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[OFF] O mito do Recife de “todos os ritmos”

Diz-se entre os mais bairristas que Recife é uma cidade altamente multicultural, que acolhe pessoas de todos os gostos, estilos, ritmos. Mas uma olhada no panorama musical atual da cidade nos revela que a máxima “Recife, uma cidade de todos os ritmos”, tão propalada no Carnaval, nada mais é do que um mito, se não apenas uma lembrança do passado. Hoje o cenário é tal que os apenas os aderentes de alguns gêneros sonoros populares e os ecléticos são bem tratados pelos points da cidade, enquanto muitos não ecléticos, de gostos mais específicos e restritos, sofrem algo que podemos considerar uma exclusão musical.

Por um lado, simpatizantes de ritmos como brega, forró, “forró” eletrônico, pagode, swingueira, MPB, axé, trance, reggae, rock dos anos 60 e 70 e Jovem Guarda encontram na cidade portos seguros que podem frequentar regularmente. Por outro, fãs não ecléticos da música dos anos 80, do rock manguebítico dos anos 90, de country, da black music americana, de new age, de world music, de new metal etc. são praticamente excluídos.

Há uma falta séria de boates e bares de nicho musical, voltados para os gêneros citados. Se, digamos, o pop-punk ou o R&B é meu estilo favorito, não conto com lugares em que um ou outro seja o ritmo principal tocado. Posso encontrar no máximo esparsos bares cujos DJs tenham aleatória boa vontade ou cujas jukeboxes contenham umas poucas músicas de meu gosto – mais uma longa fila de playlist graças aos pedidos de muitos outros clientes.

O caso da música da década de 80 é emblematicamente dramático. Se há 20 anos o synthpop, o new wave, o glam rock dos cabeludos, o pós-punk, o pop Jackson-Madonniano e o BRock tocavam em todo canto da cidade, hoje não há sequer uma boate ou bar que se dedique àquela década. Faz séria falta uma Autobahn (boate paulistana cujo tema é anos 80), onde pudéssemos dançar ao som de Take on Me, Pale Shelter ou Bizarre Love Triangle por aqui.

E o pior é que o que não falta no Recife são fãs da música oitentista. Milhares e milhares de recifenses de todas as idades permanecem adorando A-ha, Duran Duran, Depeche Mode, Tears For Fears, Simply Red, Scorpions, Whitesnake, Eurythmics… Os shows de a-ha, Simply Red, Air Supply e Scorpions, bandas que estouraram nas paradas daquela época, simplesmente lotaram.

Mas o que fica parecendo hoje, dada a falta de danceterias oitentistas, é que aquela década foi esquecida por todos, que há um vazio entre 1979 e 1990 nos gostos musicais dos recifenses. A verdade é que ninguém, ou quase ninguém, entre os empresários está olhando para esse enorme nicho de órfãos daquela que, apesar de década perdida na economia, foi uma década dourada na música euro-americana e brasileira.

Outro caso emblemático é o do Manguebeat dos anos 90. Está parecendo que o Recife esqueceu Via Sat, Querosene Jacaré, Sheik Tosado, Matalanamão, River Raid, Supersoniques e dezenas de outras bandas que estouraram nos anos 90 e permaneceram em alta até o primeiro quarto da década de 2000.

Hoje poucos remanescentes da época continuam contagiando os aficionados pelo velho rock pernambucano, ainda que sejam só sombra daquele movimento que prometia contagiar o Brasil antes da morte de Chico Science. E o pior é que não há hoje um point permanente para o rock pernambucano, um lugar que apareça regularmente nas agendas culturais da mídia e onde os saudosos do Manguebeat façam novas amizades ou reúnam seus companheiros para trocar papos e ideias até o amanhecer.

Na mesma situação de marginalização cultural, desprovidos de espaços dedicados, estão inúmeros outros estilos internacionais: música country, dance/house dos anos 90, black music americana (mais precisamente funk americano, R&B e soul), pós-grunge, new metal, world music, acid jazz, J-Music, música new age, estilos meditativos/relaxantes orientais…

Como dito anteriormente, esses estilos no máximo são encontrados esporadicamente, diluídos na set list dos DJs e em vitrolas cujos acervos englobam 60 anos de músicas de muitos gêneros. Ou seja, a pessoa tem que se forçar a um falso ecletismo, algo que soa muito desagradável para muitos indivíduos. Tem vezes que a pessoa gosta do blues, do jazz e do grunge que tocam naquele bar mas detesta visceralmente o new metal e o dance que são reproduzidos alternadamente com aqueles outros gêneros no mesmíssimo lugar.

