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jul11

Mais respeito a quem vive “sem Deus”

Resposta ao artigo “Sem Deus, sociedade está mais doente” do teólogo Chico Araújo

Religiosos de estirpes conservadoras católicas e protestantes adoram culpar o declínio de suas denominações religiosas, traduzidas como “falta de Deus”, pela suposta decadência de valores que a sociedade pós-moderna estaria vivenciando. Além de faltarem com a razão numa época de crescimento do pentecostalismo e de formas não abraâmicas de religiosidade, faltam também com respeito aos evangélicos e aos não cristãos com ou sem religião ao julgarem suas (des)crenças religiosas como moral, filosófica e espiritualmente inferiores.

Textos criticando de forma credocêntrica essa “falta de Deus” (do Deus de seus autores, releve-se) são recorrentes nos meios jornalísticos brasileiros online e offline, e o mais recente neste momento é o artigo que meu texto se dedica a responder. Ele repete o velho discurso de que, sem a prevalência do sistema católico/protestante tradicional de valores e normas, a sociedade perderia qualquer alicerce moral e se entregaria a um “vazio” de valores e comportamentos desprovidos de profundidade filosófico-espiritual.

Estabelece uma dicotomia bastante preconceituosa: ou o Deus cristão e os multicentenários valores do catolicismo e dos protestantismos antigos prevalecem estabelecendo um império de ordem, ou a sociedade perde qualquer senso espiritual, filosófico e virtuoso e se entrega a costumes “duvidosos”. Ignora que a sociedade não está perdendo suas diretrizes, mas sim substituindo-as por novos valores pautados no secularismo, na globalização, no multiculturalismo e na universalização de direitos.

Não tem razão alguma em insinuar que é de hoje que demonstrações de descompasso com os ditames morais são/estão socialmente difusas. Desde a Antiguidade temos conflitos morais e culturais no que tange aos choques entre, por exemplo, castidade e hipersexualidade; devoção e mundanalidade; espiritualidade e vida materialista; humildade e opulência; abstinência e alcoolismo social. Hoje esse debate se posta mais fácil, fluido e desimpedido, além de tenso para o lado conservador, graças à prevalência dos valores liberais e capitalistas (não estou aqui defendendo o capitalismo, deixe-se claro) e também, no que tange a sexualidade recreativa, aos preservativos.

Erra em afirmar que o materialismo, em seu sentido de viver para ter e ostentar, vem de hoje e é causado pela “falta de Deus”. A ostentação, o viver pelo ter vêm de épocas remotas. Os nobres e também os clérigos impunham aos plebeus uma vida de humildade e laboriosidade, mas nos bastidores esbanjavam tudo aquilo que censuravam aos estratos sociais mais baixos, desde dinheiro até erotismo.

Na própria cristandade, desde a Idade Média até hoje, grande parte dos mesmos sacerdotes, papas e bispos que pregavam a humildade e a castidade e justificavam divinamente a pobreza manifestavam os mesmíssimos comportamentos que o teólogo autor do texto critica como se fossem tipicamente contemporâneos: ostentação, luxo, o ter acima do ser, a soberba, a devassidão sexual. E o Deus deles não era nenhum impedimento para esse lado secreto de suas vidas.

Já em relação às alusões à depressão e à psicose, o autor fala com uma certeza que dá a impressão de que ele realizou ou se baseou, ao invés de no preconceito, em abrangentes pesquisas sociológicas que atestassem que a sociedade pós-moderna vem passando por epidemias inéditas de males psiquiátricos e psicológicos.

Nesse ponto eu pergunto: como ele tem tanta certeza de que esses problemas são contemporâneos? O que o faz descartar que, por exemplo, um número significativo de mulheres na época pré-industrial tivessem vivido deprimidas e até psicóticas por causa da vida de submissão e humilhações a que se sujeitavam graças ao machismo de raízes judaico-cristãs? Ou que os homens pobres vivessem no alcoolismo e tendessem à depressão e à loucura quando havia desastres climáticos ou crises econômicas de proporções regionais ou nacionais, ou quando as elites os exploravam até ultrapassarem o limiar do insuportável?

