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Bispo católico de Aracaju fala besteira sobre ateísmo

Enquanto os ateus começam, aos trancos e barrancos e encarando uma total falta de unidade, sua luta contra o preconceito ateofóbico, muitos clérigos cristãos usam o palanque da mídia mainstream para propagar ainda mais preconceito e desinformação.

Dom Henrique Soares, bispo auxiliar católico que atua em Aracaju, ao criticar, com uma descrição bastante questionável, o protesto de milhares de espanhóis contra o gasto dispendido pelo governo de seu país para custear a vinda do papa Bento XVI, meteu o ateísmo no meio, dando a falsa (e maliciosa) ideia de que todos os manifestantes eram ateus – quando na verdade até padres participaram da manifestação.

Como se não bastasse ter metido o ateísmo na história como se tivesse sido uma causa do protesto, discorreu um robusto parágrafo destilando sua impressão pessoal altamente preconceituosa sobre a descrença em divindades:

O ateísmo é artificial: tem que ser incutido o tempo todo, explicado teoricamente, incutido praticamente com mil dispersões e superficialidades… A fé, não: é o estado normal e natural do ser humano, feito para o infinito. Tudo que o ateísmo pode fazer é criar uma pseudofé, uma maldita e ridícula religião secular, caricatura de Deus e da experiência religiosa, que humilha o homem e frustra sua sede mais profunda e a razão maior de sua dignidade: diviniza-se o consumo, o prazer, o próprio eu, o poder… Afinal, que é o homem? O que o define em última análise? O pensar? O ser livre? Não! Ainda não! Sua maior peculiaridade é a capacidade de acolher o Infinito, de tender para ele, de dele ter sede!

Abaixo respondo devidamente cada frase.

O ateísmo é artificial: tem que ser incutido o tempo todo, explicado teoricamente, incutido praticamente com mil dispersões e superficialidades…

Na verdade a religião é que é artificial, uma vez que é necessário que seja ensinada ou conhecida para que adotem determinada crença. Ninguém nasce católico, ou protestante, ou judeu, ou budista, ou pagão. A pessoa o é ou porque foi ensinada desde tenra idade a considerar aquela religião como a reveladora da verdade absoluta e determinadora de um código moral alegadamente também absoluto, ou porque teve contato e interesse por ela – esse interesse a Antropologia e a Ciência das Religiões explica muito melhor do que a deturpadora explanação do bispo.

Se o ateísmo vem sendo reafirmado, é pela mesma necessidade que todas as minorias oprimidas têm de reafirmar sua característica minoritária: para que tenham o direito de ser essas minorias sem que sejam perseguidas e discriminadas por isso. No caso da descrença, a reafirmação ateísta propagada por Dawkins, Sam Harris e outros nomes vem mais como uma defesa counter-strike às agressões que os ateus vivem sofrendo do que um plano maquiavélico, não provocado, de exterminar as autoatribuídas inocentes e pacíficas religiões abraâmicas. Em outras palavras, é porque os ateus querem continuar sendo ateus, querem parar de ser perturbados com a imposição de fés que não os convencem de qualquer verdade plausível.

A fé, não: é o estado normal e natural do ser humano, feito para o infinito.

Se a fé (presumivelmente a católica) é natural ao ser humano, então por que a Igreja Católica fez e faz tanta questão de enviar missões de catequese a todos os continentes povoados e promover ensino religioso altamente proselitista às crianças?

Tudo que o ateísmo pode fazer é criar uma pseudofé, uma maldita e ridícula religião secular, caricatura de Deus e da experiência religiosa, que humilha o homem e frustra sua sede mais profunda e a razão maior de sua dignidade:

Em primeiro lugar, ateísmo é simplesmente a ausência de fé religiosa e crença em divindades. Somente isso. Nada mais. Como a não fé pode ser uma “pseudofé”? Em segundo, quando o bispo fala de “uma maldita e ridícula religião secular, caricatura de Deus e da experiência religiosa”, somos levados a pensar imediatamente no Pastafarianismo, a “religião” satírica do Monstro Espaguete Voador, como Alenônimo do Ateus do Brasil indaga. Porque, fora isso, não é visível aos olhos intelectualmente lúcidos qualquer “caricatura de Deus” ou “religião secular” na irreligião e na não crença em deuses.

diviniza-se o consumo, o prazer, o próprio eu, o poder…

O ateísmo não diviniza nada. É apenas a ausência de crença em deuses. Só isso. Não obstante, religiosos preconceituosos adoram enfeitá-lo com uma roupagem monstruosa, como se fosse uma maléfica religião antirreligiosa – aliás, o que é mais antirreligioso do que as próprias religiões proselitistas, que se arrogam verdades absolutas e negam e demonizam todas as demais crenças religiosas?

Afinal, que é o homem? O que o define em última análise? O pensar? O ser livre? Não! Ainda não! Sua maior peculiaridade é a capacidade de acolher o Infinito, de tender para ele, de dele ter sede!

Isso é da crença dele, não tenho o que comentar aqui para rebatê-la. Mas fica aqui notável que ele tenta sobrepujar a(s) concepção(ões) que os ateus têm do ser humano com sua crença, estranha à(s) filosofia(s) dos descrentes.

Como expus no artigo Ateofobia, negação da lógica ateísta e incitação da intolerância, é notável o interesse de clérigos de antipropagandear o ateísmo, pintando-o como um demônio que ameaça a integridade humana, colando-lhe características que ele não tem, imputando-lhe uma essência de imoralidade e de niilismo (não que o niilismo seja algo inerentemente ruim, mas ele nunca foi intrínseco ao ateísmo). Assim vemos que o ateísmo ameaça não a integridade humana, mas os interesses de quem deseja manter as massas sob controle e lucrar em cima de sua credulidade, impondo-lhes uma religião que, longe de trazer conhecimento, edificação espiritual e virtuosidade moral, confina-as na ignorância, na servidão e na ingenuidade.

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Padre Ortodoxo José Francisco

outubro 11 2013 Responder

Infelizmente nossos irmãos lideres católicos romanos, falam o que não devem, por estarem presos a antigos dogmas e ideologias que não correspondem mais a nossa realidade atual. Estaremos em breve chegando a cidade de Aracaju para iniciarmos nossos trabalhos pastorais. Uma antiga e tradicional Igreja, que caminha nos passos da atualidade, sem perder o foco do evangelho.
Padre José Francisco
Paroco da Igreja Ortodoxa para Salvador e também Aracaju

Grato e fiquem com Deus.

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