Aliás, eu posso estar parcialmente errado ao dizer que não há boates oitentistas, points de rock manguebítico, cantinhos da música oriental e outras opções de diversão para os que considero aqui musicalmente excluídos. Mas o problema maior é que a maioria de nós não sabemos se esses lugares sequer existem, tampouco onde ficam e se dá para voltar de ônibus de lá no fim de noite.

Essas informações não são facilmente encontráveis nem pelo “deus” Google. Diz-se muito, é possível conhecer lugares onde toquem determinados estilos por contatos próximos, pelo boca-a-boca. Se eu passo a conhecer um reduto escondido do punk rock ou do pós-grunge, é porque aquele colega do amigo meu que frequenta aquele barzinho perto da UFRPE informou ao meu amigo, que por sua vez me falou do lugar. Como já me disseram: “tem que ir atrás”. Porque não há na internet nem em qualquer outro lugar um catálogo decente de points musicais o qual possa revelar por inteiro o que seria o verdadeiro e obscurecido mosaico musical recifense.

E para fechar esta queixa com ainda mais exclusão, há o agravante de que os bares de nicho musical do Recife Antigo estão fechando um atrás do outro. O bar que uns anos atrás fazia festas com tributos a bandas dos anos 80 já não tem mais a atração, se não já fechou de vez; outro bar local que se dedicava a rock e metal também deu adeus à ilha; e diversos outros estão encerrando as atividades por perceberem que aquele lugar, que outrora foi o mais glorioso e aprazível point cultural do Recife, hoje está decadente, quase abandonado pela prefeitura e entregue aos traficantes, assaltantes e trombadinhas.

A verdade geral nisso tudo é que Recife não é, ou não é mais, uma cidade de todos os ritmos. Aqui são excluídos os adeptos não ecléticos de certos estilos favoritos, e eles são obrigados a fingir ecletismo e aceitar ouvir ritmos que não curtem tanto ou mesmo detestam, para manterem uma sociabilidade razoável – ainda que limitada, pelo fato de que, como são escassos os bares de nicho musical, a identificação de gostos em comum com outras pessoas em bares ecléticos se torna bem mais difícil.

Ou então a opção é se contentar com hobbies caseiros ou, no caso de quem tem dinheiro, partir para diversões não musicais caras, como viagens, idas a praias diferentes, trilhas florestais, passeios ciclísticos, meditações etc.

 

P.S.:

a) Caso alguém queira saber qual meu contexto musical, que gostos musicais tenho afinal de contas, digo que sou fã de synthpop e new wave dos anos 80, pós-grunge, rock internacional mainstream não pesado e rock brasileiro dos anos 80; curto em menor escala certos cantores adulto-contemporâneos e de R&B e um pouquinho de pop dos anos 90. Pessoalmente tenho pouca abertura para outros estilos; se eu começo a gostar de algo, é sempre naturalmente, nunca de forma forçada ou autoinduzida.
b) Se o texto contiver partes que não correspondam com a realidade, digam, por favor, e me corrijam.

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7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

David Daniel

julho 8 2016 Responder

Sou adepto ao gótico e atualmente ao grunge, chega a ser difícil encontrar pessoas adeptas à subcultura e ao gênero musical e deve ser meio impossível um club grunge em Recife. O jeito é partir para Seattle :(

nuno

novembro 6 2011 Responder

Uma pena realmente!!!… Sou de Portugal e vou para Recife final deste mês para trabalhar e adoro musica anos 80, sobretudo A-ha, Duran duran, NEW ORDER…no geral todo o estilo de musica POP, electro dos anos 80 que aproveito aqui por Lisboa!!!! que vou fazer agora???!!! KKKKKKKK

    Robson Fernando de Souza

    novembro 6 2011 Responder

    Vc vai se mudar pra cá, Nuno?

Bárbara de Almeida

agosto 15 2011 Responder

É amigo, tá tenso mesmo. Não sei quem tá pior: você com o brega ou eu com o sertanejo universitário :/ E, quando saio prum barzinho razoálvel qualquer, só toca MPB :/(2) tô numa fase que já grito: “Chega de Raul, pô!”

    Robson Fernando de Souza

    agosto 15 2011 Responder

    hehehehehehe

Bárbara de Almeida

agosto 10 2011 Responder

Pronto, você achou onde pode investir e não ter concorrência, Robson! ;D
E, se der certo, quando eu passar por Recife, prometo ir na sua boate/danceteria/barzinho! :)

    Robson Fernando de Souza

    agosto 10 2011 Responder

    hehehehehe =) Quem dera que eu fosse um empresário de boate :P

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