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Samory Santos: Da Falência do Veganismo enquanto Consumo Consciente

Apresentação

Esse texto possui como base, em parte, o artigo Boycott Veganism. Nele, discute-se os problemas que o Veganismo resulta no progresso e efetividade dos Direitos Animais. Clama-se pelo boicote total desse pilar do movimento, algo que não concordo plenamente. Portanto, neste texto vejo como necessário uma releitura do veganismo e seu papel no Abolicionismo Animal.

1. Introdução

É pacífico a divisão do Movimento Animalista em duas principais correntes: o Bem-Estarismo Animal e o Abolicionismo Animal. O primeiro se propõe a reformar o sistema exploratório animal, adotando medidas que visão aumentar o bem-estar dos animais explorados, mas não abolir o seu uso. Já o segundo, do qual faço parte, tem como objetivo abolir o uso dos animais em sua totalidade. Vale lembrar que Gary Francione ainda afirma que haja uma outra corrente: os Neo-Bem-Estaristas. Essa outra corrente afirma que, enquanto os animais sejam explorados, é melhor buscar o melhor tratamento possível. O fim último desta corrente seria idêntica ao Abolicionismo.

Enquanto o consumo de produtos animais ditos “felizes”, “sustentáveis”, tal como o ovo de galinha caipira, sejam triunfos da retórica bem-estarista, o veganismo possui a mesma função na lógica do Abolicionismo. Deve-se indagar, portanto, se o veganismo seria eficaz em sua proposta, que o avanço dos Direitos Animais.

2. O Veganismo Filosófico e a Política Vegana de Consumo – divergências

Veganismo possui um histórico que influencia até hoje o seu entendimento: foi concebido nos meados do século passado enquanto insurgência contra o movimento lactovegetariano inglês, que havia apropriado da denominação “vegetariano”. Essa polêmica até hoje é motivo de disputas, surgindo, em paralelo, termos tais como o protovegetarianismo e o vegetusianismo.

Atualmente, a identidade entre Direitos Animais e o Veganismo é indelével. Veganismo é tido, por mim, como práxis dos Direitos Animais. É o estilo de vida que possui como lastro essa doutrina ética, da qual não se pode se dissociar. Dessa forma, o veganismo varia de acordo com o entendimento de Direitos Animais que a pessoa tenha, consistindo, este último, o elemento subjetivo do veganismo, que lhe é indissociável.

Sem os Direitos Animais, o Veganismo se torna injustificado, perdendo o seu motivo de ser.

Por outro lado, o Veganismo ganhou um sentido próprio, que, a primeira vista, não passaria de uma enumeração das implicações éticas decorrentes da conformidade com os Direitos Animais. É a definição mais difundida, talvez por ser mais facilmente assimilável pelos que desconhecem os Direitos Animais: ser vegano é ser vegetariano estrito, não usar peles e pelos animais, nem produtos testados neles, muito menos feito deles, etc..

Essa descrição pode variar, havendo muitas vezes remissões a formas específicas (“não usar couro ou lã”, p.ex.) de exploração.

Contudo, caso se torne atento aos elementos que consistem essa prescrição, é de se observar que apenas relações de consumo estão em jogo. Pode-se resumir toda essa descrição a uma única prescrição: não consuma animais e seus subprodutos. O consumo é posto como o problema, sendo combatido através de uma espécie de “consumo consciente” animalista. A esse consumo consciente dou o nome de “política vegana de consumo”, da qual irei me referir como PVC.

3. A Falência da PVC

É característica elementar da PVC sua taxatividade enquanto conceito. Tal taxatividade possui como origem a necessidade de simplificar os Direitos Animais em uma forma palatável àqueles que não conhecem, ou não queiram conhecer, os fundamentos e implicações desta posição ética.

Ao tornar-se um conceito fechado e estanque, a PVC passou a demonstrar fraquezas que decorrem de sua própria natureza, conjugado com o contexto em que é exigido ou praticado. Essas fraquezas, muitas vezes escondidas debaixo de uma grossa camada de retórica, são: a falta de efetividade, dogmatismo, comodismo, impossibilidade de cumprimento e desconsideração por aspectos transitórios. Cada um deles serão expostos e analisados sucintamente adiante.

