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Justificando desigualdade com igualdade

Entre os diversos recursos muito utilizados entre os onívoros para tentar justificar eticamente sua alimentação quando questionados por veg(etari)anos, destacam-se a “cadeia alimentar”, a lei da sobrevivência, o suposto carnivorismo humano semelhante ao de predadores naturais, a máxima de que todo animal carnívoro ou onívoro precisa matar outros animais para comer… Todos esses convergem num argumento-pai falacioso: usar uma falsa igualdade amoral para justificar atos humanos que só são possíveis numa realidade dominada pela desigualdade moral.

É curioso perceber como muitos que comem carne dizem ser “iguais” aos demais animais apenas para tentarem manter o direito auto-outorgado de pensá-los (?) como seres inferiores, como escravos. É o bastante para convencerem a si próprios e aos questionadores inexperientes de que comer produtos de origem animal seria ético e envolveria uma violência totalmente justificável.

O onívoro diz que é regido pela “lei da sobrevivência”, que “precisa matar para comer”, que é “carnívoro”, tudo para se manter comendo em fast-foods e churrascos, numa vida que em absolutamente nada lembra a daqueles animais realmente atados às “leis da selva” e ao determinismo biológico. Tenta caracterizar-se como um bicho caçador nato quando na verdade compra carne embalada em plástico e isopor em supermercados e é completamente incapaz de predar um animal com, literalmente, suas próprias mãos ou dentes. Diz ser “igual” quando está participando de um sistema que, através da pecuária e da pesca, reduz seus “iguais” amorais à condição de desiguais morais – de coisas, de escravos, de propriedade, de seres inferiores.

Não condizendo com a verdade nesse sentido, a tentativa de justificar desigualdade moral com igualdade amoral também é muito falha quando vem sob a forma de outros dogmas pseudoecológicos.

 

Refutando o mito

A suposta igualdade amoral entre os humanos onívoros e as vítimas de sua alimentação é uma falácia que, em qualquer uma de suas explicações, claramente não encontra justificação na realidade. Isso podemos perceber nas diversas explicações:

a) Somos o topo da cadeia alimentar, assim como os predadores naturais: A cadeia alimentar das sociedades humanas não tribais é uma criação tipicamente humana, é artificial. Agricultura, pecuária e pesca com instrumentos complexos não são nada comuns no ambiente selvagem. E mesmo que pertencêssemos a uma cadeia essencialmente natural, nossa posição nela jamais seria um lugar alto se não contássemos com armas de nosso fabrico, uma vez que não contamos com anatomia carnívora, como explico melhor mais abaixo, na letra D.

b) Comemos carne porque vivemos a lei da sobrevivência: ou matamos ou morremos: Em sociedades sedentárias tecnologicamente avançadas, que contam com instrumentos impenetráveis de proteção (como muros e cercas), isso passa longe de ser verdade. É até absurdo pensar que um morador do centro de São Paulo ou um camponês distante de zonas florestais vivem em condições ecológicas semelhantes a um aborígene munido de armas brancas simples que, vivendo no meio de uma floresta, savana ou região desértica, precisa disputar presas com predadores ou se defender de ataques dos mesmos.

c) Vivemos a lei do mais forte: Pretexto irmão do dito acima, deixou de ser aplicável aos humanos desde que eles criaram os primeiros códigos legais e se encastelaram nas cidades e em bem protegidos campos. Nas civilizações não existem animais concorrentes que desafiem os humanos a disputas mortais de aptidão ou força. Aliás, sequer existe uma “lei do mais forte” na Seleção Natural, mas sim a lei do mais apto, na qual mesmo os mais fracos em força, usando as habilidades peculiares às suas espécies, têm chances de sobreviver por tempo indeterminado ao domínio dos predadores.

d) Somos como onças, leões, tigres, hienas, ursos… Somos carnívoros predadores: Nada mais errado. Primeiro porque o ser humano também come vegetais – uma enorme variedade deles. Segundo porque não temos garras, caninos grandes e afiados, muitos dentes pontudos, musculatura naturalmente robusta, velocidade de locomoção, intestinos curtos e outras características anatômicas típicas de animais realmente carnívoros. Terceiro porque nenhum predador natural confina, aprisiona e escraviza suas presas, nem sequer caça com armas fabricadas – ao contrário do ser humano, que sempre precisou desses recursos para comer carne.

e) Se o boi (ou o porco, ou o bode, ou o peixe…) fosse carnívoro, ele não pensaria duas vezes antes de me atacar e comer, logo tenho o direito de matá-lo e comê-lo: Quem usa esse argumento esquece de uma outra particularidade humana: a agência moral. Comparar-se com animais carnívoros para se ter o “direito” de matar herbívoros sem qualquer remorso é negar sua propriedade humana de discernimento moral; de dividir as ações entre morais e imorais, certas e erradas; de saber que, quando há alternativas disponíveis, é desnecessário pessoas predarem bichos. Esse senso ético-moral humano, combinado com a flexibilidade alimentar também própria do ser humano, torna sem sentido o indivíduo justificar as mortes da pecuária e da pesca dizendo-se tão amoral quanto os predadores naturais.

