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set11

“Planeta dos Macacos: A Origem”: o inspirador NO! de César e os convites a reflexões e debates

Aviso: pode conter spoilers

“NO!” O grito do chimpanzé César, que expressa ao mesmo tempo resistência à opressão humana e a incontível sede de liberdade dos primatas presos em San Bruno, contagia, excita e inspira a todos que assistem O Planeta dos Macacos: A Origem. Um emocionante petardo contra a exploração animal que a humanidade promove, esse é um filme imperdível. É praticamente impossível não perceber as mensagens que ele transmite, lições altamente importantes sobre a atual relação entre os animais humanos e não humanos.

Acompanhando todas as lições de ética, inspira nos espectadores não especistas um sonho que há muito queríamos ver sendo materializado no cinema: animais não humanos defendendo-se por conta própria da opressão imposta pelos seres humanos, retaliando todos aqueles que vivem e lucram promovendo escravidão, aprisionamento, tortura e assassinato de seres inocentes.

Infelizmente é certo que jamais teremos a oportunidade de ver bichos humanamente inteligentes revidando as agressões que nossa espécie lhes aplica todos os dias. Mas não seja por isso: O Planeta dos Macacos: A Origem inspira ainda mais aqueles que hoje lutam por quem em realidade não pode se defender.

Incita-os, numa maneira muito bem feita, a promoverem ainda mais debates sobre a vivissecção, os sempre cruéis testes in vivo de produtos – desde os cosméticos até os medicamentos –, o sequestro de animais silvestres, os lucros que as indústrias farmacêuticas e biotecnológicas faturam sobre o sofrimento de inocentes, o tratamento de seres sencientes como propriedade, a cumplicidade da grande maioria da humanidade em relação às atrocidades que se promove em nome do bem-estar humano e o incômodo fato de que a mesma é refém, em vários sentidos, da exploração animal.

Sem falar numa outra provável importância futura desse épico filme: instigar a intensificação da pressão dos defensores animais contra a exploração científica de primatas. Oxalá vejamos dentro de não muito tempo leis em todo o mundo abolindo a vivissecção de símios, justificadas desde pelas diferenças fisiológicas interespecíficas, que dão uma relevante probabilidade de um remédio bem sucedido nos primatas ser um desastre quando testado em humanos, até pelo contrassenso que é tratar animais tão parecidos com os humanos como propriedade destes – um argumento antropocêntrico, é verdade, mas conveniente numa realidade em que a grande maioria das pessoas ainda não tem a maturidade necessária para pensar o abolicionismo baseado na senciência.

Como falei acima de medicamentos que funcionam em macacos mas não em humanos, vale colocar que o final do filme dá um alerta assombroso: não é impossível que no futuro um remédio assim, que se baseie em vírus, acabe, dependendo das circunstâncias, tornando-se uma acidental arma biológica incontrolável, causando uma pandemia a exterminar a grande maioria da humanidade. Essa possibilidade hoje parece absurda, mas tem uma lasquinha de probabilidade real, tal como uma queda de um grande asteroide. Isso nos dá a conclusão de que a exploração animal é não só uma agressão ética, mas também uma ameaça à própria integridade da espécie humana. Em outras palavras, explorar animais não humanos pode, em última análise, implicar a perdição da própria população humana global.

E não são só ética animal e armagedon biológico os assuntos que o filme põe em debate. Falei lá no começo deste texto e retomo aqui: o grito de César – NO! – é o grito contra a opressão e pela liberdade, e isso serve também, mais que perfeitamente, para os humanos oprimidos. Quem não gostaria de gritar um NO!…
– aos militares “superiores” que incitam os soldados do quartel a uma vida de privações de direitos, humilhação moral, obediência cega forçada e uso de máquinas de matar?
– ao Estado brasileiro, que ainda obriga os jovens rapazes de 18 anos a se alistar nas famigeradas forças armadas?
– aos patrões das empreiteiras das faraônicas construções desenvolvimentistas brasileiras, que pagam muito mal os operários e lhes impõem uma jornada de trabalho ilegalmente comprida e pouco salubre?
– a quem nos “ensina” que a vida “é assim mesmo”, que as desigualdades sociais e a opressão são problemas que nunca vão ser resolvidos?
– ao pastor que diz que, se o fiel não doar o dízimo, irá para o inferno?
– aos machistas que querem ditar como as mulheres devem viver e o que elas devem vestir?
– aos religiosos que querem impor aos LGBT uma orientação sexual que não é própria deles e os ameaçam de inferno só porque amam pessoas do mesmo sexo?
– aos Kadafis, Mubaraks, Sauds, Netanyahus e Partidos “Comunistas” Chineses da vida? (nos dos primeiros casos, o povo já gritou o NO! de César)?
– a quem nos diz que o capitalismo é eterno e tudo o que podemos fazer é nos conformarmos com toda a opressão que ele causa?
– a quem tenta nos empurrar goela adentro obras antidemocráticas como Belo Monte e o desmatamento do mangue de Suape?
entre tantos outros que tentam mandar na nossa vida nos impondo ideologias e praxes opressivas.

Além desse empolgante NO!, outras cenas dão aos defensores dos animais um gostinho, ainda que imaginário, de justiça em favor dos animais, quando César vence o cruel Dodge (o carcereiro dos primatas de San Bruno), quando a horda dos macacos libertos destrói as instalações da Gen-Sys (a empresa de biotecnologia que pesquisa o vírus 113 explorando primatas) e quando ela vence até mesmo a pesadamente armada polícia de San Francisco. Não apoio a violência nem recomendo que os abolicionistas comecem a fazer a mesma coisa, mas não posso negar que tais cenas deram aquele imaginário gostinho delicioso de justiça feita, um dos grandiosos motivos que fez O Planeta dos Macacos: A Origem ter se tornado o meu novo filme predileto.

Tantas maravilhas, muito pouco vistas nos filmes de hoje em dia, fazem desse um filme especial e imperdível, um ­must-see, uma obra paradidática que poderá ser útil às escolas num futuro próximo, dado todo o seu acervo de lições e convites à reflexão. Não digo como certo, mas é bem provável que, depois do fadeout do mapa da pandemia do 113, o espectador saia do cinema como uma pessoa renovada, que passará a pensar com mais carinho sobre o que se faz neste mundo real, em que é impossível os animais não humanos adquirirem inteligência humanoide e consciência de oprimidos, contra as vítimas da vivissecção, da pecuária e da indústria que testa in vivo.

Depois de assistirmos ao filme, a primeira coisa que nos virá à cabeça para fazer quando estivermos sob uma situação de opressão é fazer como o chimpanzé César: gritar NO! e unir os desfavorecidos em torno da causa da liberdade.

imagrs

5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Clara Santos Pombo

abril 6 2012 Responder

Realmente esse filme é ótimo!César é um macaco simplesmente inspirador!Lutou pelos seus direitos.
Eu só achei que ele ficou muito ruim,destruindo quase a cidade inteira!

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