3.1. A Falta de Efetividade da PVC

O aumento da produção e consumo de animais e seus “subprodutos” no Brasil tem aumentado geometricamente, apesar da quantidade crescente dos praticantes da PVC. Essa realidade, que carece de necessidade de comprovação, é resultante de fatores que fogem do controle da PVC, tais como: as leis de mercado e a cultura creófila.

As primeiras prescrevem algo simples: quando um produto possui sua demanda rebaixada, ela fica mais barata. O barateamento do produto gera demanda, que acaba estabilizando tudo, se o poder de compra não for afetado. Como, no caso em foco, esse “poder de compra” não é afetado, mas sim a “disposição de aquisição do produto”, simplesmente há uma mudança de padrão de consumo – os creófilos que não tinham como adquirir os produtos animais simplesmente passam a consumi-los, ou aqueles que já o faziam passaram a consumir mais. No somar dos ovos, digo, brócolis, dá no mesmo ter 1, 2, 10% de veganos no Brasil ou 0%, os outros 90% de creófilos simplesmente vão se tornar mais gordos (ou vão frequentar mais a academia).

Essa mudança de padrão de consumo é mero reflexo de nossa cultura especista, que exalta a exploração animal: consumi-los é, ainda, muito bem visto, sendo sinônimo de prosperidade. Não é a toa que se comemora qualquer coisa, neste país, com churrasco. E quão menos caro for esse churrasco, mais frequentes eles poderão ser feitos (e mais cheios serão os bolsos dos oncologistas).

3.2. Dogmatismo

A PVC consiste, como se pode observar na minha definição no item 2, em um rol de normas ou parâmetros. Quem as adere é um vegano, quem não as adere não é um vegano. Simples assim, para o dogmático.

A questão, contudo, é que esse dogmatismo não permite indagações válidas, que tocam no seio da PVC, tais como: insetos/crustáceos são moralmente consideráveis? (A resposta clássica é “sim”). Alimentar animais de estimação com ração feita de outros animais é moralmente correto? (Nem ouso dizer qual é a resposta clássica). Vegano pode ser fumante? (Classicamente “não”). Etc.. Questões que devem ser levantadas, lidadas, e refletidas quanto a sua validade, sob pena de aceitar parâmetros pré-formulados que remetem a uma concepção de Veganismo que, muitas vezes, ou é defasada (caso dos insetos), incoerente (caso do alimento dos animais de estimação) ou mesmo sem sentido algum (caso do vegano fumante).

A adesão a normas acaba por olvidar o que mais importa: os animais. De nada importa essas normas do Código Vegano, se os animais são indiferentes a elas. Em vez de ver se no amendoim foi carmim, se deve perguntar: algum animal senciente foi violado desnecessariamente? Para saber isso, é necessário saber se insetos são sencientes ou não. Não basta aceitar, aprioristicamente, que insetos são animais e que, portanto, devem ser, por isso, sencientes. Tem-se que pesquisar sobre a natureza da subjetividade dos insetos para aceitar a conformidade com tal prescrição.

Diante disso, a questão da própria natureza dos Direitos Animais é posta em xeque pelos supostos veganos: o reinismo, dogma que compreende que os animais devem ser protegido por serem animais, aniquila os Direitos Animais. Tendo como parâmetro o reino, esse modelo dogmático da PVC comete o mesmo erro que o especismo, prescrevendo normas ilógicas ou irrefletidas, tal como a proteção individual das esponjas, por simplesmente pertencerem ao Reino Animalia.

3.3. Comodismo

Tratar de veganismo como comodismo pode parecer absurdo. Algo que, para alguns, é tão difícil conceber, ser comodo?

Pois, tem-se demonstrado cômodo com a aceitação social desse modus vivendi. O veganismo acaba por se tratar de um atalho argumentativo, por exemplo, que busca se safar de longas elucidações sobre o Direito Animal, do dia a dia nas granjas de nosso país e nos abatedouros. Muitas vezes se torna uma salvação para o vegano que nada conhece da teoria dos Direitos Animais e da realidade do campo (ou mesmo da esquina, como é o caso dos abatedouros).

Também é uma fuga para o peso da consciência: é visto como o suficiente diante do especismo institucionalizado. Uma forma de não atiçar sentimento de corresponsabilidade perante as atrocidades esquecidas, evitando o contato com o ativismo, muitas vezes demonizado.