Partindo para o consumismo, o autor usa esse substantivo para depreciar as religiões evangélicas, acusando o pentecostalismo de promover o consumo e a futilização da figura do deus cristão. Para ele, os evangélicos contemporâneos só recorrem a Deus quando estão com problemas financeiros e/ou amorosos e o abandonam quando têm seus problemas resolvidos. Nada mais superficial e preconceituoso no que tange à religiosidade dessa categoria, substancialmente mais profunda do que a dos não praticantes das denominações clássicas os quais vêm se evaporando das igrejas e mantendo apenas crenças residuais no cristianismo bíblico.

Já ao falar do “cientificismo”, dirige um ataque indireto e insinuante ao ateísmo, ao humanismo secular e às religiões não abraâmicas. Em primeiro lugar sequer define o que é o “cientificismo” dele, dando margem a interpretações conceituais concorrentes. Mas podemos perceber que ele claramente está se referindo a crenças não cristãs quando diz “Costumam dizer que a morte não existe e que o Diabo também não” e “Outros sentem ódio mortal quando alguém tenta conversar sobre Deus. Dizem que preferem outras filosofias, iogas, malhação na academia”.

Indiretamente ele culpa o ateísmo e as outras religiões pela suposta decadência moral e afirma que o deus cristão é o melhor, o único que pode trazer soluções espirituais para o ser humano. E não dá qualquer evidência de que ateus, afrorreligiosos, espíritas, daimistas, hindus, neopagãos, novaeristas, budistas, taoistas etc. são menos retos moralmente e espiritualizados do que católicos e protestantes. Pelo contrário, usa de teocentrismo preconceituoso e segue generalizando que os não cristãos e os cristãos não praticantes sempre são espiritualmente apegados ao dinheiro e insinuando que falar de “novidades científicas” é algo antiprodutivo.

Os últimos parágrafos são referências tipicamente cristãs, em que ninguém é obrigado a acreditar. Consciente ou inconscientemente acaba tentando impor o cristianismo como detentor do monopólio da “solução” moral e espiritual, como se a “solução” não pudesse estar, digamos, em Krishna, em Odin, nos Orixás, n’A Deusa e O Deus, nos ensinamentos do Buda ou em virtudes independentes de religião como a amizade, o amor, a compaixão, a ética e a democracia. E conclui retomando suas acusações ao materialismo, ao consumismo e ao cientificismo e fechando com o mais puro teo e etnocentrismo.

O autor deveria ter mais respeito às crescentes minorias irreligiosas, não cristãs e evangélicas, além de buscar conhecimento socioantropológico e histórico, antes de tentar diagnosticar que nossa sociedade está “doente” porque não segue mais a religião dele como antigamente. Textos como o dele satisfazem apenas aos religiosos mais conservadores, alérgicos à mutabilidade sociocultural, ofendem pessoas de outras crenças e são francamente desnecessários para a compreensão honesta e apurada dos problemas e conflitos da sociedade pós-moderna.

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Paulão Fardadão Cheio de Bala

julho 22 2011 Responder

É o mal inerente às visões maniqueístas da existência.

Maria de Fátima Jacinto

julho 17 2011 Responder

Eu também sou feliz sem Deus, não acredito em nada do que os cristãos pregam, penso que se Jesus voltasse realmente hoje, seria crucificado novamente agora pelos que dizem segui-lo.
Não vejo Jesus da forma como ele é pintado nas igrejas cristãs, a bíblia nos diz claramente que ele era um boêmio, andava com prostitutas, gostava de festas, e era amigo de ladrões tudo o que os evangélicos odeia….Parabéns por expor suas ideias…

    Robson Fernando de Souza

    julho 17 2011 Responder

    Obrigado Fátima =)

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