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Testemunho de não fé: como virei ateu

Um testemunho de não fé pode ser visto com olhos desdenhosos por religiosos e mesmo por alguns irreligiosos, que podem achar que estou fazendo o mesmo que evangélicos que depõem como se converteram ao cristianismo – ou seja, de alguma forma pregando que sigam meu exemplo, que mais pessoas se tornem ateias.

Mas, por outro lado, mostrar às pessoas por que virei ateu poderá lhes derrubar mitos sobre o abandono da fé religiosa – como a falsa crença de que ateus o são porque “fizeram pacto com o demônio” ou porque queriam uma “liberdade libertina” de “embriaguez, orgias e drogas” a despeito dos ensinamentos das igrejas. Assim sendo, o testemunho ateísta pode servir como uma investida contra o preconceito que tantos religiosos têm contra os ateus, suas (des)crenças e sua motivação para ter abandonado a religião.

Meu ateísmo veio em fevereiro de 2005, bem antes de eu ter a visão de mundo que tenho hoje. Posso dizer que foi a primeira grande revolução pessoal pela qual passei – as outras foram o vegetarianismo e o hábito de ler. Eu já estava com minhas crenças teístas em decadência desde meados de 2004, e o ateísmo foi a conclusão dessa desconversão.

Até a primeira metade de 2004 eu era bastante cristão, embora não frequentasse igrejas. Era um cristianismo de tendência protestante. Eu orava todos os dias, acreditava que Jesus existiu e “morreu na cruz para nos salvar”, cria em demônios e encostos – quando havia briga na família, eu achava que era intervenção demoníaca –, levava a sério que Jesus poderia voltar a qualquer momento e a banda que eu mais apreciava era uma banda cristã de metal alternativo.

Então frequentador de fóruns virtuais de tema livre, me deparei em um deles (já extinto), em julho de 2004, com o conto (provavelmente lendário) da entrevista à radialista cristã Laura Schlessinger, no qual se mostrava que o deus cristão era benevolente para com a escravidão e outros absurdos da lei do Pentateuco. Foi minha primeira decepção com a Bíblia – que, a saber, eu nunca tinha lido fora do Salmos 91.

Poucos dias depois, li em um outro site que Deus não só apoiava a escravidão no Velho Testamento como também fazia guerras no mesmo, tal como um grão-general. Minha ideia sempre tinha sido a de que Deus tinha uma ética imutável e pacifista e que os hebreus bíblicos eram um povo pacífico que só guerreava para se defender. Entendi então que eu era cristão simplesmente porque não conhecia a Bíblia.

Então, já voltei às aulas (do pré-vestibular que eu fazia na época) não mais cristão, mas ainda crente em Deus – numa certa crença teísta que denomino pós-cristã. Continuava orando, acreditando em providência divina e crendo que Deus me ajudaria a fazer um grande vestibular. Tanto que, num blog pessoal que eu mantinha naquele tempo (que não era o Consciência Efervescente nem tampouco o Consciencia.blog.br), inseria em cada post, nas semanas anteriores ao vestibular que eu faria para Jornalismo, uma frase parecida com “Deus, me guie rumo à vitória!”, e expressava o desejo de que Deus ajudasse John Kerry a tirar o malfeitor George W. Bush do poder nas eleições estadunidenses de então.

A crença teísta pós-cristã permaneceu estável até o terrível tsunami do Oceano Índico. Tanto que paguei promessa por ter passado no vestibular com uma nota alta andando um grande pedaço da avenida que liga minha casa à UFPE e beijando o chão do prédio onde eu estudaria (por apenas dois meses, desistindo do curso de Jornalismo por crise psicológica).

Depois do tsunami, li em uma notícia um ateu falando que o tsunami e as tantas mortes humanas causadas eram uma prova da inexistência de um deus pessoal como aquele em que eu ainda acreditava. Minha fé então foi minada, e passei por uma transformação gradual da crença à descrença. Via Deus como uma entidade de existência cada vez mais duvidosa. Em janeiro de 2005 fiz uma “oração de despedida”, esperando que a divindade provasse sua existência me ajudando mesmo sem orações.

