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jun11

As árvores ou os empregos: os progressistas reacionários do desenvolvimentismo

Há uma categoria de pessoas que, ao mesmo tempo em que defendem ufanicamente o modelo tradicional de desenvolvimento econômico e desqualificam e até ofendem quem lhes dirige objeções ambientalistas, negando-se a um debate racional. Abrange desde anônimos até blogueiros de renome.

Em tempos de Código Florestal, Belo Monte e expansão de Suape, eles estão com a corda toda. Exaltam ruralistas como Aldo Rebelo e desenvolvimentistas sem sustentabilidade como Dilma Rousseff e Eduardo Campos, ao mesmo tempo em que menosprezam e ridicularizam publicamente aqueles que argumentam em favor de uma política sócio-econômico-ambiental de sustentabilidade.

Enquanto veneram o desenvolvimentismo nacionalista desprovido de responsabilidade ambiental, chamam a todos que questionam a eles e aos mentores da insustentabilidade (políticos ruralistas e industrialistas) de “entreguistas”, acusam-nos de estarem em complô com o capital estrangeiro, com quem “quer para si os recursos naturais do Brasil”, como numa conspiração paranoica.

E muitas vezes encaram o embate desenvolvimentistas X ambientalistas (mais cidadãos ambientalmente conscientes) com um pueril maniqueísmo político: os primeiros seriam progressistas sacrossantos e inquestionáveis, enquanto os últimos seriam reaças entreguistas mancomunados com a direita neoliberal.

Os argumentos são bastante pobres, muitas vezes comportando-se como papagaios dos seus “gurus do desenvolvimento”. Alguns exemplos:

– Os ambientalistas querem nada mais que entregar as riquezas do Brasil aos estrangeiros (não simplesmente conquistar o direito à paz ambiental e a uma vida sustentável);

– Ambientalistas não querem emprego, só querem árvore (porque ecoturismo e ecoempreendimentos são coisa de fracassados);

– Os ambientalistas querem fazer o Brasil retroceder à época em que o cavalo era o principal meio de transporte (pois, afinal, é impossível conciliar desenvolvimento socioeconômico e tecnológico com preservação ambiental);

– O Brasil é o único país que obriga proprietários de terras a manter reservas legais e APPs (tá errado; o correto é “limpar” tudo como nos países desenvolvidos);

– O Código Florestal precisa ser flexibilizado, porque é muito rigoroso e criminaliza XX% de proprietários de terra (o certo é a lei se ajustar aos proprietários de terra, não eles à lei, nem ajudá-los a se adequar);

– As obrigações ambientais tornam ilegais a avassaladora maioria dos proprietários de terra (logo, o jeito não é ajudá-los com financiamento e assistência técnica a recompor a vegetação, mas sim abolir de vez seus deveres legais de preservá-la);

– Enquanto no Brasil os fazendeiros são obrigados a manter reservas legais e APPs, os fundiários do Norte podem plantar onde quiser, em toda a extensão de suas terras (ou seja, o certo é o Brasil copiar o modelo estrangeiro e destruir tudo que a lei hoje protege);

– Sem Belo Monte, o Brasil vai sofrer apagões (investir em novas fontes de energia, eficiência energética e combate a desperdícios, nem em sonho);

– Belo Monte não vai alagar tanto assim (só 51600 campos de futebol);

– Belo Monte não vai alagar nenhuma terra indígena (que bom, porque secar o trecho do rio localizado em território indígena não é nada demais);

– Ambientalistas são contra a expansão de Suape (porque só existe um único jeito de o complexo industrial-portuário se expandir, e é devastando o estuário; nenhum mais);

– Não há jeito de expandir Suape sem supressão vegetal (sic) (para que investir em engenharia geológica para criar novos lugares para a construção de estaleiros e indústrias ou comprar espaço nos canaviais de Ipojuca e do Cabo de Santo Agostinho, se é muito mais fácil e barato destruir um estuário?);

Para eles, vale tudo para o Brasil se tornar uma versão tropical e democrática da China. Vale empurrar goela abaixo da população uma lei florestal claramente impopular e uma hidrelétrica gigante idem. Vale detonar um estuário quase inteiro à revelia da opinião pública. Vale ignorar o Ministério Público Federal e a Organização dos Estados Americanos. Vale “debater” Belo Monte pondo na mesa todas as possibilidades exceto a de não construir a usina. Ou discutir o Código Florestal descartando a priori a opção de deixá-lo como está (código de 1965).

Vale provocar choro nos índios do Xingu, desespero nos agrossilvicultores de Tatuoca e revolta em milhões de brasileiros. Vale ameaçar o fornecimento de água aos humanos (as nascentes e mananciais precisam de vegetação ao redor para se renovarem), expor milhões de pessoas a enchentes e desmoronamentos de morros, proporcionar ataques de tubarões matando dezenas de pessoas, ferir culturas indígenas… Vale também pôr os brasileiros em perigo constante de catástrofes climáticas.

Enfim, vale tudo para fazer o Brasil se desenvolver como um autêntico país do BRICS, mesmo que seu povo seja impedido de desfrutar de qualquer qualidade de vida. Porque, afinal, quem precisa de meio ambiente se temos dinheiro? Dá para substituir o verde das folhas pelo das notas de dólar.

E quem discordar deles, quem entrar com a conversa da sustentabilidade, do respeito ao meio ambiente, será taxado de “verdentreguista”, “ecochato”, “ecotalibã”, “abraça-árvore”, “verdeamericano” e convidado a pensar nas crianças com fome (em quem eles evidentemente não pensam).

Assim pensam os desenvolvimentistas tradicionais de hoje. Defensores do progresso econômico e do regresso ambiental. Gente que varreria a Amazônia do mapa e construiria um estacionamento no lugar dela sem hesitar se isso fosse bom para o “desenvolvimento” do Brasil. Gente que prega o progresso no século 21 com a lógica do 19.

É o tipo da mentalidade de que devemos nos salvar. E que os seus adeptos precisam abandonar, uma vez devidamente confrontados na argumentação e na política.

Quando a última árvore tiver caído,
Quando o último rio tiver secado,
Quando o último peixe for pescado,
Vocês vão entender que o dinheiro não se come.
(Provérbio de protesto do povo cree)

imagrs

4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Jessica Meireles

junho 8 2011 Responder

Excelente texto!

    Robson Fernando de Souza

    junho 8 2011 Responder

    Obrigadim Jessica =)

Guilherme Jungbluth

junho 7 2011 Responder

Estou contigo !!

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