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Heitor Scalambrini: sobre a maior termelétrica do mundo em Suape

Sob a luz (?) do anúncio da construção da maior termelétrica do mundo em Suape, meu colega professor Heitor Scalambrini Costa traz este ótimo artigo, que certamente é o que milhares de pernambucanos, como eu e ele, pensamos neste momento de perplexidade:

 

Governo traz para Pernambuco a maior usina suja do mundo
por Heitor Scalambrini Costa, Professor da Universidade Federal de Pernambuco

Já esta se tornando lugar comum, com toda pompa e marketing político, os anúncios bombásticos feito pelo governador de Pernambuco a respeito da chegada de novas empresas que vem para aqui se instalar, quase sempre em alguma cidade no entorno do complexo industrial e portuário de Suape.

A imprensa saúda o progresso chegando, o dinamismo da economia pernambucana. Três palavras chaves são abusadamente utilizadas e propagandeadas aos quatro ventos, justificando e anestesiando a população em geral e os setores da elite local, que de dia cantam loas a necessidade de proteger a natureza, o meio ambiental, mas na calada da noite, estimulam, promovem e saqueiam as matas, os rios e o ar que respiramos. Progresso, criação de postos de trabalho e geração de renda, bendita seja esta tríade que consegue calar toda uma população, e consentir que a geração futura pague um alto preço pela irresponsabilidade de alguns, mas com o consentimento de muitos.

Pernambuco é um exemplo de que estamos acelerando em marcha a ré, na contra mão de oferecer melhor qualidade de vida ao seu povo, e perdendo a oportunidade de mudar o paradigma atual, baseado no chamado “crescimento predatório”, que utiliza argumentos do século passado de que o “novo ciclo de desenvolvimento (?)” é a “redenção econômica do Estado (?)” e assim exige o “sacrifício ambiental”. Palavras entre aspas ditas pelos gestores públicos que tentam confundir, como um discurso pela busca de sustentabilidade entre empresas e governo, mas que aumenta o consumo e a produção de energia suja.

Não bastasse a devastação dos últimos resquícios de mata atlântica, de manguezais, das florestas naturais, da poluição dos rios, agora o Estado atrai e apóia a instalação de termoelétricas a óleo combustível, o combustível mais sujo para produzir eletricidade dentre os derivados de petróleo, perdendo somente para o carvão mineral no ranking de maior emissor de gases que provocam o efeito estufa, ou seja, o aquecimento global, correspondente ao aumento da temperatura média da Terra causador das temidas mudanças climáticas.

A termelétrica anunciada com a maior usina do mundo que pretende se instalar no Cabo de Santo Agostinho terá uma potência instalada de 1.452 MW, ou seja, a metade da hidroelétrica de Xingó, produzirá anualmente, caso funcione ininterruptamente, em torno de 8 milhões de toneladas de CO2. Além de outros gases altamente prejudiciais a saúde humana. Este cálculo estimado é possível, levando em conta que para cada 0,96 m3 de óleo consumido na termelétrica, 3,34 toneladas de CO2 são produzidos, segundo a Agência Internacional de Energia. Já para a termelétrica Suape II, que já tem mais de 70% das obras construídas, infelizmente também no município do Cabo, a emissão anual desta instalação será de pelo menos 2 milhões de toneladas de CO2. Portanto no município vizinho a Recife, no Cabo, estas duas usinas em funcionamento emitirão em torno de 10 milhões de toneladas de CO2, pouco menos de 1 milhão de toneladas todo mês, e pouco mais de 30.000 toneladas por dia. Será que é este o “desenvolvimento” desejado pelos habitantes do Cabo e de Pernambuco?

Este tipo de instalação industrial que para produzir eletricidade queima óleo, semelhante ao utilizado para movimentar navios, esta tendo enormes dificuldades em conseguir se instalar no sul/sudeste do país, devido às dificuldades impostas para obterem as licenças ambientais, necessárias para tal empreendimento. Acabam vindo para nossa região, pois aqui é conhecida a frouxidão dos órgãos estaduais responsáveis pelo controle, fiscalização ambiental, conservação e recuperação dos recursos naturais, tais como a Agência Pernambucana de Meio Ambiente – CPRH, ligada a recém criada Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade.

Fica mais uma vez demonstrado que em Pernambuco o crescimento econômico não combina com preservação ambiental. O atual governo do estado dá sinais claros de sua total falta de compromisso com as questões ambientais e com as gerações futuras, que sem dúvida é o maior desafio atual de nossa civilização.

Enquanto aqui se perpetua um modelo de crescimento econômico predatório, insustentável, alicerçado no uso de combustíveis fósseis, inimigo numero 1 e responsável maior pela emissão dos gases causadores do efeito estufa, o mundo discute como acelerar o uso de fontes renováveis de energia (solar, eólica, biomassa, energia dos oceanos) para atender a sua demanda energética.com menor agressão ambiental.

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Namilton Francisco

outubro 28 2011 Responder

Bom dia,

gostaria de saber como consigo autorização para divulgar esse texto na íntegra no jornal da entidade sindical que faço parte. Pois, acredito que a sociedade organizada deveria sair dessa inércia e começar a fazer campanha contra a instalação dessa monstruosidade.

grato,

Namilton Francisco da Silva
Sec. de Imprensa – SINTESPE (Sindicato dos Trabalhadores em Entidades Sindicais de Pernambuco)

    Robson Fernando de Souza

    outubro 28 2011 Responder

    Olá, Namilton. O artigo é de Heitor Scalambrini, não meu, mas creio que ele permite a reprodução do texto preservando-se a autoria dele, Na dúvida, vc pode enviar um e-mail pra heitorscalambrini@gmail.com

    Abs

Lucho

setembro 17 2011 Responder

Mas não era só a energia termonuclear que era perversa?

    welitob

    novembro 10 2011 Responder

    Meu caro, vc deve saber que a energia nuclear, atualmente é a mais eficaz e a segunda menos poluente. Embora que seja uma energia apropriada para países desenvolvidos como E.U.A, Canadá, entre outro. Isto pois seria arriscado investir em uma energia ao qual o governo não pode se responsabilizar para que ela se torne segura.

      welitob

      novembro 10 2011 Responder

      Logo a energia nuclear não é perversa e sim os governos não a sabem administrar. China, por exemplo, a usina que houve atualmente um acidente foi um mal preparo por parte dos técnicos e engenheiros, uma vez que foi construida no encontro de duas placas tectônicas

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