05

maio11

Os mitos da racionalidade e do livre-arbítrio do onivorismo (Parte 1)

Obs.: Este artigo não defende a pregação do veganismo de forma invasiva e inoportuna. Não é conveniente fazer o veganismo incorrer na mesma coerção social do consumo de alimetnos de origem animal.

Um dos argumentos mais usados pelos onívoros para tentarem proteger das críticas e conscientizações pró-vegetarianismo seu hábito de consumir alimentos de origem animal é que os vegetarianos militantes estariam “impondo” uma nova alimentação e violando a “liberdade alimentar” da sociedade. Dizem assim que a conscientização vegetariana estaria desrespeitando as pessoas onívoras e que o certo seria deixá-las continuar comendo carne, laticínios, ovos etc. livres de críticas e lições ético-ambientais.

Essa “liberdade” é muito questionável e deve ser relativizada ao máximo, visto que suas premissas são tão frágeis que, tal como mitos, podem ser refutadas sem muita dificuldade. Abaixo uma lista dos fundamentos da “liberdade alimentar” alegada e da oposição à “imposição” manifestada pelos onívoros que reagem mal à conscientização de quem deseja o fim da exploração animal.

***

1. Ser onívoro é ser livre, e o vegetarianismo ameaça a liberdade alimentar dos onívoros

Não existe liberdade alimentar absoluta para seres humanos em nenhum lugar do mundo. Mesmo onívoro, o ser humano é obrigado a escolher o que come, por critérios biológicos, culturais e também morais.

Em termos biológicos, não podemos (ou não devemos) comer, por exemplo, pedras, areia, cogumelos tóxicos, plantas venenosas, esponjas marinhas, muitas espécies de vermes, ouriços-do-mar… Nem beber ácidos, magma ou água fervente, poluída ou naturalmente envenenada. Consumir esses não alimentos ferirá nosso corpo, irá nos causar complicações digestivas sérias, destruirá nossa saúde ou mesmo nos matará.

Já cultural e moralmente, o indivíduo é proibido de comer animais de diversas espécies. Hoje em dia os brasileiros são proibidos, inclusive por lei, de comer carne de cachorro, de gato e de animais silvestres ameaçados de extinção. Comer insetos, por sua vez, não é moralmente proibido no Brasil, mas é largamente considerado nojento, anti-higiênico e repulsivo, por convenção cultural, mesmo que esses bichos sejam sanitariamente tratados e desinfectados.

E em virtualmente todas as sociedades humanas da atualidade, sejam elas modernas ou tribais, seres humanos não podem comer outros seres humanos. A antropofagia regular é censurada por praticamente todos os códigos morais paralelamente vigentes no planeta, mesmo não sendo biologicamente proibitivo comer carne humana.

Ou seja, a “liberdade alimentar” do ser humano é a mesma “liberdade” que uma pessoa confinada numa sala de cem metros quadrados tem de andar, correr, sentar e deitar dentro dos limites (paredes e portas) desse cômodo.

É pensando que não existe uma liberdade verdadeira de as pessoas ingerirem o que quiserem que o vegetarianismo coloca na mesa novas diretrizes ético-morais sobre o que se deve ou não comer e beber. Parâmetros que, resolvendo as contradições do atual paradigma moral de relações entre seres humanos e animais não humanos, consideram que nenhum animal mais é comestível para os humanos, visto que comer uns e culturalmente poupar outros é altamente contraditório, é especismo.

2. Comer carne é algo exclusivamente de vontade própria e racional

Ninguém nasce escolhendo racionalmente o que come. Em primeiro lugar porque todas as pessoas são acostumadas desde a primeira infância a comer certas categorias de alimentos. Onívoras ou vegetarianas, as crianças o são porque seus pais assim acostumaram-nas a ser.

Por muito tempo antes da expansão da internet, as pessoas passaram anos e anos alheias a qualquer informação que lhes indicasse uma alternativa saudável à alimentação onívora, e eram alienadas pelos meios de comunicação de massa, que lhes repetiam as velhas recomendações nutricionais ou culinárias do consumo de carnes, leites e ovos. Assim sendo, viviam presas ao onivorismo. Comer alimentos de origem animal era, segundo consideraria Émile Durkheim, um fato social – costume sociocultural que, externamente ao indivíduo, lhe é imposto mediante uma coerção sutil ou nem tanto.

Os poucos que, por algum motivo, tentassem abandonar o consumo de carne tinham altíssima probabilidade de desistir ou ser puxados de volta, por desaconselhamento (ou mesmo coação) familiar, pelo olhar feio das pessoas de seu círculo social, pela carência de restaurantes vegetarianos – hoje em dia estes vêm se multiplicando pelas cidades, ainda que numa velocidade aquém da desejada –, pela falta de nutricionistas que tolerassem o vegetarianismo, entre outros fatores.

