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ago11

O logro do McDia Feliz #McDiaInfeliz

Hoje é o tal do McDia Feliz, o famigerado dia em que a McDonald’s posa de boazinha e tenta limpar sua imagem de instituição vilã da saúde infantil – e matadora serial de animais. Através de uma campanha que diz visar ajudar no combate ao câncer infantil, disfarça o fato de que seus sanduíches aumentam bastante as probabilidades de as crianças que as comem contraírem essa mesma doença, em comparação com as que não comem regularmente carnes processadas. E mascara também diversas outras praxes da empresa tidas como antiéticas, como a sedução publicitária de crianças, o financiamento da pecuária e da pesca e a exploração dos seus jovens funcionários.

Este deveria ser um dia de reflexão sobre os diversos aspectos sombrios do capitalismo especista que vige no mundo e é praticado por essa corporação:
a) a pecuária e a pesca como promotoras de um mais que gigantesco genocídio animal que ceifa violentamente a vida de dezenas de bilhões de animais a cada ano;
b) os perniciosos efeitos das carnes, em especial as vermelhas e processadas, na saúde humana;
c) a capacidade das grandes corporações de esculpir imagens institucionais muito bonitas que ilustram o exato inverso de sua verdadeira práxis comercial, seja com o fim de enganar os clientes com uma imagem de bom moço, seja com o de reparar o desgaste de sua reputação causado ao longo dos anos;
d) a publicidade infantil como algo francamente antiético, que explora a inocência, a credulidade e a alta sugestibilidade das crianças em favor do capital, manipulando suas tenras mentes para que os pequeninos se tornem e se mantenham fiéis fregueses das empresas – seja de fast-food, seja de brinquedos;
e) a exploração de mão-de-obra com subempregos exaustivos.

Resumirei cada uma das cinco, ligando-as à McDonald’s e convidando você a refletir sobre este dia.

 

Pecuária e pesca: escravidão e genocídio de seres não humanos

É muito conhecido entre os vegetarianos e veganos que não existe consumo de carne sem derramamento de sangue de animais, os quais, ao contrário das crenças de muitos onívoros, não têm as mínimas condições de se defender ou de fugir, seja dos matadouros, dos cercados ou das redes de arrasto. É inumerável a quantidade de animais mortos em prol do onivorismo humano, mas se estima que sejam no mínimo algumas dezenas de bilhões por ano. Só no Brasil, somando-se apenas bovinos, porcos e galináceos, a matança supera os 5 bilhões anuais.

Na pecuária, antes dessa matança, é imposto aos bichos um ciclo de vida totalmente condicionado aos interesses alheios. Em outras palavras, os animais da pecuária nascem, crescem, reproduzem-se e morrem não como fins em si mesmos nem para fins de preservação da espécie, mas sim para garantir o lucro de pecuaristas. Um autêntico sistema de escravidão, em que seres vivos sencientes são nada mais do que propriedade de pessoas.

E nesse sistema são praxe a marcação dolorosa a ferro em brasa ou a metal resfriado com nitrogênio líquido, a mutilação de diversas partes do corpo – dependendo da espécie, são amputados o bico, os chifres, a cauda, os testículos, os dentes e pequenas lascas das orelhas – e a apartação dos filhotes de suas mães, muitas vezes com poucas semanas de vida. Tudo isso justificado por serem propriedade de seus donos e estarem vivos apenas graças ao interesse dele de lucrar.

Já na pesca industrial, enormes populações marinhas são encurraladas por quilométricas redes de arrasto, o que acaba vitimando também incontáveis animais não desejados pelos pescadores. Na retirada de água, os peixes inclusos no “pescado” e os animais indesejados sofrem todos sob uma irreversível asfixia, algumas vezes sendo mortos por choque térmico ou eletrocução em tanques de abate. Graças à pesca intensiva, é estimado que praticamente todas as espécies comestíveis de peixes serão extintas até 2050.

E é desses sistemas que a McDonald’s obtêm o recheio principal de seus sanduíches. Animais tratados como propriedade e mortos sem qualquer remorso acabam tendo seus corpos estraçalhados nos frigoríficos e transformados em hambúrgueres. Massas cárneas processadas que carregam diversos perigos à saúde humana, como veremos abaixo.

Assim é o McDia Feliz: “promovendo” a vida de crianças doentes com os frutos da escravidão e matança em grande escala de animais.

 

Carne e saúde

Diversas pesquisas nos últimos anos vêm denunciando a carne vermelha, em especial suas formas processadas, como um vetor de problemas de saúde. Não que baste comer um bife por dia para ser automaticamente condenado a, por exemplo, um derrame cerebral em poucos anos. Mas a questão é o aumento dramático da probabilidade de um consumidor assíduo dessas carnes, em comparação a pessoas que não comem carne ou comem pouca carne, contrair doenças como câncer, diabetes, obesidade, isquemia cerebral e infarto.

Aqui me concentro na questão do câncer, cujas vítimas crianças são “auxiliadas” pela McDonald’s via McDia Feliz. Abaixo alguns links de pesquisas feitas nos últimos anos ligando carnes vermelhas e/ou processadas a alguns tipos de câncer.

Carne vermelha aumenta risco de câncer
Incidência de câncer é menor entre vegetarianos
Carne vermelha pode causar câncer
Carne vermelha aumenta risco de câncer no intestino
Carne vermelha pode danificar DNA (e ocasionar câncer por isso)
Carne vermelha dobra risco de câncer de mama
População deve comer até 70g de carne vermelha por pessoa por dia
Carne vermelha pode provocar câncer de bexiga
Reduzir carne vermelha diminui mortalidade (por câncer e doenças cardiovasculares)
Cuidado com o churrasco

Daí nos perguntamos: que coerência há em crianças com câncer serem ajudadas (?) por uma empresa que aumenta muito, com seus sanduíches, a probabilidade de tantas outras contraírem a mesma doença?

 

Criando imagens-máscara institucionais

É um costume corriqueiro grandes corporações criarem e manterem máscaras permanentes de “bons mocinhos” de modo a passarem à sociedade uma imagem de empresas responsáveis e caridosas, que se preocupam com o bem do ser humano e do meio ambiente não humano. Notável é também quando tais máscaras dizem uma coisa mas escondem o exato inverso. Divulgam comerciais e sites em que dizem primar pela responsabilidade socioambiental.

Ações filantrópicas, plantio de mudas, campanhas de doação, sistemas certificados de gestão ambiental… São muitas as práticas anunciadas para que os consumidores creiam que estão consumindo responsavelmente e que um capitalismo ético e justo é possível. No entanto, veículos de mídia alternativa e ONGs ativistas vez ou outra denunciam podres dessas mesmas empresas, aquilo que a imprensa mainstream não mostra para não quebrar patrocínios e alianças políticas.

Por exemplo, certas corporações de agronegócio usam um marketing poderoso que exaltam sua suposta responsabilidade socioambiental, mas frequentemente aparecem em listas públicas de empresas que compram carne de fazendas envolvidas em desmatamento e grãos de latifúndios que exploram trabalho escravo, ou em denúncias envolvendo exploração de mão-de-obra barata.

No caso da McDonald’s, citei acima sua cumplicidade com a exploração mortal de animais na pecuária e na pesca e os perigos do consumo indiscriminado de carne vermelha e/ou processada. E abaixo há mais dois aspectos que põem em xeque sua imagem institucional. É para encobrir esses aspectos sombrios de sua práxis comercial que a corporação promove iniciativas com o McDia Feliz e a Fundação Ronald McDonald.

 

Publicidade infantil como estratégia de marketing

Vem-se discutindo cada vez mais como é antiética a exploração da inocência e da sugestibilidade das crianças por parte da publicidade corporativa de lanches e brinquedos. E a McDonald’s é mestra na “arte” de seduzir os pequeninos de modo que se tornem seus fregueses mais fiéis.

Crianças são altamente sugestíveis e suscetíveis a serem seduzidas por comerciais de brinquedos e fast-food. Basta verem um comercial de bonecos(as) que se “derretem” todas e quase que imediatamente clamam: “Pai/Mãe, compra!”. Sua tenra mente ainda está longe do amadurecimento e não desenvolveu o senso crítico necessário para julgar se e por que determinado produto deve ser adquirido.

Assim sendo, tornaram-se um filão fundamental para as indústrias de público infantil, um nicho de fiéis consumidores. E a McDonald’s soube aproveitar isso da forma mais eficaz possível: juntar brinquedos e sanduíches num só pacote. Eis então o McLanche Feliz, que sempre vem com brinquedos pequenos e/ou jogos de tabuleiro. Nada mais sedutor para crianças onívoras do que comer aquilo que lhes é tão gostoso e se divertir com o “presentinho” da empresa. Sem falar também nos pôsteres que vêm junto às bandejas que servem o lanche, geralmente vindo com jogos de mesa, curiosidades ou outras atrações lúdicas.

Daí percebemos que a antiética tática da McDonald’s de misturar lanches insaudáveis com brinquedos e jogos é o seu grande trunfo para conquistar e manter seus pequenos clientes. Algo que, perante mentes pensantes, anula completamente as iniciativas filantrópicas da empresa na sua balança moral e a torna a corporação-padrão do capitalismo: visa o lucro acima de tudo, pouco se importa se a matéria-prima é obtida de fontes socioambientalmente destrutivas, usa de meios altamente questionáveis de marketing e camufla suas práticas subreptícias vendendo uma máscara institucional de promotora do bem.

 

Exploração de mão-de-obra

Empresas como a McDonald’s costumam usar mão-de-obra juvenil (a partir de 16 anos) e inexperiente. Contrata adolescentes e jovens adultos que estão mais preocupados do que nunca em conquistar seu primeiro emprego, ganhar seu primeiro dinheirinho suado à revelia do “paitrocínio”. Sem qualquer convívio passado com a hostil realidade dos trabalhadores de base, repleta de abusos verticais (vindos das instâncias superiores da hierarquia organizacional) e horizontais (promovidos pelos próprios colegas de trabalho), aceitam qualquer trabalho que lhe dê os primeiros reais os quais lhes permitam dizer: “Esse é meu dinheiro!”.

São assim pessoas extremamente vulneráveis a todo tipo de exploração e abuso, desde salários muito baixos até maus tratos hierárquicos, passando por jornadas de trabalho nada confortáveis. E a McDonald’s não está à parte disso. É o que denunciam as seguintes páginas do site/revista Brasil de Fato: McDonald’s: a propaganda que encobre a exploração; McDonald’s: maus tratos e exploração

Não é à toa que essa corporação é tão famosa entre os jovens brasileiros por explorar seus inexperientes e vulneráveis funcionários.

 

Conclusão

É algo sabido por muitos: o McDia Feliz, muito longe de tornar a McDonald’s verdadeiramente uma empresa ética, serve apenas como marketing-máscara de modo a suavizar os tantos danos causados à sua imagem institucional por médicos, ativistas de esquerda, ambientalistas e defensores dos direitos animais.

Também é conclusão pertinente que comer um sanduíche dela nesse dia “especial” não torna o indivíduo mais consciente e engajado pelo bem comum. A pessoa, ao comprá-lo, não deixará de estar contribuindo para o sangrento império da pecuária e da pesca intensiva, para a exploração de mão-de-obra barata e maltratada, para o sucesso do marketing da “filantropia” interesseira e também para prejudicar sua própria saúde.

Se você deseja contribuir para o combate ao câncer infantil, faça doações diretas às ONGs filantrópicas que cuidam de crianças enfermas com a doença, ao invés de reforçar a reputação de uma empresa que “combate” o câncer 1 vez por ano mas ajuda a causá-lo nos outros 364 dias do ano.

 

Documentários recomendados neste McDia “Feliz”:
– Criança, a alma do negócio
– Consuming Kids
– Super Size Me
– A Carne é Fraca
– Meat the Truth
(em português, “Uma verdade mais que inconveniente”)
– Fast Food Nation (filme)

Jogue o McDonald’s Videogame e entenda um pouco do funcionamento de uma corporação de fast-food

imagrs

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Álvaro

agosto 27 2011 Responder

Essas crianças ai de hoje serão no amanhã os escravos que trabalham lá para ganhar 230 reais , serem humilhados por aquela gente idiota (porque convenhamos que esse tipo de alimentação é falta de educação ou ignorância) enfim, a maior exploração mesmo rsrs

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