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Guest Post: Black masks and gasoline

O texto abaixo foi escrito e enviado por Gabi Bask. Não concordo integralmente com o conteúdo do texto (embora ele não necessariamente fuja à opinião editorial do blog), mas ele traz uma reflexão importante sobre a despolitização da juventude deste começo de década e de seus ídolos.

 

Black Masks and Gasoline
por Gabi Bask

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)
Ó príncipes, meus irmãos.
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”
(“Poema em Linha Reta” – Fernando Pessoa/Álvaro de Campos – 1930)

Antes de qualquer coisa, devo dizer que tenho medo, muito medo, da minha geração, e, principalmente, da geração nascida nos anos 2000. Na verdade, o medo não é dessas gerações; o medo é de estar vivendo num mundo dominado por elas.

Tive o privilégio (?) de crescer participando de algumas culturas diferentes entre si em vários aspectos: língua, dogmas, “modernidade”, segurança, programação… entretanto, pelo menos até o começo dos anos 2000, a marginalização de coisas ainda era tímida.

Cresci assistindo o Pica-Pau e jogando Tomb Raider; matei a balas milhares de animais e pessoas e nunca alimentei idéias de genocídio reais baseada no que fazia virtualmente. Pelo contrário, nutri uma curiosidade enorme em civilizações antigas, suas sabedorias e seus erros, e seu legado. Nunca me inspirei na malícia do Pica-Pau para agir com desconhecidos, ou mesmo quando a situação era propícia. Os jogadores de futebol dos anos 90 e começo dos 2000 eram excêntricos, violentos, bêbados, engraçados. Amaral é conhecido até hoje por sua figura caricata, Vampeta idem, Felipão é um exemplo até hoje de treinador de caráter e nunca teve nenhuma frescura; pelo contrário, mandava descer a porrada, incitava o ódio com palavrões para causar estímulo e não trabalhava com gente que ele não gostava, pelos seus motivos. Os ídolos dos anos 90 tinham personalidade e defendiam algo.

Ainda lembram o que fazia sucesso, na música, nos anos 90? Legião Urbana, brilhantemente liderada por Renato Russo, bissexual, genial, fumante e crítico. Ele assina algumas das composições mais fortes, sensatas e reacionárias do Brasil. Os Mamonas Assassinas, com suas letras debochadas, preconceituosas e divertidíssimas, assim como todo o grupo. Raul Seixas, mesmo anos após sua morte, ainda influenciava a geração dos anos 90. Chico Buarque lembrava a todos do talento e inteligência que tinha, entre outros artistas. Todos eles defendiam algo, e clamavam por reação, por consciência, por inteligência. E principalmente, por personalidade.

Lembram dos filmes dos anos 90 também? Passei a infância assistindo O Rei Leão em looping infinito. Filme da Disney! Trilha sonora (genial) de um cantor gay. Infestado de maus exemplos. Vamos repassar alguns?- O filme trata abertamente de assassinato. E o pior, entre irmãos.

– Mostra o exílio do protagonista, que crê ter culpa na morte do pai, e foge. Tenta esquecer dos fantasmas. Hakuna Matata.
– Trata de conflitos familiares pesadíssimos, violência, culpa, fuga da realidade, vingança, ameaças, traição e honra.Tudo isso num filme infantil, inspirado em Hamlet, de Shakespeare.

Foi talvez o filme infantil mais icônico de uma geração de todos os tempos. Sabem o estrago causado por tudo que citei acima? Fazer todas as pessoas que empreenderam a infância assistindo que eu já conheci, sem exceção, chorarem como os bebês que eram quando assistiram pela primeira vez.

Mas chega de texto introdutório; minha intenção foi tentar causar uma inevitável comparação. Para facilitar as coisas, também citarei alguns exemplos da nova juventude: no cinema, temos filmes infantis acéfalos revirados pela Interpol, Gestapo e KGB, e só liberados após uma extensa análise sobre efeitos no desenvolvimento infantil feita por especialistas renomados desconhecidos empenhados em eugenizar o mundo em 50 anos e contando. Estão certos no que fazem; não podemos expor esse tipo de conteúdo REAL a crianças que viverão nesse mundo o resto de suas vidas, é mais sábio e fácil simplesmente fingir que não existe. Como uma vacina, que funciona a longo prazo, e visa exterminar um mal através da ignorância e falta de resposta. Lamentação é o caminho.

Na música, entramos recentemente na moda “colorida”, explorada à exaustão pela pobre imprensa e criticada até dizer chega, principalmente por Vloggers que fazem um nome por repetir bordões e dizer o óbvio, mesmo que não faça realmente sentido ou que as críticas possam ser facilmente rebatidas e a discussão perdida.

Acho que todos têm o direito de ouvir o que quiserem, de idolatrar o que quiserem. Mas o que me faz arrancar cabelos é o fato de que, entre as diversas opções de novas bandas nacionais e internacionais, quase nenhuma prega qualquer coisa. É só música, visual, divulgação… ser bonito é mais importante que ter qualidade, e a grande maioria nem é verdadeiramente “bonita”, por assim dizer. Chegamos ao extremo de ligar a TV num domingo a tarde e assistirmos duas horas de entrevista com o sósia brasileiro do Justin Bieber! Algo está errado nisso.