3.4. A impossibilidade de cumprimento

Uma das prescrições quase unívocas da PVC consiste no boicote a produtos testados em animais. Tal prescrição é impossível, devido a natureza obrigatória dos testes em animais, sem o boicote a toda gama de produtos em si. Exemplo clássico disto são os produtos farmacêuticos e de higiene domiciliar, aqui no prazo. Por força de uma norma expedida pela ANVISA, esses produtos têm que ser, obrigatoriamente, testados em animais.

Devido a prescrição de boicote a produtos testados, imagina-se, portanto, que os veganos devem boicotar esses produtos. Tal concepção, contudo, é extremamente equivocada.

O fim desta prescrição é óbvia: contribuir pelo fim dos testes em animais. Boicotar produtos compulsoriamente testados em animais não contribui, em nada, para o fim desses testes, vez que não há escapatória para o produtor: ele é obrigado a testar. O boicote só faz sentido caso quem produza possa não testar em animais. Quando há margem de poder político, a ação ganha sentido.

Os esforços do boicote melhor seriam distribuídos na organização pela mudança normativa da ANVISA, ao contrário da catalogação dos que testam (que são, ou deveriam ser, todos os produtores desses artigos). Obviamente, em ramos industriais em que os testes são dispensáveis, o boicote é um imperativo ético indelével.

3.5. A desconsideração por fatores transitórios

A PVC, como qualquer construção humana, é uma expressão histórica dos Direitos Animais. Surgiu como forma de facilitação (e, de toda forma, simplificação) da aplicação dos Direitos Animais dentro de uma sociedade de consumo. Suas prescrições atingem somente o caráter objetivo do veganismo, que corresponde a atividade consumerista. Tal natureza implica na criação de prescrições estáticas a mudanças históricas, guiando a PVC a uma inevitável defasagem.

4. Por um veganismo pragmático

A obsessão consumerista vegana não tem resultados tangíveis, exceto pela grande concentração de esforços em catalogar cada ingrediente que possa ter sido obtido através da exploração animal. Essa atividade, que atualmente predomina entre os ditos veganos, não me parece útil por tratar do que verdadeiramente importa: os animais. Essa preocupação demasiada consigo mesmo, em prejuízo dos animais, é repercussão de um desvio de foco dos animais para a estética do veganismo.

Tem-se que colocar novamente os animais em foco, não a dieta ou o estilo de vida. Esses são meros meios de abolir a escravatura que atualmente está institucionalizado. Não comungo divergências quanto a desnecessidade do que atualmente se conhece como veganismo: ele é necessário para o abolicionismo, porém ele não pode ser o pilar do abolicionismo. O pilar tem que ser o próprio objeto do abolicionismo animal: os animais.

Essa posição possui resultados práticos que exigem uma transferência de esforços, passando do cumprimento da PVC para uma postura pragmática, que busca ações a nível social e de caráter político. Trocando em miúdos: tem-se que fazer menos trabalho de consumidor formiga e mais de político, tanto institucional quanto a nível social.

As organizações animalistas, que definham por inatividade e baixa adesão, devem ser reerguidas, para poderem ter capacidade de cumprir os papeis que lhe são destinados: de promoção de valores que conduzem a abolição do especismo.

Questões marginais, que são mirradas perante questões mais obtusas, devem ser momentaneamente desprivilegiadas no discurso, em favor de questões que possuem mais peso discursivo. Exemplo disso é a pecuária e a experimentação animal.

A experimentação animal, apesar de todo o sofrimento gratuito que produz, é discursivamente mais difícil de combater (pois os valores em jogos são tidos como mais relevantes, tal como o valor da vida humana, o progresso da ciência, etc.), além de atingir uma quantidade inexpressível de animais (a cifra é na casa dos milhões anualmente). Já a pecuária é responsável pela matança de 56 bilhões de animais terrestres anualmente no mundo, sendo sustentado por valores de menor porte, tal como a tradição revestida na continuidade de um paladar e na autorreplicante conveniência. Dar o mesmo esforço na eliminação das duas práticas é um desrespeito aos 56 bilhões de animais terrestres que são trucidados pela indústria alimentar, além de ser uma atividade consideravelmente mais difícil.