Poucos dias depois da “oração de despedida”, minha crença “decaiu” ao deísmo – eu passei a acreditar que Deus nada mais era do que uma energia cósmica transcendental que movia o universo, inclusive crendo que a energia escura seria algo que transcendia o universo material, como uma característica do deus-energia transcendente.

Mas a crença não parou mais de “decair”, de modo que passei a ser agnóstico depois de ter deixado de acreditar na energia transcendental, adquirindo um ceticismo incipiente que era o embrião do meu atual pensamento irreligioso. Às vésperas do meu aniversário de 18 anos, em fevereiro de 2005, completei então minha transição ao ateísmo.

Por algumas poucas vezes, nos meses que se seguiram, passei por momentos de conflito com familiares e amigos intolerantes para com ateus. Mas depois deixei de ter esses problemas, uma vez que as pessoas com quem convivo aceitaram tacitamente meu ateísmo. Vez ou outra algum(a) parente ainda tenta me perturbar, insistindo a mim que “Deus (o da Bíblia) existe” e que “Jesus morreu na cruz para nos salvar”, comportamento a que respondo com indiferença.

Hoje vivo muito bem em se tratando de condicionamento psicológico e espiritual. Ao contrário do que o preconceituoso senso comum religioso acredita, não tenho nem um pingo de infelicidade espiritual, nenhum problema relacionado à falta de “respostas” metafísicas. Contemplo a natureza e o fenômeno da vida com muito regozijo, ao contrário do desencanto que supostamente marca o pensamento ateísta segundo religiosos.

Minha posição sobre a morte é que ela é o fim de minha existência, a volta para o nada, mas nada impediria que surgisse uma nova consciência em algum lugar do universo – ou, quem sabe, em outros universos paralelos – que assumisse o papel que minha consciência exerce hoje, o de contemplar e interagir com o mundo fora do meu corpo – a grosso modo, uma espécie de reencarnação sem espírito.

E, para tornar minha convicção ateísta ainda mais sólida do que já é, periodicamente tomo conhecimento de novos fatos que me comprovam que a crença em um deus pessoal é incoerente: orações frustradas com a morte ou sofrimento de pessoas religiosas, pessoas mostrando como o deus em que creem é relativo e subjetivo demais para existir objetivamente, catástrofes que atestam a inexistência de providência divina interventora etc.

Assim eu vou vivendo, sem nenhuma divindade e com muita disposição para viver uma vida feliz.

imagrs

15 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Antonio

outubro 25 2016 Responder

Perder a fé sem nunca ter lido a Bíblia,…..…. fácil..

    Robson Fernando de Souza

    outubro 26 2016 Responder

    1. O que tem de ruim em perder a fé religiosa, quando ela não representava ainda uma muleta psicológica essencial pra pessoa?
    2. O que dizer das muitas pessoas que abandonaram o cristianismo quando leram a Bíblia e se depararam com histórias cheias de crueldade e normas morais discriminatórias?

Vinicius Santos

janeiro 23 2016 Responder

Oi, meu nome é Vinicius, tenho 16 anos e nasci no chamado “berço evangélico” em toda minha vida e nas vezes que eu fui na igreja nunca senti o tão falado, pelos evangélicos o “poder de deus dentro de mim.” O máximo que senti até hoje, foi uma sensação boa depois de falar minhas falhas em oração com Deus (mais quem é que não se sente aliviado depois de um desabafo.)
Como meus pais são evangélicos, eu cresci recebendo o ensinamento que Deus era o centro de tudo, com isso todas as perguntas que normalmente as crianças fazem aos seus pais, eram respondidas a mim com base na bíblia (até demais.) onde quero chegar com isso..
A cerca de 2 anos comecei a discordar de muitas coisas na religião, como o dizimo e os pastores querendo te dizer como se vestir falar e agir. Um fato curioso, é que lá pra 2006 no ministério de santo amaro não era permitido ter aparelhos televisivos em casa, hoje em dia na sede em santo amaro (a igreja das igrejas) tem vários aparelhos enfileirados e como não se bastasse um telão daqueles de estádio rsr (tudo foi bancado com o dinheiro do dizimo). Esses e mais alguns outros motivos foram o causador de minha descrença. Faz meses que não vou mais a igreja, e vi iehfiobfoUIHUIHDEIHDUEIHDUEIHDKOKO

