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Diretor do IPAM sugere que a pecuária aprisione animais em prol do meio ambiente

Uma pecuária próxima da sustentabilidade necessariamente cria animais confinados, tolhendo-lhes qualquer resquício de liberdade para que se evite o desmatamento com fins de abertura de pastos e se controle a emissão de metano animal. Assim pensa o diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Paulo Moutinho.

Foi o que mostrou a Rede Brasil Atual, parte da hoje secundária mídia de esquerda brasileira. No Fórum de Debates Brasilianas.org Amazônia Sustentável, realizado hoje em São Paulo, Moutinho sugeriu que se procure modelos agropecuários com baixa emissão de carbono, que inibam o desmatamento e as emissões diretas de gases-estufa, para que a pressão sobre as fronteiras agrícolas, agravada pela iminência de aprovação do Código (anti)Florestal dos ruralistas, cesse de uma vez.

Moutinho afirma que medidas como o “uso de áreas abandonadas ou aproveitamento de espaços de baixa produtividade” devem ser adotadas  antes que as atuais perspectivas de aumento nos preços das commodities agrícolas (como soja, açúcar e carne) se reflitam na expansão dos latifúndios dessas culturas e na consequente destruição de mais áreas da Floresta Amazônica.

Até aí, ok, exceto por legitimar o poder político-econômico do agronegócio. Mas uma sugestão se fez muito polêmica (ao menos sob o olhar deste blog) numa realidade em que as pessoas estão cada vez mais preocupadas com o tratamento dos animais escravos da pecuária:

Segundo Moutinho, basear-se na economia de baixo carbono, que representam os meios de produção que produzem reduzidas taxas de gases do efeito estufa – como metano, dióxido de carbônico, entre outros – é uma das medidas que devem ser tomadas para atingir um novo modelo de desenvolvimento.

A adoção de pecuária intensiva seria um exemplo, porque permitiria melhor aproveitamento das áreas já empregadas atualmente, com uso sustentável do solo e sem necessidade de queimadas e novos desmatamentos (fonte de emissões de CO2). Além disso, uma alimentação mais adequada do gado poderia contribuir para reduzir a emissão de metano.

Não sou agrônomo nem engenheiro ambiental, e também reneguei vocacionalmente a gestão ambiental (entenda melhor aqui por quê), mas estudei o bastante para poder dizer que citar a pecuária intensiva como solução para uma pecuária “sustentável” é um erro grave, em dois sentidos.

Primeiro em relação aos Direitos Animais, ainda desconhecidos pelo diretor do IPAM. Se a pecuária extensiva já é uma forma bastante evidente de exploração animal, sendo a grande extensão dos pastos o único aspecto a denotar, mesmo só de longe, “liberdade” de locomoção, a intensiva leva essa exploração às últimas consequências. É o regime das famigeradas e cada vez mais denunciadas fazendas-fábrica (ou factory farms), onde, ainda mais que nos já eticamente questionáveis sistemas extensivos e semiextensivos de pecuária, os animais não humanos são tratados como produtos, como frutos de uma produção comparável a uma linha de montagem. Nelas, pelo menos como se conhece hoje, os animais não conhecem a luz do sol, e têm uma vida inteira de privações, desde serem afastados de suas mães com poucas semanas de vida até o pouquíssimo espaço reservado a cada indivíduo do rebanho.

Segundo em relação ao próprio meio ambiente. Enquanto na pecuária extensiva o pasto é o alimento principal, na intensiva o uso de soja, milho, sorgo e mais uma miríade de outros insumos vegetais (no Brasil, nas criações semiextensivas, também são usados cevada, centeio, feijão, ervilha, algodão, amendoim, coco de babaçu, arroz, trigo, coco de dendê, gergelim, linhaça, melaço de cana etc.) é cotidiano. Na realidade brasileira, isso implicaria que grande parte dos pastos de solo recuperável daria lugar a latifúndios destinados à alimentação animal.

E, provavelmente, implicaria também mais inflação no preço dos alimentos, uma vez que haveria a explosão da demanda por todos os vegetais citados acima e a divisão da destinação dos mesmos (entre o consumo humano e o consumo pecuário) se tornaria ainda mais dramática do que hoje – hoje a pecuária semiextensiva e intensiva mundial já toma para si entre 70 e 80% de toda a produção global de milho e soja -, uma vez que, como vegetarianos e veganos bem informados sabem, cada quilo de proteína animal produzido requer que se produza a priori entre 3 e 10 quilos de proteína vegetal.

Ou seja, estender a pecuária intensiva à Amazônia e ao Cerrado não salvará esses ecossistemas de uma destruição ainda maior. Pelo contrário, poderá até exaurir a oferta agrícola brasileira a longo prazo, além de submeter os animais, que hoje já são tão tratados como coisas, a um regime ainda pior de exploração. Conclusão: bola fora do diretor do IPAM, que precisa o quanto antes conhecer os Direitos Animais, o vegetarianismo e a relação de ambos com a questão ambiental.

 

P.S: Me pergunto neste post scriptum: será que o fórum de debates em questão debateu também a reforma agrária e a emancipação sociopolítica dos pequenos produtores, para que se liberte o Brasil da semimilenar dominação político-econômica por parte dos latifundiários e ruralistas? Ou se limitou a debater a “domesticação” do agronegócio, o qual hoje causa tantas injustiças e ameaças contra o meio ambiente e os habitantes mais humildes do campo brasileiro?

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Bruna

setembro 13 2011 Responder

Sei lá porque, fiquei imaginando aqui um debate entre um cara que defende o boi criado solto em áreas não-desmatadas (?), tipo “boi verde”, bem-estar animal etc. Do outro lado, um ambientalista defendendo o confinamento… Uma terceira pessoa, vendo essa discussão que não teria fim nunca conclui: “quer saber? tá tudo muito confuso, mais fácil veganizar logo.”

E na conta dos impactos da pecuária de confinamento, parecem mesmo ter esquecido da ração usada nesse modelo, na quantidade de água, das toneladas de dejetos produzidos e, o principal, todo o processo desrespeita os animais e o consumo do “produto” final é completamente desnecessário.

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