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jun11

O desalento de quem tem um poder de conscientizar mais limitado do que pensava

Em certas épocas percebo o quanto sou limitado em conscientizar as pessoas ao meu redor, mesmo algumas das mais próximas a mim. Num mundo ideal todos seriam abertos à mudança de hábitos nocivos e de crenças equivocadas, mas não é assim que funciona na realidade. Tenho este blog com o fim de conscientizar as pessoas interessadas (no bom sentido) na arte de pensar, mas na realidade vejo que alguns indivíduos (aliás, alguns não, muitos!) se fecham em sua ignorância e alienação e recusam qualquer mudança, mesmo que esta diga respeito à sua própria vida e às das pessoas que lhes são mais próximas e queridas.

Digo isso porque percebi hoje que meu poder de conscientizar é bem mais limitado do que eu pensava. Às vezes me sinto como se fosse incapaz de influenciar as pessoas fora da internet, mesmo as que me são mais íntimas, ainda que esteja engajado na divulgação online de uma nova consciência desde 3 anos atrás.

Esse ano finalmente seria um ano sem fogueiras aqui em minha casa. Mas minha tia inventou de comprar uma pilha de lenha na feira. Lenha essa com altíssima probabilidade de ter vindo de desmatamento ilegal. Eu só soube dessa desfeita no fim da tarde de hoje, quando olhei para a praça próxima de minha casa pela primeira vez no dia e vi ali uma droga de fogueira montada. Então falei para ela: “Sabia que essa lenha que vende pelas ruas em época junina pode ter vindo de desmatamento ilegal?”.

Ela respondeu: “E daí? As matas não vão acabar de qualquer jeito mesmo?” Ainda trepliquei: “Você não quer ser parte da solução, mas não se importa em ser parte do problema?”, retrucação que me foi respondida com o silêncio de quem ignora que está contribuindo para a destruição das florestas nordestinas e a piora do efeito-estufa.

É de se notar também que essa tia é a creófila (consumidora de carne) mais inveterada da família. Toda vez, sem exceção, que ela vem aqui em casa em feriadões, ela traz do supermercado uma pilha de carnes das mais diversas variedades, para meu profundo desgosto. Já falei com ela algumas vezes sobre a questão da carne, não para, como dizem, “convertê-la” ao vegetarianismo, mas para alertar sobre os perigos do consumo indiscriminado de carne. Mas minhas palavras entram num ouvido dela e saem no outro.

Ver que certas pessoas têm a mente tão fechada e se recusam a qualquer orientação de consciência é um motivo enorme de desânimo. E isso atinge também minha própria credibilidade enquanto conscientizador e aspirante a influenciador de novos comportamentos. Porque é uma vergonha, quando não uma hipocrisia, que alguém que se diz ambientalista e é declaradamente contra o uso de fogueiras juninas tenha uma fogueira na frente de sua casa, acendida por gente de sua própria família, e se sinta tão impotente em tentar convencer pessoas de seu círculo próximo de convivência a deixar de acender fogueiras.

Sei que muitos vão dizer que o problema aí não sou eu, mas sim quem não aceita ser conscientizado, mas isso mostra que minhas habilidades de argumentação e influência escritas não têm correspondência na minha oralidade. E nesses momentos lembro que não consegui ainda introduzir minha própria família ao respeito incontraditório pelos animais não humanos. Sou o único veg(etari)ano da família estendida (minha família nuclear mais tios, primos, sobrinha, cunhadas e avós) e convivo com pessoas (não generalizando) que aprisiona(va)m peixes em aquários, fazem churrascos todo São João e Natal, fazem fogueiras juninas, não se comportam ambientalmente bem (vide vacilos em hábitos básicos como economia de água e energia, desperdício de alimentos e alienação de responsabilidade ambiental coletiva) e se negam a comer em restaurantes vegetarianos.

Não é razão de fechar o Consciencia.blog.br, até porque é ele que me impele a mudar práticas tradicionais nocivas que até certo tempo atrás eu próprio cometia, mas é de olhar para mim mesmo, reconhecer que sou um conscientizador praticamente limitado à internet e procurar alguma orientação para adquirir uma habilidade mínima de diálogo conscientizador offline (não proselitista).

Aceito nos comentários deste texto sugestões de livros sobre diálogo questionador e conscientizador. Desde diálogos de Sócrates até autoajudas modernas sobre como melhorar o poder de dialogar oralmente sobre ideias e influenciar positivamente as pessoas pela fala persuasiva esclarecedora.

imagrs

17 comentário(s). Venha deixar o seu também.

marcio de almeida bueno

dezembro 21 2011 Responder

claro que não, refiro-me às possibilidades de cruzar relações com quem temos afinidade, e não com quem as estruturas sociais nos colocaram em contato – parente, colega de trabalho, vizinho etc. de certa forma, a própria internet facilitou que esse contato se fizesse facilmente, até pq no mar de gente que vemos pelas redes sociais, todo mundo é ‘lindo, bonito e joiado’, mas uma peneirada nos faz encontrar o pessoal 100%. sem isso, meu grupo de ativismo nao estaria tão articulado, meus artigos não estariam rodando tanto, eu não teria sido chamado para fazer parte da ANDA etc. e isso tudo ajudou horrores na minha militancia de ‘dar F5’ no cerebro das pessoas. ganhos cada vez maiores, perdas menores. força!