A atual bola da vez no quesito endemonização é o cigarro. Todo mundo, mesmo que cresça dentro de uma caverna sem TV, sabe que cigarros fazem mal. É um fato. E se por um milagre um ser humano funcional não saiba disso ainda, 2 dias em qualquer lugar minimamente civilizado o trará este conhecimento. Entretanto, o governo, órgãos de saúde, ONGs “ocupadíssimas” e pessoas influenciáveis fazem da repetição dos malefícios do cigarro seu objetivo de vida, o que não traz nenhum resultado além de estressar o fumante, pressioná-lo e aumentar ainda mais as razões que podem tê-lo levado a fumar em primeiro lugar. O aumento de impostos extremamente abusivo aplicado nos cigarros é uma clara mensagem de desaprovação à opção que cidadãos, com SEU dinheiro, fazem. E que estragará os SEUS pulmões, por SUA escolha. Liberdade no país funciona como a definição de “estado laico” (e suas escolas públicas que exigem oração cristã antes do ínicio das aulas).

Atualmente, o fumante é praticamente um criminoso. É taxado de burro e marginal. E o fumante também deve ter em mente que a simples visão de um cigarro já deve ser o bastante para causar uma enfisema. Encoste um nos lábios, e morrerá de câncer em 10 anos. Acenda, e a contagem regressiva do câncer e morte lenta começa num ritmo que daria inveja aos jogos temporizados do extinto “Topa Tudo por Dinheiro”, com Silvio Santos (outro mau-exemplo na televisão que já foi devidamente abatido). O fumante atualmente é um ser de pouca inteligência, mau-caráter e criminoso, e deveria saber que anda com uma bomba relógio invisível sobre sua testa que vai detonar a qualquer momento, causando dor, morte e sofrimento a eles e familiares. Aí então, os não-fumantes esverdeados, de boa-índole e politicamente ativos poderão lamentar dolorosamente, dizendo “eu avisei…”.

Apesar disso, o álcool, este sim, barato e vendido para qualquer um facilmente, consumido sem olhares de reprovação ou pragas, mas com gostosas risadas de “cidadãos do bem”. Uma cervejinha não faz mal a ninguém, um whiskynho depois do trabalho, um adolescente de 14 anos saindo com os amigos pra virar duas garrafas de vodka barata… tudo isso é natural, parte da vida e da sociedade. Meu filho pode chegar bêbado em casa, mas que não ouse chegar “fedendoa cigarro. Tudo bem que nas classes baixas da sociedade, principalmente a nossa, o álcool destrua famílias, cause crimes imperdoáveis, dor, morte e sofrimento ao consumidor e aos familiares. Não devemos nada a eles, compraram com o próprio dinheiro e estão estragando o próprio fígado, o que pode até ser engraçado; quem nunca ouviu de fulano que seu fígado era ‘total flex’?

Recentemente, zapeando pelos canais, fui parar no saudoso Cartoon Network. Deus abençoe o programa (que me fugiu o nome) que passa aleatoriamente Billy e Mandy, Coragem e vários outros desenhos bons. Espere que o horário passe, e seja inundado por programas infantis politicamente corretos, com famílias modernas e felizes, pais exemplares e filhos e mascotes divertidos. A vida é mesmo bela.
Meu namorado tem um priminho de 8 anos que fala como uma criança de 4. Achava que ele era retardado, até conhecer numa festa de aniversário seus colegas de classe. O que todos assistem? Discovery Kids e lançamentos Disney. Nem mesmo o lamentável “Novo Pica Pau”, que é o mínimo sacana possível, escuta as pessoas antes de criticá-las e só é maldoso quando necessário.

Lembram do Seu Madruga? Vagabundo, fumante, bêbado e devedor. E maior sucesso do programa de Chespirito. A razão óbvia do sucesso desse estereótipo? Nas sociedades, principalmente nas de terceiro mundo, não existe consumidor que sirva de espelho para a perfeição vendida. É a vida contemporânea influenciada pela revolução do “católico não-praticante”. Somos paradoxais naturalmente, e esconder instintos em prol da causa engomadinha e exemplar da perfeição oferecida pelos últimos séculos é danoso. Citando o genial Fábio Escorpião, afirmo que a sociedade acena com Barbies e Kens, Kakás e Sandys, e suas respectivas vidas intrínsecas e desperdiçadas. Seus pensamentos limitados, suas pequenas idéias de transgressão, seus bons-exemplos e suas vidinhas “bem vividas”. Gente que não bebe, não fuma e não joga, que nunca viu drogas nem conheceu quem tivesse tido contato com elas. Gente que não chama preto de preto, gordo de gordo, japonês de japonês, censura quem o faz e nem sequer sabe a razão. Gente que enche suas redes sociais de fotos de Che Guevara, Clarice Lispector, Karl Marx e Raul Seixas sem nunca ter sabido o que eles defenderam, e que não também não sabe quem foi Aleister Crowley, Proudhon, George Orwell, ou Mikhail Bakunin. Gente que grita “VIVA A SOCIEDADE ALTERNATIVA” e acorda cedo todos os dias para estudar seus livros de direito. Suas pseudo-liberalidades sexuais e morais. Suas noitadas sem bom senso. Suas roupas da moda, sua falta de questionamento, sua falta de liberdade e falta do desejo de ser livre.

Essa é a atual geração crescendo e estes serão os ídolos da nova e das próximas gerações. E todas essas pessoas não tem nada a dizer ou a ensinar.

Pediria licença para voltar à minha solidão por opção, mas as opções são curtas. Os filmes bons’ são mostras de nomes e efeitos especiais, os livros dão extensa lição de moral e divagam sobre o que Esopo originalmente disse em duas páginas, e os jogos… bem, americanizaram a Lara Croft, vejam só! E agora ela também não mata se não precisar, e quando mata, não há mais sangue.

Sim, também nutro o “sonho americano”. Mas o meu envolve máscaras negras e gasolina.

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