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out11

Frigoríficos: a miséria animal não humana casada com o sofrimento humano (Parte 2)

O Vista-se divulgou mais duas reportagens (essa e essa) que confirmam o pensamento abolicionista holístico: exploração animal e exploração humana são casadas, e libertação animal também é libertação humana. Semana passada eu trouxe o link para a entrevista dada pelo Instituto Humanitas Unisinos ao sindicalista Siderlei de Oliveira sobre a exploração trabalhista empreendida pela Marfrig. E hoje é a vez da JBS-Friboi e dos frigoríficos avícolas do Rio Grande do Sul terem seu caráter explorador escancarado à sociedade.

Esses trechos chamam muito a atenção. O primeiro abaixo foi extraído da entrevista do Instituto Humanitas Unisinos ao psicólogo social Leandro Inácio Walter, que estudou as linhas de produção dos frigorífios avícolas gaúchos:

IHU On-Line – O que caracteriza o trabalho em um frigorífico avícola? Como se dá a organização do trabalho nesse ambiente? O que os trabalhadores revelam sobre as condições de trabalho e como o processo produtivo prejudica a saúde deles?

Leandro Inácio Walter – Apesar da diversidade de setores, as atividades são repetitivas. A organização do trabalho geralmente ocorre em linhas de montagem, em linhas de produção, especialmente nas nórias, onde os frangos são pendurados e o ritmo de trabalho é imposto aos funcionários. As máquinas trabalham e o trabalhador tem que acompanhar o ritmo imposto pela empresa.

Os trabalhadores contavam que, quando não era possível dar conta do ritmo de trabalho em função do cansaço, acumulavam trabalho no final da linha de montagem, onde havia um trabalhador mais ágil, que conseguia ter um desempenho superior. No entanto, esse sujeito que trabalhava na ponta era o que tinha maior possibilidade de se lesionar em função de extrapolar os limites físicos.

Para realizar um trabalho repetitivo, a pessoa não pode pensar em outras coisas porque, se ela se distrair, pode ocasionar alguma falha no processo produtivo. Através da psicodinâmica do trabalho, tentamos entender como ocorre a mobilização da subjetividade em diferentes contextos de trabalho. No caso dos frigoríficos, essa questão repercute de uma forma bastante interessante, porque os trabalhadores acabam usando estratégias de defesa como a racionalização expressa em pensamentos: “Essa situação vai passar”; “Deus está vendo o que estou fazendo aqui”; “Somente hoje vou fazer isso”.

Quando as metas de trabalho não eram atingidas, uma sirene era acionada, avisando que tinha algo errado. Nesses casos, muitos trabalhadores chegavam a ter reações de pânico, de intensa ansiedade e ficavam agitados só de ouvir qualquer barulho que se assemelhasse a uma sirene, mesmo fora do ambiente de trabalho. Qualquer barulho semelhante trazia essa lembrança do horror das situações que eram vivenciadas no local.

Ao cobrar metas, as chefias tratam os funcionários de maneira ofensiva para instaurar o medo no ambiente de trabalho. Eles, por sua vez, muitas vezes não conseguem atender às suas necessidades básicas como ir ao banheiro, tomar água, ir ao atendimento médico da empresa. O medo tem um papel muito forte para manter os trabalhadores na produção.

O trecho abaixo vem do site do jornal Brasil de Fato, sobre os abusos da JBS-Friboi:

Sérgio Alfonso era “serra fita” – como são chamados os funcionários que seguram a serra elétrica para dividir o boi ao meio – numa das unidades da JBS Friboi na cidade.
“O acidente aconteceu na véspera do meu aniversário, no dia 25 de julho de 2005. Quando coloquei a serra na carcaça do boi, a carretilha que fecha as pernas do animal escapou do dente da nória (a correia que transporta o gado pendurado), a fita de aço que garante o corte segurou no osso. Como os dentes da nória estavam gastos, toda aquela carne desengatou e me deu um tirambaço. Foi aí que perdi o movimento de três dedos”.
A tragédia estava anunciada havia tempos. Os operários da seção, assim como Sérgio, já haviam alertado para o desgaste dos equipamentos e a urgência da manutenção. Acontecida a desgraça, recebeu os quinze dias da empresa pelo acidente de trabalho e “tchau e gracias”, nenhuma ajuda nas mais de cem sessões de fisioterapia, o que o obrigou a entrar na Justiça para garantir seus direitos.
Conforme alegou a JBS, a culpa era única e exclusivamente sua: “cortaram meu salário e até o sacolão de alimentos. Um ano e meio aguardando sem que a empresa ajudasse em nada”. Como a firma economiza com o trabalhador, mas não com bons advogados, recebeu uma indenização de apenas R$ 26 mil pela incapacitação permanente. Atualmente recebe R$ 460,00 da Previdência como auxílio-doença, cerca de metade do valor do salário de um serrafita com a sua experiência, que começava às 5h30 e não tinha hora para acabar. Como acontece ainda hoje.

Isso nos leva à conclusão de que a produção (e consumo, por tabela) de carne não contribui para a violação “apenas” dos Direitos Animais, mas também dos Direitos Humanos.

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