Pedro Aguiar

janeiro 4 2016 Responder

O ateísmo, em primeiro plano, é algo libertador. Digo em “primeiro plano” pois ele nos adverte a uma realidade muito mais vasta que aquela fornecida pelo teísmo. Entretanto, acredito que pelo fato do teísmo ser algo milenar – tendo em vista que evolutivamente nos acompanha em nosso desenvolvimento humanístico-,ele nos serve como um elemento a mais para nossa “sobrevivência” como espécie. É impossível não adentrar nessa linha de pensamento sem nos referir ao mestre dawkins e às suas obras, em especial ao “gene egoísta” e “Deus um delírio”. É uma conclusão minha, a partir da leitura destes, que somos naturalmente espirituais e portanto apelamos às mais diversas crenças que nos elevam os estado de espírito. Apesar de crer que, paulatinamente, nossa espécie irá substituir essa necessidade quase que fisiológica que é o espiritualismo. Aliás, é o que acontece com os nossos bravos companheiros ateístas que, podemos supor, estão a um passo à frente de 75% da humanidade. É uma bravura evolucionista.

Kássia

setembro 11 2015 Responder

Olá!
No meu caso, ( rsrs…) estava passando por uma crise total, onde tudo estava dando errado, logicamente como foi me ensinado onde eu encontraria socorro? Sim, nas igrejas! Então comecei a frequentar umas delas, aceitei Jesus e tal, mas foi quando eu comecei a ler a Bíblia, teologia, ler livros extra bíblicos e pesquisar história da humanidade, que fui questionado (com um medo danado), e mudando a minha visão de Deus perfeito, mesmo assim acreditava que Deus teve seus motivos.
Minha fé não resistiu à tantas pesquisas, teologia, cursos de filosofia e a leitura da bíblia com a minha própria visão, ( a leitura de um livro todo é não aquela com versículos isolados).
Ainda não sei quem sou, (cética, atéia, laica… rsrs) mas com certeza no que eu pudi ler até hoje, no meu raciocínio lógico, moral e ético, a bíblia não é a palavra de Deus é o Deus bíblico não existe.

Poderia ficar até amanhã falando, o quanto foi bom sair da minha zona de conforto e descobrir essa grande mentira das religiões. E o que eu ganhei com isso? Ser a dona da situação, ser meu próprio guia, não ter mais medo de coisas imaginárias, ser sincera comigo mesmana sem máscaras, sem culpa, sem medo…!

Só que em tempos de mentiras universais, em um país cristão, o preconceito sempre irá existir!

Caio

junho 28 2015 Responder

Adorei o que você escreveu.

Eu fui evangélico até os 26 anos. Hoje com 29, vi que os sentimentos de divindade que eu sentia (deus a minha volta) era nada mais que o meu próprio psiquismo, o qual dava muito poder a isso

Hoje eu penso que talvez exista algo, porém, o deus da bíblia é muito humano para ser Deus.

    Robson Fernando de Souza

    junho 29 2015 Responder

    Valeu, Caio =) Abs!

Nicole

março 2 2015 Responder

Ainda me considero católica, mais por motivos culturais do que religiosos. Acho a moral cristã, sobretudo a moral católica, muito úteis, porém a noção de um “deus” me parece cada vez mais absurda. Não por a Bíblia ter contradições, contradições que para mim estão bem explicadas pela tradição católica, mas simplesmente porque para mim é muito difícil encarar a Bíblia como mais do que um livro fantasioso, com algumas histórias reais (embora recheadas de misticismo).