Por conta disso, é imperativo a superação dessa fase que o Movimento Animalista se encontra, onde a preocupação da estética se sobrepõe a preocupação com os animais.

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Alejandro Ruiz Pimentel

novembro 21 2013 Responder

Independente, nós veganos (alguns diga-se de passagem) matam sim, eu sou um deles, porém deve-se levar em conta que isto se deve pela humanidade que os reduziu a animais pestilentos e contaminados… assim como ratos de esgoto e outroz POBRES ANIMAIS… então o certo é e sempre será dizer que a humanidade corrompe tudo!!!! A FILOSOFIA DE VIDA VEGANA É A ETICAMENTE MAIS CORRETA.E VIVA DE TODAS!!!! Indiscutivel. :)

Cesar Carvalho

setembro 1 2011 Responder

Continuando (já estou meio de saco cheio, portanto tentarei ser breve… o que será um grande esforço, hehehe), o item 3.2 está um pouco confuso, na minha opinião.
Sim, dogmatismo é ruim. Porém, insetos têm sido incluídos nas preocupações do movimento vegano por conta do benefício da dúvida. Enquanto não temos certeza, melhor evitar sua exploração. Não vejo dogmatismo nenhum nisto. Todavia, estou certo que a maioria dos veganos mata uma barata quando uma delas aparece em sua cozinha. Podemos enquadrar tal ato como uma questão de auto-defesa (a barata contaminará seu alimento e poderá causar uma doença, quiçá fatal). Não sei como outros veganos tratam insetos no dia-a-dia, mas fora raras exceções (baratas, por exemplo), eu levo insetos indesejáveis (como taturanas/lagartas encontradas nas verduras) para fora de casa, sem matá-los. A idéia é não matar se não for absolutamente necessário (já tentou capturar uma barata?) E por quê? Como já citei, benefício da dúvida. E esta é a mesma razão pela qual não consumo mel. Sendo uma prática raciocinada, onde está o dogmatismo?
Crustáceos, ao que tudo indica, sentem dor e têm memória dela, conforme pesquisa recente. Daí o não-consumo ser justificado. Esponjas do mar… bom, alguém come isso? Ué, e onde diz que vegano não pode ser fumante? No “Manual Internacional do Bom Vegano”?
Ao mesmo tempo, existem pessoas que, apesar de terem uma dieta predominantemente vegana, não enxergam problemas em consumir moluscos bivalvulados, que possuem apenas gânglios nervosos e seriam incapazes de ter consciência da dor. Eu não os consumo, mas também não vejo problemas em quem consome. Mas, aí, voltamos à questão do dogmatismo que, neste aspecto, é sim ruim. Se a pessoa é realmente consciente, ela está pouco se lixando para o veganismo. Segundo, por exemplo, a “turminha” do fórum do Francione, *eu* não sou vegano porque ainda tenho sapatos e um cinto de couro; supostamente, o veganismo deles exige que eu faça uma cerimônia e enterre esses produtos (sério!!!) e compre outros no lugar, contribuindo para a devastação do ambiente e sofrimento de ainda mais animais, fora aqueles que foram mortos para os produtos que ainda possuo. E aí eu tenho que dar a mão à palmatória e admitir que esse tipo dogmatismo realmente é contraproducente para os Direitos Animais – veja bem, o dogmatismo e não o veganismo em si.

Até mesmo uma das maiores organizações norte-americanas de educação vegana, “Vegan Outreach”, desconsidera a noção de que veganos não comem absolutamente nenhum ser do reino Animalia; ao invés disso, propõe que devemos “evitar produtos que causam dor e sofrimento para organismos não-humanos, tentado descobrir, da melhor maneira possível, quais sentem dor.”:
http://www.veganoutreach.org/guide/qa.html#insects

Já a questão dos animais de estimação, assim com o item 3.4 (da impossibilidade de “pureza absoluta”, que é também dogmatismo), seus próprios artigos, Samory, “O quê veganismo não é” e “O verdadeiro, possível e falso veganismo” estabelecem ótimos parâmetros para evitarmos esta cilada ideológica.

Também não compreendi porque “a própria natureza dos Direitos Animais é posta em xeque pelos supostos veganos: o reinismo […]”. Afinal, se os seres sencientes são, certamente, um subconjunto do reino Animalia, incluindo, por precaução ou simplificação, seres que talvez não o sejam, em que aspecto os Direitos Animais (direitos ANIMAIS!) é colocado em cheque!?

