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jun11

Campanha pró-vivisseção: quadrinhos para alienar os jovens

Trecho de história em quadrinhos criada para alienar jovens acerca da vivissecção. Fonte: etica(???)napesquisa.org.br

Em meio à campanha de “conscientização” sobre a dita importância das pesquisas com animais não humanos, iniciada no ano passado, descobri recentemente no site eticanapesquisa.org.br, seu site oficial, uma cartilha de visual e linguagem juvenis que inclui uma história em quadrinhos sobre a exploração de cobaias em laboratório. Basta uma lida atenta para percebermos como a historinha é tendenciosa e bastante preconceituosa, omite diversos aspectos críticos da vivissecção e desenha de forma muito depreciativa aqueles que são contrários a essa atividade.

Nos quadrinhos, carregados de uma linguagem exageradamente giriada, os opositores da pesquisa com animais são mostrados como gente muito leiga e desprovida de embasamento, que não sabe justificar com qualquer profundidade por que a vivissecção é uma violência que deveria ser paulatinamente abandonada.

São centrados na figura de Duda, uma moça esquisita e irritadiça que não sabe explicar por que é contra o uso de cobaias fora dizer, de forma extremamente superficial e sem qualquer argumentação, que “é uma crueldade”, “é um massacre” e que “viu na internet”, fazendo alusão a “bichinhos”. Ela, na posição equivalente à de vilã, dá aos defensores animais um estereótipo de histéricos, mal-humorados, briguentos, desinformados e radicais irracionais.

E para piorar, ela, ao invés de usar o trabalho da escola sobre vivissecção para denunciar as violações éticas e as próprias crueldades a que ela tanto alude, simplesmente se recusa a participar dele. Mostra-se o tempo todo fechada a qualquer debate e exibe antipatia, pensamento ad hominem, à personagem que defende a atividade. Sem falar que é facilmente desarmada por qualquer argumentação pró-vivissecção, por mais simplista que esta seja.

No desenrolar da história, o grupo de jovens protagonistas visita um biotério, onde um biofísico pai de uma das personagens trabalha. De cara, não há na estória sequer uma vírgula sobre o confinamento, a privação de liberdade, o fato de que os animais “de laboratório” nascem para uma vida inteira de prisão. O biofísico ainda pergunta aos adolescentes: “Olhem em volta e me digam se algum animal está sendo torturado”, omitindo que os maus tratos acontecem durante as pesquisas e ignorando que o aprisionamento de inocentes também acaba sendo uma forma implícita de tortura.

Daí em diante, uma exposição sobre os benefícios da exploração animal científica, sobre como é justo e válido causar câncer, eletrocutar, traumatizar, viciar com drogas pesadas, infligir as mais diversas dores e doenças, provocar ataques cardíacos etc. – obviamente escondendo tudo isso –, características como o ciclo de vida curto das cobaias, a suposta interferência do sofrimento nos resultados das pesquisas e a aplicação veterinária da vivissecção e os supostos esforços de “minimizar” o sofrimento – como se a causação de problemas provocadores de sofrimento não fosse intrínseca à atividade. Além de declarar que a ciência biomédica atual é visceralmente dependente da exploração de cobaias e (voluntariamente) incapaz de desenvolver métodos superiores de pesquisa.

É interessante perceber que as palavras ética e direitos não aparecem em momento algum da historinha. Absolutamente nenhum questionamento é feito ao ato de explorar seres que não podem aceitar ou recusar participar de experimentos, ao acima citado regime de prisão a que eles são submetidos e à arrogada liberdade de se tratar animais não humanos como seres inferiores, como objetos de uso livre.

No final, depois de sua mãe dizer que seu irmão deficiente auditivo poderá ser curado graças a uma experiência de recuperação da audição de cobaias (que obviamente implicará ferir o ouvido de animais para deixá-los surdos), Duda se arrepende de ter compaixão pelos animais “de laboratório” e declara implicitamente que é um erro ser “muito radical” a ponto de se posicionar contra a vivissecção. Na posição de vilã arrependida, passa a aceitar que camundongos, ratos e outros bichos sejam torturados em experiências.

Infelizmente esse tipo de veículo de linguagem juvenil tem um poder muito alto de convencer jovens desinformados, providos de pouco senso crítico, de que não há problema ético algum em usar animais não humanos em pesquisas. Assim sendo, acaba sendo bem-sucedida a iniciativa dos setores interessados na vivissecção de alienar as pessoas convencendo-as de que a tortura de animais em laboratório é muito importante e nunca poderá ser substituída.

É nessas horas que deveríamos estar vendo uma movimentação mais engajada por parte dos abolicionistas na internet, o meio de comunicação mais democrático existente, para fazer contraparte a essa campanha. Esta promovida por organizações científicas que não estão nem um pouco interessadas em considerar os animais não humanos seres merecedores de direitos como a vida, a liberdade e a integridade físico-psicológica.

imagrs

6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernando Cônsolo Fontenla

junho 24 2011 Responder

As tais comissões de ética são uma farsa e quem lá for a favor da coexistência pacífica entre humanos e animais acaba, simplesmente, sendo um voto vencido. Luiz Normanha passou por isso.

A resposta a esta cartilha deveria ser um fanzine que divulgue o veganismo. Uma história juvenil que mostre, justamente, um abolicionista refutando os argumentos viviseccionistas.

    Robson Fernando de Souza

    junho 24 2011 Responder

    Com certeza, Fernando, seria o máximo. Vou tentar repassar essa ideia pro Ativeg nacional.

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