próximo possível do igualitário) por excelência, vai sendo algo dificilmente negável.

Porque a humanidade industrialista-capitalista-consumista requer imprescindivelmente mais e mais energia, recursos naturais e terras a cada ano, de modo a aumentar ilimitadamente o produto interno bruto per capita, o poder de compra de todos os habitantes dos países capitalistas, as taxas nacionais de crescimento do PIB e tantos outros números econômicos.

E isso requer mais e mais empresas dentro dos países, a consumir uma quantidade ilimitadamente maior de eletricidade. E esta tem que vir de novas usinas poluentes (termelétricas movidas a combustíveis fósseis) ou desmatadoras (hidrelétricas de grande porte do tipo de Três Gargantas e Belo Monte), lançando mais e mais gases-estufa na atmosfera e diminuindo ainda mais a vegetação que absorve o gás carbônico.

E, além disso, no âmbito doméstico e comercial, cada vez mais pessoas são impelidas à artificial necessidade de comprar e consumir mais e mais para terem alguma satisfação neste mundo que lhes exige isso para que se tornem “felizes”. E isso requer, evidentemente, mais produção nas indústrias. O que cria demanda por mais energia, nos devolvendo assim ao efeito-cascata do parágrafo anterior – mais empresas => mais energia => mais usinas => mais CO2-equivalentes no ar.

 

O peso da pecuária e do onivorismo e sua insistente força cultural

Outro ponto que aqui coloco, ainda tão pouco debatido nas conferências internacionais de meio ambiente e mudanças climáticas, é o incontido crescimento do consumo de alimentos de origem animal, uma das mais poderosas fontes de gases-estufa, provavelmente disputando com a própria produção energética o título de maior vilão do efeito-estufa.

A pecuária que origina esses alimentos é acusada pelo relatório Livestock’s long shadow da FAO (2006) de promover, direta e indiretamente, 18% do lançamento antrópico mundial de CO2-equivalentes à atmosfera. Já o documento Livestock and climate change do Worldwatch Institute (2009) diz que ela é responsável direta e indireta por nada menos que 51% de emissões de gases-estufa.

Segundo esse último relatório, o aquecimento global seria bem menor hoje se tivéssemos abolido a exploração animal e substituído o onivorismo pelo veganismo. Ou, em última análise, talvez nem estivéssemos hoje em dia discutindo em regime de urgência o problema das mudanças climáticas.

Mas ainda vemos ao redor do globo uma apologia social, econômica e cultural ao consumo de carne, laticínios e ovos tão grande quanto a contribuição da pecuária às mudanças climáticas. Comer carne, pizza, sorvete e outros alimentos ricos em exploração animal vem sendo cada vez mais frequente como cerimônia de comemoração da ascensão social de milhões de famílias pelo mundo – e também como parte integrante das refeições cotidianas, deixe-se claro.

Isso se vê muito no Brasil e em outros países emergentes. Por exemplo (mas não como regras estritas): se o filho arranjou emprego na indústria da cidade vizinha, a família comemora com um banquete cheio de carne no restaurante. Se o indivíduo conseguiu uma promoção no trabalho, celebra com seus colegas de trampo num rodízio de carne ou de pizza. Se o casal vai comprar uma casa própria, o rito comemorativo é um churrasco com as famílias dos cônjuges.  Isso sem falar nas idas corriqueiras aos fast-foods da vida, com palhaços e demais mascotes anunciando sanduíches altamente calóricos para pessoas de todas as idades.

E isso porque eu não falei de todo o restante do valor cultural dos alimentos de origem animal ao redor do mundo, do apego visceral de bilhões de pessoas ao consumo cotidiano de animais. Mas isso acaba sendo tema para outros textos, visto ser muito grande e abrangente.

 

Também é extremamente relevante o elevado poder econômico dos famigerados pecuaristas e donos de indústrias frigoríficas, laticínias e granjeiras, que empreendem uma campanha permanente de alienação cultural publicitária. Investem anualmente bilhões de dólares em propagandas que hipnotizam os consumidores, de modo a lhes induzir o prazer em comer alimentos de origem animal e não deixá-los contemplar volitivamente (as delícias d)o vegetarianismo.

Enquanto isso, do outro lado, ainda é pequeno, restrito a atos de pequena ou média escala, embora crescente, o movimento de conscientização para a diminuição generalizada do consumo de carnes, laticínios e ovos e a promoção ética e sociocultural do vegetarianismo e do veganismo. A maior parte dos esforços bem-sucedidos de esclarecimento pró-veg(etari)ano vêm sendo ações de convencimento individual, pelo boca-a-boca, por debates um-a-um ou pela cessão mão-a-mão de documentários de direitos animais.

 

Conclusão

Até o presente momento, só existe uma forma de salvar o mundo de uma catástrofe climática generalizada futura: mudar o paradigma atual de economia e consumo. E fazê-lo profundamente.

Isso inclui desde a adoção de um novo sistema socioeconômico – o qual nasceria não mais de um Marx da vida, mas de uma discussão deliberativa global entre milhares de pessoas, desde intelectuais a gente humilde –, que estabelecesse limites para o consumo, a expansão industrial e o crescimento econômico e vedasse desperdícios, até uma reforma alimentar mundial que acabasse ou diminuísse radicalmente o consumo de alimentos de origem animal nas sociedades modernas.

Se não for isso, repito, teremos que esperar o surgimento de um método milagroso que torne o capitalismo como conhecemos hoje um sistema domesticado e submisso o bastante para não implicar mais impactos ambientais tão pesados.

E enquanto não vemos nem tais mudanças profundas nem tal milagre capitalista, teremos que continuar nos preocupando com o anômico crescimento da economia mundial e as consequentes quebras sucessivas de recordes de emissões de gases-estufa. E nos preparando para um planeta repleto de cataclismos climáticos que poderão reduzir seriamente a qualidade de vida humana e mesmo ameaçar a integridade da humanidade.

 

*Sobre o que são CO2-equivalentes, lembremos, por exemplo, que uma tonelada de metano emitida, tendo 21 vezes mais poder de aquecimento atmosférico do que o gás carbônico, equivale a 21 toneladas deste. Por isso 1 tonelada de metano = 21 toneladas de CO2-equivalentes. 1 tonelada de óxido nitroso, por sua vez, corresponde a 296 toneladas de CO2-equivalentes.

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Bárbara de Almeida

maio 31 2011 Responder

Sabe Robson, desabafando aqui, eu busco o conhecimento da realidade ambiental nas mais variadas fontes, absorvo, reflito e tudo o mais. Mas, infelizmente, não consigo passar essas informações para frente sem cair naquele esteriótipo de ecochata, pois TODOS ao meu redor (sem excessões)não estão nem um pouco preocupados com estes fatos “sem importância”.
Ou seja, quanto mais me conscientizo, mais de mãos atadas me sinto. As únicas pessoas que eu me sinto ligada pelas mesmas convicções estão na net, a muitos km de mim. Como você consegue conviver com isso? O que você faz para esse sentimento de miudeza e impotência não te derrube? (Ufa, falei).

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