O texto original contém várias descaracterizações do movimento vegano (que, francamente, também vejo como uma práxis, ao invés de um corpo ideológico) que poderíamos, facilmente, enquadrar como falácias do espantalho. E, como práxis, como não considerá-la, ao menos, como *um dos* pilares do movimento de Direitos Animais?

Como já disse no outro blog, concordo que o veganismo é uma simplificação. E também concordo que um veganismo dogmático e obcecado com detalhes estéticos desvia a foco da discussão realmente importante. Mas não tenho como concordar que ele é danoso (harmful) ao movimento dos Direitos Animais – muito antes pelo contrário, o veganismo, mesmo com suas limitações, tem trazido à pauta a questão dos Direitos Animais e facilitado sua discussão, como já disse anteriormente.

O que falta, talvez, seja uma educação vegana que enfatize o perigo dessas armadilhas; neste sentido eu, particularmente, já faço minha parte ao apresentar, para novos veganos ou interessados, os supra-citados artigos do Samory (“O quê veganismo não é” e “O verdadeiro, possível e falso veganismo”) e os vídeos/slide-shows sobre Direitos Animais do Gary Francione. Até porque entendo que a prática vegana, sem um embasamento teórico mínimo e um adequado “reality check”, é muito mais difícil de ser mantida a longo prazo. Por exemplo, se a pessoa se depara com algum “problema” sem solução na sua prática diária (digamos, necessita tomar um remédio testado em animais para sobreviver), corre o risco de enxergar o veganismo (dogmático, purista) como idealista e impossível, abandonando tudo.

A esta altura do campeonato já nem sei mais o que estou escrevendo. Melhor parar por aqui.

    Samory Pereira Santos

    setembro 1 2011 Responder

    Então, primeiro eu gostaria de lhe agradecer Cesar. Toda crítica construtiva é bem-vinda.

    Quanto ao ponto 3.1, confesso que fui demasiadamente simplista quanto a representação das leis de mercado. De fato, pequei ao afirmar que as pessoas iriam consumir mais animais ad infinitum. Estava fazendo uma análise mais local: considerando o Brasil como um país de creófilos, onde a prosperidade é crescente e onde há grande margem para aumento de lucros. Não irei rebater seus argumentos por não ter uma formação econômica sólida o suficiente para isso.

    Já, quanto a seus comentários ao ponto 3.2, sou obrigado a discordar de alguns aspectos. Quando você fala em benefício da dúvida você já retira a questão do dogma. Há sim veganos que se pretendem a proteger os insetos não por talvez eles serem sencientes, mas por simplesmente serem animais. Na própria comunidade Veganismo no orkut esse tema era muitíssimo recorrente, havendo, inclusive, uma singela maioria adotando esse posicionamento ilógico. A denominação Direitos Animais é mais descritiva que prescritiva, vez que esses Direitos são de Animais, não dos Animais. Animal por animal, as esponjas estariam protegidas, o que é um absurdo. E quanto a esses animais, há quem os usa para decoração ou mesmo para higiene pessoal (ainda). O nosso paradigma, como Sônia Felipe diria, é senciocêntrico. Direitos Animais apenas é um termo conveniente para essa ideologia/doutrina ética. Talvez o termo correto seria Ética Sencienticista…

    Quanto a questão dos fumantes, também é relativamente comum (vide discussões sobre o assunto na comunidade Veganismo), não tendo embasamento filosófico-empírico algum. Há quem argumente que todos os cigarros são testados em animais, coisa que a Souza Cruz contesta. Há quem argumente que todos os cigarros levam produtos animais, coisa que essa mesma empresa contesta. Há quem simplesmente diga que o tabagismo passivo seja o problema, o que, por lógica, iria atingir os condutores de veículos automotores (é nessa esteira que o movimento cicloativista condena o uso de carros). Etc..

