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Eu segundo os preconceituosos

Segundo os preconceituosos
Sou um dos seres mais repugnantes do planeta
Porque concentro diversos atributos
De minoria.
“Pensam” eles:
Se alguém como eu fosse eleito presidente do Brasil
Ou, sei lá, chefe executivo de toda a humanidade
Eu seria o arauto da destruição
O anticristo a aniquilar a humanidade.

Sou ateu.
Por isso sou maldoso, sem ética, amoral
Sem discernimento de certo e errado
Adorador da sumidade maligna
Da religião deles.
Mato, roubo e destruo.
Pratico os mais diversos e hediondos crimes
Simplesmente porque não acredito em Deus.
Eu deveria ser preso ou executado por incredulidade
E encaminhado ao inferno eterno
Por representar
Ou mesmo ser
O mal em pessoa
O destruidor, o ímpio
O soldado de Satã
Que guerreia contra as forças do bem.

Sou vegano.
Desnutrido inimigo da humanidade.
Aquele que prega a superioridade moral dos outros animais
Que não o humano.
Pra mim a humanidade deveria ser exterminada
Pelos céus
Pra salvar os animais.
Curioso…
Sou contra o especismo, mas defendo o especismo
Especismo às avessas.
Quero pregar, impor a todos
A fé vegana
Porque exigir direitos aos animais não humanos
E levar mensagens de reflexão de consciência
É um auto de fé
É pregar algo que não se comprova com a Razão ou a Ciência
É uma imposição
Uma afronta à liberdade das pessoas
De comer o que quiserem.
Também por isso sou afeminado e emotivo
Portanto, segundo eles
Sou maléfico e inferior.
Sem falar que não penso em nada mais
Nenhuma causa de verdade
Quando defendo os animais
Porque assim deixo desamparadas
As crianças com fome
E os africanos afundados na miséria.
E o principal:
Sou desnutrido
Anêmico
Magricela
Não consigo suprir minhas proteínas
Nem meu ferro
Nem minhas vitaminas
Por isso vivo de hospital em hospital.
Mesmo que heroicos nutricionistas
Tentem me salvar me recomendando
Que eu volte a comer carne
E consumir outros alimentos
De origem animal
Recuso, nego
Porque sou um fanático, um chorão
Um birrento que tem pena de bichinhos
Mas não tem qualquer compaixão
Pelas crianças famintas.

Sou nordestino.
Por isso, segundo os preconceituosos
Não devo nem me aproximar do Sul-Sudeste
Porque ali é terra apenas pros “bem nascidos”
Que nasceram ricos e vivem ricos no Sudeste e Sul
E porque eu sou “cabeça-chata”
Lhes sou escória pobre do Brasil
Não mereço direitos.
Pra eles, sou nordestino, logo pobre, logo indesejado
Sou pária, devo me recolher à minha região de nascença.

Sou feminista.
Logo, afeminado e homossexual.
Por isso, inferior e ridículo.
Pra eles, se eu quiser ser homem de verdade
Tenho que resignar
Ao pensamento de igualdade
Porque Deus quis que a mulher vivesse
Submissa ao homem
E que o homem fosse sempre machão
E violento.
Quem não é machão e violento
É gay, é afeminado
É inferior.
É incapaz de se apaixonar por mulheres.
(Porque, afinal, heterossexualidade masculina e feminismo solidário não combinam!)
Porque feminismo é coisa
Ou de mulher feia e mal amada
(ou “mal comida”)
Ou de homens gays cuja identidade de gênero
É necessariamente feminina.
Por isso tudo
Sou inferior por ser feminista.

Sou ambientalista
Por isso quero parar todo o avanço tecnológico
Abolir a qualidade de vida urbana
Pra em seguida
Aniquilar a humanidade.
Não tenho o que fazer
Não tenho ocupação
Por isso perco tempo chorando pelas árvores
E pregando a destruição da espécie humana.
Não deveria ter nada que tenho em minha casa
Nem mesmo minha casa.
Mas tenho.
Logo sou hipócrita
Porque o certo é ser absoluto
É ser 8 ou 800.
É escolher, mesmo não havendo como escolher:
Ou tenho casa, computador e energia elétrica
Ou defendo o meio ambiente.

Sou cyberativista.
O desocupado mor.
Sacrifico minha vida útil
Pra pregar inutilidades na internet.
Pra eles, eu deveria estar comendo uma vagina
Ou trabalhando
Em vez de estar perdendo tempo
Escrevendo merda no PC.
Afinal, o mundo não vai mudar
Por minha causa
Por isso devo desistir do que penso
E me tornar apenas mais um
A viver sua vida apenas por si e pra si.

E sou de esquerda.
Defensor da desordem
Do caos
Do roubo das propriedades
E supressor das liberdades.
Sempre me inspiro em Stálin
Pra fazer valer minhas ideias.
Votei numa terrorista
Pra ver se o Brasil se dirigia logo
À tão sonhada revolução stalinista
De que a direita tem tanto medo.
Quero o fim da ordem e da decência
Por isso sou um inimigo das pessoas de bem
Um subversivo.

Pros preconceituosos
Sou tudo isso.
Não presto.
Sou um demônio.
Um ridículo
Um inferior
Um pária
Que não merece direitos
Que deve ser excluído
Que deve sofrer com todas as piadinhas
E hostilidades
Possíveis.

Ah sim, e resumindo tudo:
Sou um idiota.

imagrs

5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Vera Rodrigues-Rath

outubro 7 2011 Responder

Excelente o texto!!!

Abraços,

Verinha Rath – Alemanha

    Robson Fernando de Souza

    outubro 7 2011 Responder

    Valeu Verinha =)

Robson Fernando de Souza

agosto 15 2011 Responder

hahahahahaha Bárbara e Fernando, acreditem se quiser, depressão e tristeza não me passaram pela cabeça ao escrever o poema acima.
Ele é só uma ironia que desfralda o ponto de vista pernicioso dos preconceituosos e reaças. Se bem que posso não ter expressado essa ironia da melhor forma.

Fernando Cônsolo Fontenla

agosto 15 2011 Responder

Você parece um tanto deprimido!

Bárbara de Almeida

agosto 15 2011 Responder

Calma Rob, na verdade você tem que fazer um texto desses ao contrário. Isso não são suas más características, e sim as boas. Não se deixe desanimar!

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