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jul11

Deborah Sá: sustentabilidade e bem-estarismo

Artigo muito bom de Deborah Sá, do blog Aquela Deborah, sobre os engodos da “sustentabilidade” das corporações e do bem-estarismo. Vale a pena ler.

 

Sustentabilidade e bem-estarismo
por Deborah Sá

A Sustentabilidade se baseia na produção de bens de consumo reduzindo sempre que possível, os impactos ao meio ambiente. Atendendo a demanda, empresas investem em divulgações que tornem explícitas o quão cautelosa é a seleção de mão de obra, material, origem e transporte até que o produto seja consumido. Em 2007 Anya Hindmarch criou a “I am not a plastic bag”, uma sacola para transportar itens dispensando as costumeiras embalagens plásticas, a idéia foi recebida com entusiasmo inclusive no Brasil, onde qualquer feira livre dispõe de sacolas estilizadas há décadas.

Assim as Ecobags atenderam um novo público: “@ consumidor@ consciente”. Geralmente de classe média, maior acesso a informação e poder aquisitivo suficiente para investir em compras que não pesarão tanto na consciência e que de alguma maneira faça valer sua participação enquanto cidadã@.

Companhias petrolíferas e grandes corporações proclamam em peças publicitárias ensolaradas todo o esplendor da Nova Era Sustentável, que pode ser resumida em: “Fique tranqüilo, nós não queremos apenas seu dinheiro também o usamos para um mundo melhor e você faz parte disso. Obrigado”.

Depois de acalmar os ânimos e congratular pelo benefício coletivo indireto, nos resta sorrir pela satisfação de dever cumprido. Se essa Sustentabilidade é abraçada pelo Capital, há muitas razões de sê-lo. A abordagem propositalmente superficial limita os questionamentos éticos que envolvem o sistema Capitalista e suas manobras, em verdade, cria pessoas realmente orgulhosas e aliviadas em aumentar os lucros de logotipos familiares.

Optando tão somente por essa interpretação, atos como desligar a torneira enquanto se escova os dentes e reciclar o lixo ganham ares desproporcionalmente heróicos. Para amplitude do debate, cabe uma honesta questão: São atos que se bastam? Se a maioria das latinhas de alumínio no Brasil é reciclada, quem as recolhe? Fazem isso pelo planeta ou porque é fonte de renda? A empresa que produz refrigerante aproveita a deixa “Nós reciclamos, faça sua parte” e o consumidor muito feliz, deixa-se levar.

Sustentabilidade alheia a má distribuição de renda, os métodos de produção, a desigualdade entre as minorias sociais e toda a cadeia de eventos até as prateleiras, é um engodo sedutor excepcionalmente lucrativo para seus produtores vistos como benfeitores. A coligação com o Bem Estarismo não poderia ser mais acertada, nesse vídeo, os argumentos para os produtores são ressaltados.

“Em um hematoma, perde-se cerca de 400g de carne. Então, quanto o produtor está perdendo por não implantar boas práticas?”

“Um produto com esse selo (de Abate Humanitário), custa 150% mais caro que no molde convencional, mas graças a Deus, toda nossa produção é vendida”

“O objetivo é que o animal seja abatido e não tenha percepção do que está acontecendo com ele, que ele esteja inconsciente, não sinta dor. Muitas vezes as pessoas podem questionar ‘Mas se o animal vai pro abate, o que importa sentir dor ou não? ’ Nós temos que pensar que os animais produzem alimento para nosso consumo e é importante que até o momento da sua morte, nossa obrigação ética é dar um meio adequado para esse animal, do nascimento ao abate”.

Mesmo sob a ótica Bem-Estarista, animais não cedem em nenhum momento sua “mão de obra”, ou “produção”, eles são usados ao bel-prazer de outra espécie, que encarcera, insemina e estipula qual será “a data de validade” e o custo da mercantilização de seus corpos. Se o tratamento dispensado a esses animais fosse direcionado aos humanos, chamá-lo de “humanitário” seria indubitavelmente macabro.

Comercial de chá, proposta de bem estar: Uma mulher desperta e se espreguiça na janela, a música tema é de flautas transversais. A câmera foca a luz vermelha em sua nuca. Ela cai, convulsiona e morre. Locução: Isso é… Bem Estarismo. ;-)

O que esses animais realmente ganham? Uma vida digna pela honra de estarem entre talheres? A felicidade em comer uma carne “contente”?  Há quem diga que não importa o quanto Defensores de Direito Animal se oponham, o pragmatismo diante da realidade oferece como paliativo o Bem-Estarismo e devemos ser grat@s. Não, não seremos grat@s pelo fatalismo.

Quem não tem condições de pagar por um Abate Humanitário merece ingerir derivados com antibióticos, hormônios e pus; não raros acrescidos de canibalismo? Se a classe média “consciente” faz questão de certificar a origem do que consome, se preocupa com o que sua empregada oferece aos filhos? A quem a Sustentabilidade Bem-Estarista oferece amparo e conforto?

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