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maio11

Tortura em nome da ciência (Parte 42: sob as bênçãos da Globo)

Proteína ajuda a prevenir e tratar lesões graves causadas por acidentes

É um desafio que move pesquisadores de todo o mundo: encontrar tratamentos para as doenças que atormentam o homem. A busca é muito antiga. Mais recente é a tendência de achar no corpo do próprio homem a esperança para a cura.

Em um laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisa é em cima de uma proteína: a laminina. Há cinco anos os resultados têm sido promissores para recuperar lesões na medula que deixam milhões de pessoas todos os anos em cadeiras de rodas.

A laminina é encontrada em tecidos do corpo humano, nos músculos e na placenta. É fácil de ser coletada e conservada em um freezer comum. “Nós temos várias alíquotas. Essas alíquotas são diluídas na hora. O que fazemos é apenas adicionar um diluente. É só um volume bem pequenininho: três gotinhas, um microlitro”, explica a professora da UFRJ Tatiana Coelho Sampaio

É pouco, mas é o suficiente para conseguir bons resultados em ratos de laboratório que passam por uma cirurgia simples. A única diferença da coluna cervical do rato para a do homem é o tamanho. Dentro da medula tem vasos sanguíneos e os axônios, que levam as ordens do cérebro para o resto do corpo.

A equipe de reportagem do Bom Dia Brasil acompanhou uma cirurgia que, com a introdução de um cateter, vai provocar um esmagamento, a lesão da medula – exatamente como se fosse um acidente de carro ou a queda de um cavalo. Os axônios são rompidos, ocorre uma hemorragia, e o rato perde o movimento das patinhas de trás.

O centro cirúrgico foi montado no próprio laboratório, com luz especial e proteção para os sensíveis olhos do bichinho. O pesquisador Marcos Assis Nascimento, doutorando da UFRJ, faz a lesão com o cateter em pouco tempo.

“Cinco minutos se passaram com o cateter inflado dentro da medula e já provocamos a lesão. O rato vai ser tratado com laminina, e o tratamento vai ser agora”, explica o doutorando.

Vinte e quatro horas depois, a equipe de reportagem retorna ao laboratório e já reencontra a professora da UFRJ, Tatiana Coelho Sampaio, com toda a equipe de alunos. Mas o que mais interessa nesse momento é saber como estão os ratinhos.

Não há muita dúvida de que é um dos ratinhos que não passaram pelo tratamento, porque ele está bem paradinho. Já um ratinho que passou pela cirurgia e também passou pelo tratamento, pela injeção de laminina, tem uma limitação do movimento da pata, mas ele tem uma movimentação muito maior.

Sete dias depois, o ratinho que não foi tratado tem uma clara dificuldade de se apoiar nas patas traseiras. O outro tem a movimentação quase normal. Em quanto tempo vai ter a possibilidade de fazer testes em seres humanos dessa proteína?

“A limitação não é científica. É uma limitação mais logística. Os dados científicos nós temos já prontos. O que a gente imagina é testar inicialmente em paciente agudos para ver se a gente consegue reproduzir esse feito até o final na recuperação melhor desses pacientes”, afirma a professora Tatiana Coelho Sampaio.

Em breve começam os testes em seres humanos. A vantagem em relação às células-tronco, que também fazem parte de um tratamento muito promissor, é que, segundo a UFRJ, a proteína pode ficar guardada em uma geladeira comum e pode ser coletada de qualquer pessoa – e não apenas da própria pessoa que sofreu o acidente.

Vídeo da reportagem, mostrando como é natural e irrelevante que se explore esses animais, causando-lhes lesões e deficiências:

Sob as bênçãos da Globo, emissora pró-rodeios, pró-vivissecção, pró-consumo de leite e antiveganismo, os cientistas violentaram diversos ratos em laboratório para testar o tratamento à base de laminina. A emissora mostrou o processo como se eles nada sofressem, e não houvesse nada de errado ou pelo menos eticamente questionável no processo.

Para engrossar o caldo, mostrou o ratinho com as patas paralisadas como se aquilo fosse a coisa mais trivial do mundo de se ver. Como se violentar, lesionar e não tratar um animal não humano (apenas alguns tiveram a laminina injetada) fosse bem aceitável e normal.

Ética ali foi irrelevante. Não se exibiu qualquer objeção ética à atitude de forçar um animal a uma experiência sem que ele possa escolher entre sim e não, feri-lo com algo tão severo quanto paralisar permanentemente os movimentos de suas patas e deixá-lo sem tratamento (caso do ratinho que permaneceu para ou tetraplégico). Não se chegou nem perto de se questionar se temos algum direito de usar animais não humanos, mesmo de forma tão ofensiva.

Pelo contrário, mostrou-se tudo com muita naturalidade, de uma forma bem didática (?), ensinando aos telespectadores, seja lá de que faixa etária, que ratos “de laboratório” não valem nada moralmente além da “utilidade” de servirem como objetos de experiências violentas. Que eles não são nada além de autômatos sem sentimentos, produzidos de fábricas para livre uso humano. É como se a relação algoz-vítima, praxe na vivissecção, fosse tão inofensiva e natural quanto uma relação entre amigos.

Quero ver quando o tema Direitos Animais crescer tanto em notoriedade quanto o vegetarianismo vem crescendo hoje. O que a Globo vai mostrar sobre Direitos Animais, sobre o abolicionismo animal, sobre a proposta de abolir a exploração de animais não humanos?

 

P.S: Esta reportagem, além de abençoar a tortura de ratos em laboratório, comete o vício que o mundo moderno todo comete: representar o ser humano apenas com imagens masculinas, de homens. Espero adquirir inspiração e conteúdo suficientes para escrever um artigo sobre isso nas próximas semanas.

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