Também achava que era necessário um Deus para que o universo e a vida fossem possíveis, mas depois de analisar bem a questão, é forçoso que cheguemos à conclusão de que é possível que a vida tenha surgido sem uma interferência divina (assim como é possível que um macaco consiga reproduzir um livro de Shakespere se colocado em frente de uma máquina de escrever). Se é possível, e é a explicação mais simples para determinado fenômeno, então deve ser verdade (navalha de Occam). Isso me tornou agnóstica. Deus pode existir, mas Deus não é necessário, como outrora eu acreditava.

tainnara

março 1 2015 Responder

Comentário preconceituoso e com pregação religiosa apagado. Esse tipo de conduta não é admitido por aqui. Respeite os ateus independentemente de termos crenças diferentes das suas. RFS

Morsa

julho 17 2014 Responder

Dava pra ter matado a charada mais fácil: estudar hisstoria e sacar todas as contradições da bíblia, e que ela é um conjunto de escritos assim como os escritos das outras religiões, inventadas por homens. Estudar física quantica e entender a complexidade do universo. Tão fácil, tão simples.

Filomeno

agosto 3 2011 Responder

Pregações não são permitidas nos comentários deste blog. Comentário bloqueado.

Grato,
RFS

Felipe Lakatos

julho 24 2011 Responder

Se você se dizia “cristão” mas não conhecia a Bíblia, então meu filho, você nunca foi um cristão de verdade. Porque um cristão de verdade ou meditaria mais na Palavra e pediria a orientação de Deus ou simplesmente procuraria alguém com mais conhecimento da Palavra, um pastor ou um missionário que tivessem anos de experiência com Deus e a Bíblia, e não se deixaria levar por algo que uma pessoa qualquer sem conhecimento algum da Bíblia disse sobre a mesma.

O resto do comentário foi apagado por se tratar de pregação, está nas regras de comentários do blog que pregações não são permitidas por aqui.

Grato,
RFS

Andrew

maio 15 2011 Responder

Muito legal o testemunho. Chegar a uma posição ateia é um processo. Seu caso é essencialmente ilustrativo: cristão; teísta; deísta; agnóstico; ateu.

Fernando, a noção de “um criador projetista” é claramente amparada, como as perspectivas mais comuns do que seria deus em nossa sociedade, na linha de ver um deus que é fruto nós mesmos enquanto seres sociais, leia-se, “um criador projetista” é um reflexo, é um espelho da sociedade que somos, idealizada nesse ponto de arquiteto e sua construção. Não é por acaso que é direta a vinculação com o “mundo do trabalho”… Pensemos.

Fernando Cônsolo Fontenla

maio 13 2011 Responder

Engraçado que comigo foi ao contrário, fui criado como ateu e aos 19 anos de idade, fazendo universidade, ví que um universo sem um criador projetista é algo que viola a lei da entropia.

    Danilo Lim

    abril 29 2015 Responder

    Sobre o último comentário da lista que diz “Engraçado que comigo foi ao contrário, fui criado como ateu e aos 19 anos de idade, fazendo universidade, ví que um universo sem um criador projetista é algo que viola a lei da entropia.”

    Porque o fato de violar uma lei física implica que Deus existe? Não seria mais fácil melhorar a lei? Deus nasceu em algum momento? Ele se criou? A lei da entropia foi violada quando ele surgiu, pois com seu surgimento houve algo muito organizado e padronizado, então a lei da entropia não é salva ao dizer que o mundo foi criado por um projetista.

    Além disso, aparentemente há formações cristalinas que violam a lei da entropia. Isso quer dizer que estes cristais são obras mais direta de Deus? A vida em si não viola esta lei, pois a entropia de um ser vivo diminui, mas o aumento total da entropia provocado no universo devido à formação deste ser vivo é positiva mesmo somando a entropia negativa de formação do ser vivo. Aparentemente, poderia dizer que estes cristais estão mais próximos de Deu que os homens?

    Acho que o autor do comentário não vai responder, mas fiz algumas questões só para levantar questões que levantei quando li.

    Para finalizar: o rapaz deu uma importância à uma lei física maior que a própria existência de Deus, porque a hipótese desta lei estar errada não foi levantada, pelo contrário, por ela ser violada é que se permite concluir que Deus existe. Para mim não faz sentido… Como diz Stephen Hawking, “a hipótese de Deus não é necessária para explicar a formação do Universo”.

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