A população, desprovida por muito tempo da oportunidade do contato direto com informações seguras sobre a alimentação vegetariana, até recentemente não tinha como fazer uma comparação analítica racional entre ela e o onivorismo. Não tinham como dizer: “Comparando direitinho o onivorismo e o vegetarianismo, prefiro o primeiro”.

Assim sendo, quando uma pessoa diz que sua alimentação é uma plena escolha dela, está enganada. Em nenhum momento de sua vida, exceto nestes poucos anos de crescimento do vegetarianismo, ela teve qualquer oportunidade de avaliar e escolher qual seria para ela o melhor hábito alimentar.

No máximo sua “escolha” é pertinente apenas aos recentes, breves e insuficientes contatos que ela teve com o ideário transmitido pelos vegetarianos. E nem assim podemos encarar o “não” da pessoa como fruto deliberado de um legítimo livre-arbítrio. Isso porque majoritariamente o onívoro que resiste à conscientização vegetariana não tem qualquer compromisso de procurar conhecer profundamente a alimentação não creófila, seus princípios, suas garantias de saúde e bem-estar, sua culinária, para em seguida poder fazer uma comparação racional e honesta entre os fundamentos do onivorismo e os da alimentação sem animais.

3. Eu não paro de comer carne simplesmente porque não quero

Essa premissa é derivada do mito acima tratado do “onivorismo por vontade própria e racional”. No caso da avassaladora maioria dos onívoros, o “não” que eles dizem aos conscientizadores não é resultado de livre-arbítrio, de uma deliberação consciente, da livre vontade de continuar comendo carne.

Mas sim de uma vida inteira de satisfação gustativa; da resistência em dizer adeus às carnes, às pizzas, aos sorvetes lácteos, ao chocolate ao leite etc. que lhes dão tanto prazer; do receio do desconhecido; do medo de não encontrar na alimentação vegetariana um porto seguro que lhes mantenha a saúde e o prazer de comer, lhes proveja comidas tão gostosas e abundantes quanto os tradicionais pratos com carne, laticínios e ovos.

Outro ponto importante é que não há uma vontade pura, que não se justifique por interesses, razões e necessidades. Ninguém faz uma coisa puramente “porque quer”. Esse querer tem anexado a si objetivos, motivos, causas.

Por exemplo, se fulano não quer ir à casa da sua tia, há motivos implícitos, mesmo quando ele diz que não vai “porque não quer” – por exemplo, ele pode não gostar da prima, não suportar as pregações religiosas da tia, não ter amigos ou lugares divertidos aonde ir na localidade da casa da parente, achar a casa dela mal assombrada, achar muito mais divertida sua própria casa, não querer passar fins de semana em casas sem computador, não ter lá crianças ou jovens de sua idade com quem brincar ou conversar… O “não querer” do fulano tem um ou mais motivos atrelados. Jamais é um “não querer” puro.

Portanto, se alguém não quer tornar vegetariano alegadamente “porque não quer”, tem motivos ocultos, ainda que estes sejam baseados em preconceitos, em zona de conforto, em prazeres dos quais não quer se desgarrar – ou seja, quase geralmente em aspectos não racionais.

Na verdade o argumento do “não quero” é muito fácil de desmontar: basta perguntar à pessoa por que ela não quer deixar de comer carne. Se ela insiste em dizer “porque não quero” ou “porque não”, é porque está fechada ao diálogo, devendo o conscientizador deixá-la para trás.

***

Este artigo continua na parte 2.

Ler Os mitos da racionalidade e do livre-arbítrio do onivorismo (Parte 2)

imagrs

11 comentário(s). Venha deixar o seu também.

ketley

julho 21 2016 Responder

Acredito que quando nos lemos algo bom, aprendemos mais rapido eu sou a ketley da escola classe 35 parabéns pelo blog que ele sirva de muita ajuda para muitos

Kid

agosto 4 2011 Responder

Muito bom seu texto, cara. Faz um vídeo sobre isso e posta no Youtube.

    Robson Fernando de Souza

    agosto 4 2011 Responder

    Valeu. Mas no Youtube, só quando eu tiver habilidade e dicção (!) boas o suficiente. O que vai requerer uma webcam boa e bastante prática.

Murilo78

junho 3 2011 Responder

Olá Robson! Excelente texto, daqueles pra se guardar nos favoritos e para nos prover de argumentações. Parabéns!

    Robson Fernando de Souza

    junho 3 2011 Responder

    Valeu Murilo =)

BÁRBARA DE ALMEIDA

maio 6 2011 Responder

Acredito que quando nos lemos algo bom, devemos cumprimentar quem o escreveu: parabéns Robson, você me elucida muitos questionamentos que tenho cotidianamente!
Continue assim.

    Robson Fernando de Souza

    maio 6 2011 Responder

    Obrigado Bárbara =) Abs

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo