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Por que não simpatizo com a existência de forças armadas #7desetembro

Postado originalmente em 10/09/2010. Repostado em virtude do Dia da Independência, dia de desfiles militares em todo o Brasil

Quando penso nos desfiles militares de 7 de setembro, não sinto nenhum orgulho. Pelo contrário, me lembro de como não simpatizo nem um pouco com a existência das forças armadas. Os fundamentos históricos e regimentais da existência de corpos militares são algo cuja extinção faria um bem inestimável à humanidade, que passaria a viver muitíssimo mais próxima da paz perpétua.

Não são poucos os aspectos elementares do militar que antipatizo convictamente. Aspectos como a obediência cega, a repressão da compaixão e o próprio ato de manusear instrumentos que causam morte, dor e sofrimento me fazem defender o fim de todos os exércitos do mundo – desconsiderando a possibilidade remota de invasão militar extraterrestre.

Em primeiro lugar, o mais pernicioso mandamento das forças armadas é aquele que me dá mais repulsa às mesmas: obedecer às ordens dos “superiores” sem nada questionar. Não simpatizo com a ideia de ser obrigado a acatá-las, por mais antiéticas e arbitrárias que sejam, e não poder sequer perguntar por que devem ser cumpridas – e correr o sério risco de ser preso ou sofrer outras sanções repressivas se eu ousar questionar ética ou politicamente o que me mandam fazer.

À obediência cega forçada do militar, estão ligadas algumas importantes aberrações éticas, como a guerra. É fato que, se eu for convocado para uma guerra, serei obrigado a torturar e matar, por ordem superior, homens que jamais tive nada contra, até por nunca tê-los conhecido nem interagido socialmente com eles. Serei forçado a assassiná-los pelo único fato de que eles nasceram em outro país e foram obrigados, assim como eu, a obedecer seus “superiores”.

Me aterroriza a ideia de que, se eu me recusar a matar tais pessoas, serei executado como “traidor da pátria” (para quem não sabe, pena de morte no Brasil é legalizada para os militares em tempos de guerra, e recusar-se a matar soldados “inimigos” no campo de batalha seria uma insubordinação punida com a morte ou uma longa detenção).

Outra questão ética é que, se eu fosse soldado e houvesse um golpe militar que derrubasse o/a presidente, eu seria automaticamente obrigado a agredir ou mesmo matar quem estivesse protestando contra a nova ditadura. Mesmo se quem estivesse ali lutando pacificamente pela liberdade e pela democracia fosse meu pai, minha mãe, meu irmão, uma filha ou filho meu, ou meu melhor amigo desde a infância, seria forçado pelas ordens superiores a agredi-los, ou talvez a atirar neles.

Também penso que um soldado, para se tornar uma “unidade” repressora a serviço do Estado de Polícia ou um matador de soldados “inimigos”, é obrigado a reprimir seus bons sentimentos – a compaixão, o amor à vida própria e alheia, a piedade e o senso de misericórdia – e dar lugar a instintos brutos que o tornam submisso e violento.

Isso, além do medo de punições, explica o soldado estar pronto para obedecer instintivamente à primeira ordem de atirar para matar, e também o fato de muitas “unidades” serem muito suscetíveis a ceder a comportamentos tipicamente criminosos, como torturar prisioneiros por uma causa “maior” e estuprar mulheres desamparadas no campo de batalha.

Saindo do ato de “obedecer sem questionar”, parto para um detalhe que atenta contra a dignidade humana.  É o fundamento militar de “servir à pátria” na base da violência, a qual é o fundamento magno da existência de forças armadas. O militar é persuadido em seu serviço de que fazer o melhor por seu país é pegar em armas, instrumentos cujas funções principais são oprimir e assassinar, e obedecer ordens como se fosse uma máquina sob controle, atirando para matar quando o “superior” mandar.

Embora em tempos de paz haja atividades humanitárias por parte do Exército Brasileiro em comunidades de necessitados – pelo menos é isso que é mostrado nas propagandas da TV –, isso qualquer ONG e qualquer civil livre de compromissos militares pode fazer, e com muito mais altruísmo do que qualquer soldado agindo sob ordem. E também não foi para fazer filantropia que o regimento militar foi criado.

Outro ponto antipático do corpo militar é a anulação da individualidade. Um homem de baixa hierarquia é apenas uma unidade, um nome, perante o Exército. Sua personalidade e características individuais não são nada para as forças armadas. Os “superiores” não querem saber se você é extrovertido, simpático, tímido ou mulherengo, se você escreve livros, se é um ídolo do futebol, se é um professor de crianças, se tem amigos do peito em outros estados e países, se ama sua família. O que desejam é apenas que você seja “mais um”. Mais um autômato disposto a morrer pelo Estado, “pela pátria”.

Me lembro do documentário intitulado “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, que mostra entre os instantes 10:20 e 10:35 uma declaração de Cristian Boltanski sobre mortes na guerra: “Em uma guerra não se matam milhares de pessoas. Mata-se alguém que adora espaguete, outro que é gay, outro que tem uma namorada.  Uma acumulação de pequenas memórias…”

Personalidades únicas e insubstituíveis, no quartel, viram meros substantivos, análogos a números. Se eu fosse um soldado, não seria Robson Fernando, ateu, vegano, amante da natureza, carente de boates flashbacks, aspirante a formador de opinião, fã de professores do passado. Mas apenas um corpo obediente e uniformizado de nome “SD Souza”.

Na guerra todos se tornam autômatos, peças substituíveis. Para a força armada, não importa nem um pouco se um filósofo renomado, um épico ídolo do futebol, um professor adorado por seus mais de 300 alunos ou simplesmente um jovem anônimo apaixonado pela vida, por sua namorada e por sua família morreram. São baixas, nada mais que unidades perdidas, que podem ser substituídas por outras “novas” (as tropas que ainda não desembarcaram ou os reservistas).

Aliás, há um espaço para a individualidade quando o indivíduo se torna um “herói” por matar mais pessoas ou por ser um senhor de guerra fiel aos interesses de seu Estado. Heroísmo esse profundamente questionável, um duplipensar que trata assassinos de circunstâncias diferentes com dois pesos e duas medidas.

Se um homem mata centenas de pessoas na sociedade, é um criminoso hediondo, um serial killer que, segundo a sociedade, deveria ser condenado à morte o quanto antes. Mas se assassina centenas de homens de outro país (ou do próprio país, desde que sejam considerados “rebeldes”) numa guerra, indivíduos cujo único “crime” é obedecer, sem o mínimo poder de questionar, às ordens superiores de seus oficiais, é considerado um herói e passa a ser venerado por gerações.

O último motivo aqui expresso que me dá antipatia pelo militar é o fato de que só existem forças armadas porque existem forças armadas. Se não existissem neste mundo corpos militares dispostos a invadir e agredir outros países, com toda certeza não haveria qualquer necessidade de se criar exércitos de defesa, não existiriam ameaças às soberanias nacionais.

Se não existissem forças armadas, nenhum monarca ou presidente poderia de forma alguma ser um ordenador de guerras, exercer um comportamento de líder opressor e tirano. Não haveria ninguém de arma em punho pronto para acatar à ordem do estadista de matar um opositor ou dissidente, reprimir com violência extrema um protesto pró-liberdade ou invadir um outro país.

Há vários outros motivos que fundamentam meu antimilitarismo, mas as causas acima já explicam muito, o bastante para tornar este artigo ao mesmo tempo compacto e abrangente. A internet brasileira ainda é muito pobre em conteúdo antimilitarista, e espero que meu texto opinativo dê alguma luz ao assunto e quebre o silêncio que hoje existe. Termino-o dizendo que, se estivéssemos sendo governados por militares, este texto provocaria certamente minha morte por subversão, não sem uma sessão prolongada de torturas.

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17 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Marcos Ferreira

agosto 20 2012 Responder

Sou pedagogo, respeito sua opinião mas não concordo. Acho que você deveria estudar mais um pouquinho sobre essa questão pois vejo que sua opinião é utópica e totalmente fora da realidade. Não vivemos num mundinho cor de rosa como o de Alice no País das Maravilhas. Só uma pessoa muito ingênua para achar que um país, com a importância estratégica, econômica e política como o Brasil, não precisaria de Forças Armadas. Soberania não se garante só com boas intenções, palavras bonitas e discussões acadêmicas. Em situações extremas, da qual ninguém está livre, ela é garantida pela força, quer você goste ou não. Veja o exemplo do Kwait em 1991 que foi invadido pelo Iraque, simplesmente por que não tinha Forças Armadas para fazer valer sua soberania. Por que você acha que o Irã não invade Israel? Por que a Coréia do Norte não invade a Coréia do Sul? O americano invadiu o Iraque que em 2001 que estava com um exército sucateado; mas por que ele não invade o Irã? Quem vc acha que garante, quando solicitado, a segurança pública, em qualquer Estado de nossa Federação, quando as Polícias fazem greve e a população fica à mercê dos bandidos? Por que vc acha que os traficantes nos morros carioca não querem confronto com as Forças Armadas? Você sabia que na ECO 92 no Rio de Janeiro, nas áreas em que as Forças Armadas atuou, a violência caiu quase 90%? Quem você acha que é acionado em caso de calamidade pública, quando o Estado se declara incompetente para resolver? Isso são pequenos exemplos para não ter que me estender muito. Portanto meu amigo, lamento por sua decepção em saber que os rústicos homens da profissão das armas não tem sua extrema sensibilidade. Acho que as pessoas deveriam estudar mais e se informar sobre o assunto ao invés de ficar falando abobrinhas. AHH!!! antes que eu esqueça, não sei se você sabe, mas existe uma coisa chamada Constituição Federal/88. Vá lá e lêia o artigo 142.

    Robson Fernando de Souza

    agosto 20 2012 Responder

    Sim, é uma utopia e eu sei que hoje a humanidade ainda é imatura e bruta demais pra abolir suas forças armadas. Repare que o texto se refere às forças armadas de todo o mundo, não à eventual desmilitarização do Brasil.

André

março 2 2012 Responder

Concordo plenamente com tudo o que foi escrito, aliás, belas palavras, fico feliz em saber que ainda há gente com opnião própria, que não aceita tudo que é imposto pela sociedade, seja em termos políticos ou religiosos.
No Brasil a hipocrisia toma conta. Onde que mata não rece punição, mas quem se recusa a matar recebe pena de morte.
Eu nunca iria por em jogo a minhavida por um país como esse, mas iria, sem me arrepender, a sacrifica-la por minha família, por um amigo ou pela minha opnião. Por que se for pra lutar e morrer, que seja por algo que eu acredito.

    Robson Fernando de Souza

    março 2 2012 Responder

    Valeu, André =) Muito bom saber que vc também concorda com minhas críticas à existência de corpos militares.

    Abs

PLANETA AZUL associação ecológica alternativa

fevereiro 8 2012 Responder

Identificamo-nos totalmente com o conteúdo deste blogue e posições do seu autor.
Convidamos a ver participar e divulgar:
http://www.antimilitarismonobrasil.blogspot.com

Kreator

setembro 15 2011 Responder

É tudo uma questão de pontos de vista, em uma guerra, ninguém usaria o argumento de “matar o irmão”, “matar uma pessoa” ou algo assim, seria apenas “defender o seu povo, sua família, sua terra” e o herói neste caso, seria quem se destacasse como “melhor defensor”.

É bonito falar isto em tempos de paz, mas como te sentirias tendo tua cidade, teu país, tua família sendo mortos por outro povo invasor? certamente lutarias para defender eles, não aceitarias passivamente, mesmo um pacifista pegaria em armas quando sua vida ou das pessoas que ele ama estão em perigo.

O “seguir sem questionar” é apenas por questão de organização, se cada um fizesse o que quisesse numa batalha, ou não soubesse a quem obedecer, não haveria como manter um grupo unido e concentrado em um objetivo único.

A Guerra Fria provou que seres humanos tem mais chances de paz quando armados até os dentes, ou quando sabem que seu inimigo é tão ou mais forte quanto ele.

Somos animais territorialistas, apenas duas coias são mais fortes do que isto, interesses comerciais e dinheiro.

O capitalismo, democracia e militarismo, é triste isto, mas ao meu ver, são as melhores saídas para a paz.

    Robson Fernando de Souza

    setembro 15 2011 Responder

    Kreator, a crítica à existência de forças armadas se dirige a todos os países. Conviria se todos os países abolissem suas forças armadas ao mesmo tempo, mas sei que isso é quase impossível numa realidade como a de hoje.

    Quanto ao último parágrafo de seu coment, a democracia é ok, mas o capitalismo e o militarismo foram/são justamente razões pra várias guerras de agressão.

      Kreator

      setembro 15 2011 Responder

      Quando me refiro ao capitalismo como solução de paz, me refiro à “Teoria Dell de Prevenção de Conflitos” uma evolução de certa forma, a antiga “Teoria dos Arcos Dourados”.

      Quando dois países atingem determinados índices de desenvolvimento econômico ao ponto de possuir uma Classe Média dominante e as trocas de produtos e serviços tiverem valor significativo, não haverá interesse em conflitos armados, os prejuízos, mesmo para o vencedor, seriam absurdamente superiores aos ganhos com a batalha.

      Isto é o extremo do capitalismo, lembre-se que duas nações democráticas e capitalistas até hoje nunca entraram em guerra.

      http://en.wikipedia.org/wiki/Dell_Theory_of_Conflict_Prevention

        Robson Fernando de Souza

        setembro 15 2011 Responder

        Ah blza, entendi agora.

Ivo

setembro 7 2011 Responder

Concordo em número, gênero e grau contigo Robson, a propósito conhece as “Testemunhas de Jeová”? Pergunto isso pois esta organização religiosa tem este conceito em relação ao militarismo desde o século XIX. Assim como você sou hoje ateu, vegano e amante da natureza mas cresci dentro desta seita. Parabéns pela visão, clarividência, e disposição de expor isso de forma tão clara e concisa…

    Robson Fernando de Souza

    setembro 7 2011 Responder

    Valeu, Ivo =)

    @s TJ eu conheço sim – aliás, quem não os conhece, visto que têm características marcantes como recusar transfusão de sangue mesmo que isso lhes custe a vida e pregar nas portas das casas pela manhã em muitas cidades? Pelo menos a questão antimilitarista dos TJ é algo de se admirar.

    Abs

Henrique Donatto

setembro 25 2010 Responder

O título do texto deveria ser “Em busca da sociedade perfeita”. Outro fato é que você está negligenciando toda a história da humanidade. Fazer o que, cada um com a sua opinião.

    Robson Fernando

    setembro 25 2010 Responder

    Realmente falar mal de militares é criticar a história da humanidade como um todo, já que uma enorme parte dela foi construída com violência, sangue, mortes humanas em massa.

    Com o artigo, vislumbro não uma realidade próxima, mas uma utopia mesmo. Muito embora algo ser utopia não seja equivalente a esse algo ser impossível de acontecer um dia.

    Vale a pena pelo menos investir-se em vanguarda. No futuro uma humanidade sem militares vai se lembrar de nós como os precursores da paz amilitar.

    Abs

Mariano David Soares

setembro 15 2010 Responder

Um verso de uma das canções do Pe. Zezinho: …Feliz é quem morre e não admite matar, mas, mais forte é a semente que morre, mas morre, pra recomessar…

Daniel Sagebin

setembro 14 2010 Responder

Perfeito!
Compartilho de cada idéia expressa nesse texto.

Carol J.

setembro 10 2010 Responder

Esse assunto sobre militarismo e forças armadas ficou revirando na minha cabeça desde as últimas notícias que li sobre fotos mostrando estupros e torturas por soldados americanos no Iraque (se não me engano), e que Obama não quer que as fotos venham ao público, pois isso provocaria reações anti-americanas e colocaria os “nossos jovens soldados, nossa única defesa” em perigo.

Não tem nada que me provoque mais repulsa do que estupro e violência contra seres indefesos, mas em especial, estupro. O nojo e ódio que sinto são indizíveis. E penso o quanto disso não acontece em situações de guerra. Estupro e tortura. Porque até parece que os soldados da “nação heróica” em questão vão lá para ter apenas atitudes nobres, lutar pelo país… me parece que todos estão sujeitos a virar monstros grotescos, e seu marido, filho, irmão, pai, que foram lá “lutar pela pátria” estão torturando prisioneiros e estuprando mulheres e crianças (e outros homens tbm), e tirando fotos enquanto fazem isso.

O militarismo e seus motivos de existir desperta o que há de pior no ser humano.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo