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Guest Post: Cozinhando com o coração

O artigo abaixo foi mandado pelo leitor Roberto Strabelli, mostra como é reconfortante se dedicar a uma culinária consciente, que não tem o peso do sofrimento e morte de seres sencientes.

 

Cozinhando com o coração
por Roberto Strabelli

Eu não sei cozinhar. Com preguiça e sem paciência, nunca aprendi. Mas eu sei fazer o básico pra não passar fome: arroz, feijão, uma salada simples, um picadinho de carn…. ops! Isso não dá mais pra fazer.

Tirando as carnes e derivados da lista de ingredientes, toda a filosofia de preparação dos alimentos muda, por isso nada pior que um vegano que não sabe cozinhar. Mas é desculpável no meu caso porque sou vegano faz pouco tempo e ainda tenho bastante pra aprender.

Mas pensando um pouco nisso, nessa posição privilegiada da carne na mesa da maioria das pessoas, é interessante notar que basicamente 90% dos pratos tradicionais e consagrados que são considerados uma unanimidade quanto ao bom sabor, ou seja, gostosos de verdade, são os pratos cujo principal ingrediente é a carne e seus derivados.

Parece que todos os outros ingredientes estão ali apenas para justificar a presença da carne e realçar o seu sabor. Com o agravante de que leite e ovos tem função estrutural em muitas receitas. Não é verdade?

Tenho um amigo que faz um ótimo estrogonofe de frango e pode ser considerado um cozinheiro ao menos mediano. Mas ele não tem ideia do que fazer de gostoso sem usar carne, leite e/ou ovos. É provável que boa parte dos cozinheiros profissionais também caiam nessa arapuca. Venhamos e convenhamos, com bacon até merda fica uma delícia e eu ainda viro mestre cuca!

Uma coisa em que todos concordamos é que carne realmente é algo saboroso. Pelo menos para nós que a provamos algum dia.

Eu adorava carne e fui um grande entusiasta do consumo de queijos. Também sempre ficava feliz em comer um simples ovo frito com arroz. Minha memória salivar ainda é fresca e com alguma saudade lembro do sabor de frango assado. Minha decisão de mudar de dieta foi de certa maneira dolorosa, mesmo não sendo a gula o meu pecado favorito.

Mas a questão é que, ao cozinhar, o fazemos sempre para alguém além de nós. Cozinhar somente para si pode ser tão chato e deprimente quanto almoçar sozinho. Cozinhamos para alimentar nossa família e as pessoas que amamos. Tentamos fazer com que o alimento, cheiroso e fumegante na travessa posta a mesa, não só cumpra seu papel de sustento para o corpo mas também transmita amor e carinho, demonstrando pelo prazer que proporciona o que sentimos pelos nossos familiares e entes queridos, alimentando também o espírito.

Mas como cozinhar algo bom de se comer sem usar carne? Pra onde vai a ideia do ingrediente central? Qual o segredo da boa comida vegana? Existe boa comida vegana?

No caso dos veganos, o simples fato de estar comendo algo que não precisou ser sacrificado já é um tempero especial. A comida livre de crueldade tem um gosto simples mas que pode saciar e satisfazer muito. Ao corpo e a mente.

A cozinha vegana é peculiar não pelos ingredientes mas pela diferença ético-filosófica. Enquanto comedores de carne acreditam que quase tudo é comestível e faz bem, veganos acreditam que tudo é comestível mas não todos, de forma que não devemos comer animais. Não devemos comer outros animais.

Eu tenho um sentimento confuso de tristeza e pena quando ouço ou leio muitos comedores de carne contando a velha piada da “a alface que você matou”. Eles tentam aliviar a barra de serem lembrados da verdade: que o animal que tombou pra virar aquele belo bife, sentiu muito medo e passou pelo terror da morte iminente no momento do abate, junto com a dor lancinante do golpe mortal, fatal ou não. Porque lembrar disso é uma coisa que balança as bases que sustentam o seu status quo pessoal, e é preciso minimizar os danos dessa lembrança inoportuna, de alguma forma rápida e que descontraia. Piadas sempre ajudam.

Como é possível alimentar o espírito, de modo saudável, usando o sacrifício de seres inocentes que viveram uma vida não natural, de privação e tortura, por fim sofrendo na carne viva toda a dor que lhe é própria sentir?

Eu sou um simples cara, tenho pouco estudo e meu conhecimento é curto. Eu quase nada sei, mas desconfio de muita coisa, como já disse uma vez Guimarães Rosa. Por desconfiar, refleti, e refletindo conclui que não concordaria mais.

Por isso convido você a pensar sobre isso:

Como espécie consciente e evoluída que somos, diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes aos outros animais, devemos comer carne?

Sabemos que os demais animais são sencientes, sentem alegria, tristeza, medo e dor. Por que tratá-los como produtos e simples comida? Enfim, por que tratá-los como coisas?

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