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jun11

Reacionários querem criar em São Paulo o Dia do Orgulho Hétero

Deu agora há pouco no site da Exame: a Câmara Municipal de Sâo Paulo está discutindo a criação do “Dia do Orgulho Heterossexual”, que aconteceria em todo terceiro domingo de dezembro.

O movimento parlamentar para a aprovação desse dia acontece sob o comando de, adivinhem quem, um parlamentar-pastor: o vereador Carlos Apolinário, do direitista e pseudoliberal DEM, vereador esse “que há três anos é contra a realização da Parada do Orgulho LGBT na Avenida Paulista”.

O projeto tenta estabelecer a seguinte lei:

A CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO decreta:

Art. 1º – Fica instituído, no Município de São Paulo, o Dia do Orgulho Heterossexual, que será comemorado, anualmente, no 3º (terceiro) Domingo de Dezembro de cada Ano.

Art. 2º – A data instituída por esta lei passará a constar do Calendário Oficial do Município de São Paulo.

Art. 3º – O Executivo envidará esforços no sentido de divulgar a data instituída por esta lei, objetivando conscientizar e estimular a população a resguardar a moral e os bons costumes.

Art. 4º – As despesas decorrentes da execução desta Lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias, suplementadas, se necessário.

Art. 5º – Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Ou seja, puro argumento reacionário, de quem tenta impor a uniformidade de orientação sexual para uma população sexualmente diversa e reprimir a homoafetividade.

Toda vez que você ouvir falar de “moral e bons costumes”, saiba que estão tentando censurar o direito de alguém – do ateu à sua descrença, da mulher a sair com a roupa que quiser, dos homossexuais à liberdade de serem homossexuais, d@s travestis à liberdade de ter a identidade de gênero que bem quiserem, dos anarquistas de preconizarem uma sociedade sem Estado, dos comunistas de preconizarem a extinção da estratificação socioeconômica das pessoas…

O orgulho é uma ferramenta subjetiva de defesa de identidade das minorias (raça negra, homossexualidade, nacionalidade estrangeira, irreligião ou religião minoritária, gênero feminino [que é uma maioria numérica mas é tratado como um gênero secundário e menor pela sociedade machista-androcêntrica], nordestinos migrantes etc.) para se protegerem das humilhações, discriminações e tentativas de inferiorização de seus atributos que as fazem ser minorias – em outras palavras, da opressão que a categoria dominante lhes inflige. Definitivamente não se aplica a maiorias opressoras que tentam censurar ou violar os direitos de outrem. Se um minoritário tem orgulho de sua minoria, é simplesmente porque pretende, através desse orgulho, passar a mensagem “Eu sou o que sou e gosto de ser o que sou, e ninguém tem o direito de me censurar ou discriminar por isso”.

E podemos perceber que o tal “orgulho hétero” pregado pela bancada da homofobia é nada mais do que uma máscara para esconder pretensões discriminatórias. A “opressão” de que se defendem é simplesmente o fato de a minoria LGBT incomodá-los apenas por existir.

Posso parecer estar incidindo na falácia do declive escorregadio, mas o “orgulho hétero” promovido por políticos homofóbicos daria margem à manifestação do “orgulho cristão” por parte de quem, odiando minorias não cristãs, se incomoda com a existência de outras religiões e de irreligiosos. Também daria margem ao “orgulho branco” de racistas que se acham “ameaçados” pela coexistência de negros, índios, asiáticos e mestiços. Assim como ao “orgulho masculino”, de quem acha preconceituosamente que as feministas, ao lutarem por igualdade de direitos e de tratamento e dizerem que gostam de ser mulheres, querem “tomar o lugar do homem” e “dominar o mundo”.

O PT da cidade de São Paulo é contra o projeto e obstruiu a sessão. Não vão votar nada enquanto não retirarem de pauta o homofóbico e reacionário projeto de lei.

E neste momento a tag Orgulho Hetero está no topo dos tópicos da tendência brasileiros e em 4º lugar nos tópicos mundiais. A grande maioria dos tweets “top” e também a maioria geral dos tweets com a tag felizmente são de oposição à iniciativa. Numa realidade em que tantos twitam “Bolsonaro para presidente“, isso é um avanço e uma esperança de que os brasileiros estejam no caminho da conscientização em prol da igualdade de direitos e de tratamento para todas as minorias hoje discriminadas.

imagrs

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fabiola

julho 2 2011 Responder

Acho engraçado essa ideia de orgulho hétero, afinal homens, héteros, brancos só participaram de toda a história mundial fazendo as leis, matando aqueles que julgaram ser inferiores, ou merecedores de morte, são dominantes em todo mercado de trabalho e política, enfim mandam e desmandam no mundo. Mas ok, estamos em um estado supostamente livre eles tem o direito, ainda bem que tbm temos o direito de apontar o dedo e falar ” Vocês são uns babacas ridículos.”

E de certa forma a maioria das pessoas tem a cabeça boa de achar isso uma perda de tempo.

Amanda

junho 29 2011 Responder

“Posso parecer estar incidindo na falácia do declive escorregadio, mas o “orgulho hétero” promovido por políticos homofóbicos daria margem à manifestação do ‘orgulho cristão’…”
“Assim como ao ‘orgulho masculino’, de quem acha preconceituosamente que as feministas, ao lutarem por igualdade de direitos e de tratamento …”

Orgulho masculino não…
Orgulho macho (tampem os narizes).

Gostei do seu blog. Vou colocar nos meus favoritos.

    Robson Fernando de Souza

    junho 29 2011 Responder

    Valeu Amanda =)

wKad

junho 22 2011 Responder

Nada contra a ideia de um dia do orgulho hétero (partindo do princípio de que, se há um dia do orgulho homo, os héteros também tem tal direito, e os a e os bi também), mas as circunstâncias em que o projeto foi proposto, somado com o texto do terceiro artigo… Realmente me dá enjoo…

Seu blog é fantástico, bom trabalho o/

    Robson Fernando de Souza

    junho 22 2011 Responder

    Valeu pela apreciação =)

    Sobre o “orgulho hétero”, direito eles têm, mas razões válidas não.

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