Mírian

julho 10 2011 Responder

Robson, eu tenho muito a agradecer a você. Tenho mudado minha vida a partir dos seus textos. E assim como eu, deve ter muitos por aí. Seu trabalho é admirável!!

    Robson Fernando de Souza

    julho 10 2011 Responder

    Também te agradeço, Mírian, pela apreciação =)

Aurelio Coelho

julho 9 2011 Responder

Não é a alternativa mais ética, mas existe esse artigo, que tem muitas boas opções para desconstruir argumentos usando técnicas de discurso e debate:

http://scienceblogs.com.br/100nexos/2009/02/como-vencer-um-debate-sem-ter-razo.php

Coisas como desestruturar seu interlocutor ao invés de combater seus argumentos.

Evely Reyes Prado

julho 6 2011 Responder

Sabe, Robson, entendo perfeitamente o que voce diz e é muito difícil conviver numa sociedade onde todos os valores estão trocados. As pessoas pensam que as atitudes delas não vão alterar em nada o rumo do que já está traçado e em razão disso acabam sendo levadas pela maré sem ao menos tentar tomar uma iniciativa diferente.
Conforme a gente vai adquirindo essa consciência, mais responsabilidade a gente vai tendo sobre tudo o que se passa e torna-se impossível ignorar tantos absurdos que ocorrem a nossa volta! Infelizmente a reforma interior é diferente de pessoa para pessoa e cada um tem seu tempo certo para descobrir isso. Ficaria tudo mais fácil se o ser humano entendesse que não pode fazer ao próximo aquilo que não quer que façam a ele. O caminho é árduo e há que se ter muita paciência, mas não se pode jamais perder a esperança e a fé em si mesmo!
Seu trabalho é excelente, mas é de formiguinha nesse mundo de hoje!
Um abraço e muita força!

    Robson Fernando de Souza

    julho 6 2011 Responder

    Obrigado, Evely. Concordo com tudo o que vc diz.

    Abs

marcio de almeida bueno

julho 2 2011 Responder

1 – ‘ética e animais – um guia de argumentacao filosofica’, de carlos m naconecy

2 – esqueça os parentes e ‘vá procurar sua turma’, nos multiplos significados desta setença.

abraço!

    Robson Fernando de Souza

    julho 2 2011 Responder

    Obrigado, Marcio, mas…
    “Vá procurar sua turma” no mau sentido também?

Leonardo Mendel

junho 30 2011 Responder

foi o que eu quis dizer com nunca e em vao… concordo com vc

Leonardo Mendel

junho 30 2011 Responder

Grande Robson, essas duvidas paira(vam) pela minha cabeca ate um dia desses… Cara nos nao podemos ter essa pretensao de mudar as pessoas, se fosse a uns 3 anos atras provavelmente eu ia rir junto com a sua tia… so processos internos de mudanca conseguem romper a barreira do comodismo, rotina e falta de conexao. Tem muita coisa envolvida, mas o principal e o seguinte. Nada nunca e em vao… abracos e sucesso!!!

    Robson Fernando de Souza

    junho 30 2011 Responder

    Concordo contigo, Leonardo. Mas muitas vezes processos de mudança de dentro pra fora não começam sem ser incitados por algum agente externo. Até porque é extremamente incomum alguém, do nada, sentar e meditar em reflexões filosóficas reviravoltivas que mudem radicalmente crenças e hábitos tão corriqueiros.

    Abs

Bárbara de Almeida

junho 27 2011 Responder

Cara, não sei o que te dizer, afinal, minhas dúvidas e vergonhas são as mesmas. Mas veja pelo lado bom: a garota aqui aprendeu muito com você, (como já disse antes) – e continuo aprendendo. Se você acreditar que conscientizar apenas uma pessoa já tá valendo, parabéns :)

    Robson Fernando de Souza

    junho 27 2011 Responder

    Valeu, Bárbara, de coração =)

    bjão

Cesar Carvalho

junho 24 2011 Responder

Como diria Raul Seixas “é uma pena eu não ser burro, assim eu não sofria tanto”.

Ser alguém consciente em meio à um oceano de pessoas que passam pela vida feito sonâmbulas, totalmente alheias e indiferentes ao que ocorre além de seus próprios umbigos certamente é doloroso, causa ansiedade e uma boa dose de estresse.

Para pessoas como você, contudo, retornar ao estado de zumbi, de robozinho do sistema (usando o termo do Márcio de Almeida Bueno) infelizmente deixou de ser uma opção. Depois que você enxerga a realidade não consegue mais “desenxergá-la” ;)

E assim a gente vai tocando a vida, com aquele constante nó na garganta que só sente quem quer muito mudar o mundo (para melhor!) mas percebe que a inércia – e inépcia – humana é colossal.

Fernando Cônsolo Fontenla

junho 23 2011 Responder

Recomendo este link:

http://www.wikihow.com/Become-an-Activist

E digo que família é assim mesmo e que idosos não possuem a capacidade de mudança que os jovens possuem. Focalize o seu tempo nos mais novos.

    Robson Fernando de Souza

    junho 23 2011 Responder

    Valeu, Fernando, vou ler com mais atenção daqui a pouquinho.
    Abs

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