f) Somos iguais aos outros animais, por isso precisamos matar (animais) para comer e sobreviver: Semelhante ao pretexto da letra B, mas com mais ênfase à dita igualdade amoral entre os animais humanos e não humanos. É o mito-pai que tenta justificar desigualdade com igualdade. Essa igualdade, também estendida ao âmbito biológico-ecológico, evidentemente não faz sentido quando lembramos que:
– as sociedades modernas, mesmo em sua ruralidade, têm seu próprio ambiente, à parte dos habitats selvagens dos animais não humanos não domésticos, praticamente livre de qualquer ameaça predacional (exceto quando carnívoros isolados invadem cidades ou campos, o que, porém, não é nem de longe o bastante para abrir competições por alimento, ecologicamente falando);
– humanos precisam de armas para caçar e pescar, diferentemente de qualquer predador de verdade;
– humanos têm a peculiaridade de flexibilizar sua alimentação, podendo, dados a oportunidade de escolha e o conhecimento de todas as fontes acessíveis de nutrientes, escolher entre ser onívoro, ser vegetariano incompleto (ovolacto, lacto e ovovegetarianismo) ou vegetariano estrito;
– humanos têm senso ético-moral e também desenvolvem culturas, e ambas as propriedades censuram certas fontes alimentares. Portanto o ser humano socializado não é de comer de qualquer fonte, não come qualquer carne sadia nem qualquer vegetal seguro;
– a combinação de ética mais moral, flexibilidade alimentar e disponibilidade agropecuária dos alimentos necessários descarta qualquer determinismo ecológico para o ser humano e o torna criador e administrador de suas próprias cadeias alimentares.

Enfim, o argumento da equiparação amoral e ecológica entre humanos onívoros e animais predadores naturais não convence, sendo apenas um pretexto para se continuar financiando a exploração animal sem culpa e remorso. Usa-se essa inexistente semelhança ecológica para se tentar suprimir o sentido da verdadeira igualdade entre animais humanos e não humanos: a igualdade moral, baseada na senciência.

imagrs

8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Douglas

março 1 2012 Responder

Eu corrigi o seu comentário anterior, modificando o nome daquela a que vc se referiu. Grato, RFS
P.S: isso *não* foi uma edição por violação de regras de comentário, fique tranquilo ;-)

Douglas

março 1 2012 Responder

Ótimo texto, como sempre, Robson. Esta mania de buscar de justificar como ético um comportamento, apenas porque ele é copiado de um ser incapaz de pensamento ético, é uma grande tendência nos escravistas. Além de uma falácia naturalista enciclopédica.

Mirella:

Eu vou dar um voto de confiança e fingir que não li isso.

    Robson Fernando de Souza

    março 1 2012 Responder

    Valeu, Douglas =)

Mirella

novembro 2 2011 Responder

Já li… uma pergunta só:

AONDE VOCÊ ESTARIA HOJE SE NÃO TIVESSE SIDO AMAMENTADO?

    Robson Fernando de Souza

    novembro 2 2011 Responder

    Amamentação não tem nada a ver com exploração animal e veganismo.

    Mariana

    novembro 3 2011 Responder

    Nossa!! O que tem a ver?

Cesar Carvalho

agosto 18 2011 Responder

Fantástico texto, Robson!

No item “d”, acho que faltou citar também que o ser humano é o único ser que precisa cozinhar animais para comê-los (tanto por ter dificuldades de digerir grande volumes de tecido animal cru, como também para lidar com certos patógenos que pouco afetariam carnívoros de verdade). E, convenhamos, nada menos natural do que depender do fogo.

Você menciona, no item “c”, algo que eu creio que é de vital importância enfatizar: que a seleção natural baseia-se na idéia de “lei do mais APTO”. Certas áreas das ciências biológicas finalmente estão caindo em si e percebendo que mais apto é, em geral, aquele que consegue viver em maior harmonia com seu habitat e com as demais espécies que o coabitam. Esta maior aptidão, freqüentemente, é resultado de relações de cooperação (de predação ou não) que resultam na co-evolução de várias espécies do mesmo habitat – e elas tornam-se tão interconectadas que é risível falar em “lei do mais forte” quando vemos o quadro geral de todas as inter-relações de um dado ecossistema. Lamentavelmente, a discussão científica da teoria da evolução e da seleção natural priorizou o paradigma da tal “lei do mais forte” por razões puramente políticas, visando fornecer uma justificativa naturalística para o imperialismo europeu da época. E tal equívoco perpetuou-se (ou melhor, foi perpetuado) por ser uma poderosa arma do arsenal ideológico que ajuda a manter o status quo.
Há que se corrigir este perigosíssimo erro histórico, pois se o principal paradigma da nossa sociedade continuar alicerçado neste dogma de que só sobrevive aquele que subjuga e extermina a “concorrência” (seja da nossa ou das demais espécies), tenho minhas dúvidas que a humanidade consiga ver a aurora do século XXII.

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