Cesar Carvalho

setembro 1 2011 Responder

Só alguns comentários:
No item 3.1, há, na minha opinião, uma representação incorreta das leis de mercado. Sim, uma redução de demanda *abrupta* gera uma queda de preços *temporária* até que a capacidade de produção seja reajustada. Um maior consumo por conta de um preço menor, como sugerido no artigo, não se sustenta a longo prazo caso o lucro auferido na produção/comércio do produto torne a atividade pouco interessante ou mesmo inviável. A redução gradual do número de consumidores reduz, sim, a produção (caso não haja alteração no poder de compra ou nos custos envolvidos no processos produtivos) quando é atingido o “threshold” (limiar) em que uma redução adicional de preços, na tentativa de sustentar uma mesma escala produtiva, torna a atividade inviável economicamente (pelo menos para alguns “players” do mercado menos eficientes). Na lógica do artigo, se 25% da humanidade se tornasse vegana, os preços de venda de produtos de origem animal teriam que ser reduzidos vertiginosamente, provavelmente abaixo do valor de custo, para sustentar uma mesma produção (ou mesmo aumentá-la!), o que simplesmente não corresponde à realidade. Quando o preço de venda cai em razão de alguma variação nos padrões de consumo, a oferta é diminuída num segundo momento – ninguém trabalha em regime de prejuízo apenas para manter um mesmo nível produtivo. Por exemplo: http://www.mercadodoovo.com.br/mural.htm#Crise%20%E0%20vista
Até mesmo em mercados de componentes eletrônicos quando os preços atingem um certo limiar, seja por guerra de preços, seja por redução temporária no consumo, produtores sempre anunciam redução na produção e limitação da oferta.
Por outro lado, temos p problema do aumento do poder aquisitivo das populações nos países emergentes, principalmente nas nações do BRIC, que correspondem a uma fatia significativa da população mundial.
Ao mesmo tempo, em vários dos países considerados “industrializados”, o veganismo já está sendo citado e comentado com freqüência cada vez maior nas mídias de massas (ainda que, freqüentemente, de uma maneira deturpada ou com o foco apenas na saúde humana) e como o consumo de produtos de origem animal tem sido publicamente cada vez mais criticado por diversas razões, é ingênuo acreditar que o consumo destes produtos só tenderá a aumentar nesses países, seja pela preocupação dos indivíduos com a sua saúde, meio-ambiente ou mesmo algum grau de compaixão em relação aos animais. Outros posicionamentos de consumo, que não o veganismo, (como o flexitarianismo) têm também afetado o mercado de produtos de origem animal. Um estudo recente aponta redução no consumo de carnes e um aumento no consumo de leguminosas (como lentilha e grão-de-bico) por motivações “conscientes” (saúde, ambiente, etc.) e não puramente econômicas, sendo uma tendência global: http://www.independent.co.uk/life-style/flexitarians-driving-global-move-away-from-meat-consumption-study-2346860.html

Devemos lembrar, também, que os atuais baixos valores dos produtos de origem animal (facilitando um maior nível de consumo) são conseqüência, em grande parte, do uso de processos de criação industrial em larga escala que envolvem uma quantidade considerável de sofrimento aos animais. O veganismo, queira ou não, está ajudando a inserir a questão animal na cultura popular moderna, incentivando a discussão e, felizmente, uma certa reação popular à crueldade extrema destes processos. Ainda que a população, em sua maior parte, seja incapaz de engajar-se em mudanças mais drásticas de hábitos de consumo, ela está exercendo pressão no sentido da aprovação de leis bem-estaristas que costumam causar, como efeito colateral, o aumento dos custos de produção. Claro que existe, também neste caso, um limitar representando o quanto a população está disposta a pagar pelo bem-estar destes animais (que é um dos mais óbvios limites do bem-estarismo como “solução” para a questão do sofrimento animal… não vou nem tentar relacioná-lo aos direitos animais); porém, até que se atinja este limiar, aumentos nos custos de produção poderão impactar sim o consumo.

Outra coisa que precisamos considerar é que o aumento na produção de produtos de origem animal demanda maior capacidade na produção de grãos e/ou de área para a própria criação (no caso de regimes extensivos). E isto é toda uma outra discussão.

De qualquer forma, estou certo que o mecanismo de precificação e as leis de mercado são extremamente mais complexas do que a grosseira simplificação no artigo original em inglês.

Fernando Cônsolo Fontenla

agosto 31 2011 Responder

Excelente crítica! Recomendo muito ler o Adam do http://eco-health.blogspot.com/p/table-of-contents.html pois tem tudo a ver!

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo