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Horário político de 27/10: PSC ataca novamente com homofobia travestida de “defesa da família”

O Partido Social Cristão, em seu programa partidário do último dia 27/10, voltou a atacar, com esperta sutileza, os homossexuais e as famílias desprovidas de casal heterossexual. Assim como algumas semanas atrás, manteve alguma implicitação em seu discurso homofóbico, de rejeição da capacidade dos homossexuais de formar família. Mas foi menos indireto do que antes, passando a apelar ainda mais para o discurso de “proteção” paranoica da família nuclear heterossexual da “ameaça” LGBT.

Vide o vídeo abaixo:

Quatro trechos do programa, cuja análise disponho abaixo e coloquei no vídeo acima, chamam muito a atenção. Além da homofobia implícita com fachada de “valorização da família”, o partido assume que ofende a laicidade brasileira, ao se dizer inspirado não em ideologias seculares, mas em princípios cristãos, e confessa quase abertamente que discrimina e segrega LGBTs – ao excluir a orientação sexual e a identidade de gênero de seus critérios de não discriminação/segregação/exclusão.

 

Trecho I: 1:15-1:46

Everaldo Pereira diz explicitamente que “a nossa sociedade existe graças à família nuclear: pai, mãe e filhos”, tentando assim colocar a família nuclear heterossexual em posição de superioridade e supremacia e negando o reconhecimento de outros tipos familiais mesmo não homossexuais. É um discurso que condiciona a integridade familiar e a coesão social à forma dita “superior” de família, a nuclear heterossexual, e exclui famílias estendidas, famílias nucleares homossexuais, famílias uniparentais, famílias de tios e sobrinhos, famílias de avó(s) e netos, famílias de irmãos órfãos crescidos, famílias com animais domésticos e, interpretavelmente, famílias com filhos adotivos.

Para o PSC, essas famílias, mesmo não tendo qualquer intenção de existir isoladamente, sem cooperação social mútua com as famílias nucleares heterossexuais, nem tampouco de extinguir este tipo de família, são incapazes de prover a base familial da sociedade. De educar as crianças. De lhes prover amor. E mesmo de sustentar e proporcionar o desenvolvimento de crianças adotadas que foram abandonadas por genitores heterossexuais desprovidos de amor materno/paterno.

Aí que percebemos que o papo de “defesa da família” é mais furado que peneira rasgada, porque apenas um tipo de família é apoiado pelo partido, e todos os inúmeros outros tipos familiais são excluídos e negados por ele.

Em seguida o programa afirma, sem mostrar qualquer evidência histórica e antropológica, que “toda história da civilização humana está sustentada na família nuclear: pai, mãe e seus filhos. Isto é científico (sic)!”, ignorando que no próprio Brasil houve, destacadamente entre a elite rural dos engenhos, a prevalência de famílias estendidas (avós, pais, filhos, netos, tios, primos, sobrinhos e cunhados no mesmo lar) na época colonial e imperial. Ignora também que ainda hoje há famílias estendidas habitando um mesmo lar, com um (bis)avô ou (bis)avó tendo o papel de patriarca/matriarca. Deixa de lado também inúmeras culturas do passado e do presente em que a organização familial nem de longe lembra o padrão nuclear monogâmico heterossexual.

E parte para o apelo paranoico à preocupação com a “preservação da espécie humana”, como se outros tipos de família ameçassem a existência e integridade da humanidade.

 

Trecho II: 5:34-5:56

Estrategicamente Vitor Nósseis diz que “a doutrina social cristã do PSC no Brasil (prega o verdadeiro cristianismo, que não segrega, não exclui nem discrimina nem sexo, nem religião, nem raça, nem cor, nem condição social política ou econômica”, excluindo espertamente a orientação sexual e a identidade de gênero, que eles discriminam explicitamente em outro trecho do programa, dentre essas características.

O indivíduo também fala, para desgosto de quem não acredita no Deus cristão, que o PSC “põe, depois de Deus, o ser humano em primeiro lugar”. O que é tanto uma afronta ao princípio da laicidade do Estado brasileiro quanto uma evidente mentira, uma vez que seres humanos homossexuais, bissexuais e com identidades de gênero diferentes do “padrão” são excluídos e marginalizados por esse partido.

 

Trecho III: 6:19-6:54

O programa erra feio ao atribuir o suposto estudo ao ultraconservador racista estadunidense George Gilder, que não é sociólogo, quando na verdade(?) ele teria sido feito pelo sociólogo Charles Winick, hoje supostamente professor emérito da City University of New York (embora nenhuma referência a ele exista no site da CUNY, mesmo ele sendo citado em alguns documentos acadêmicos pela internet). Porém esse estudo em sua íntegra ou mesmo resumo (abstract) não é encontrado em nenhum lugar da internet (Google, Google Acadêmico, site da City University of New York, sites de revistas científicas etc.) e suas referências estão restritas a sites e discursos cristãos e à página 23 do livro machista Straight talk to men, publicado em 2000 pelo fundamentalista cristão James Dobson.

Podemos reparar, mesmo nesse livro (do qual não encontrei qualquer cópia disponível para leitura na internet, apenas sites que o vendem), que não há qualquer referência à data ou à bibliografia dessa suposta pesquisa. E mesmo a página 23 do livro de Dobson se restringe a dizer que “mais de duas mil culturas que existiram na história mundial” foram pesquisadas, sem qualquer exatidão no número, nem referências às épocas em que essas culturas “unissexuais” teriam existido, nem qualquer exemplo dessas culturas, nem como surgiram, nem como e em que circunstâncias decaíram… nem nada sobre essas obscuras culturas em que não teria havido distinções socioculturais de gênero entre mulheres e homens.

E mesmo que essa pesquisa tenha existido, devemos perguntar: quais são as evidências, afinal de contas, de que o reconhecimento de famílias homossexuais, poligâmicas, não nucleares, parentais (com parentes exercendo o papel de responsáveis regentes) ou nucleares incompletas irá transformar as sociedades modernas em sociedades unissexuais, eliminando toda a distinção sociocultural entre mulheres e homens e ameaçando a reprodução de seres humanos?

Sem qualquer evidência científica fiável e tendo como base apenas discursos de cristãos machisto-homofóbicos militantes e uma pesquisa que se contraevidencia inexistente, isso acaba não passando de uma falácia de declive escorregadio e uma lenda pseudocientífica sem qualquer comprovação válida.

Em seguida, descaradamente afirma que, segundo a suposta pesquisa de Winick, “nenhuma sociedade é mais forte que os laços de suas famílias, e a fortaleza de suas famílias depende das relações heterossexuais”, tentando assim colocar a heterossexualidade como uma orientação sexual superior, a única que poderia sustentar a coesão de uma família.

 

Trecho IV: 8:50-9:49

1. “Nosso partido não é religião”. Porém mais adiante o mesmo Everaldo Pereira fala que ele segue princípios cristãos, não princípios ideológicos seculares (como os citados marxismo marxiano, o marxismo gramsciano e o liberalismo econômico clássico). Se a Rússia segue o marxismo de Marx (mentira hoje, que temos um capitalismo semiautoritário, e na época soviética, em que vigorava o leninismo e o stalinismo, não o marxismo de raiz marxiano), a Itália (mentira, vide Berlusconi) segue as ideias de Gramsci e os EUA seguem o liberalismo econômico (mentira, porque o governo estadunidense hoje é keynesiano e liberal-político), o Brasil sob um governo do PSC seguiria… os princípios cristãos. Ou seja, seria uma teocracia.

E novamente o partido apela para a falsa preocupação com a discriminação. E de novo exclui orientação sexual e identidade de gênero de seus parâmetros de “inclusão social”.

 

Fora das igrejas, o PSC não engana ninguém. Pelo contrário, atrai ainda mais a indignação, repulsa e oposição daqueles que são excluídos pelo projeto político (se é que isso pode ser considerado um projeto político) do partido.

@s LGBT e @s héteros solidári@s devem juntar forças para reafirmar que não queremos que continue a intromissão cristã na política brasileira. Que não queremos que a Bíblia continue sendo usada como ferramenta de exercício do poder político e, assim, exclua e reprima quem não é heterossexual e/ou não segue os papéis de gênero impostos pela sociedade patriarcal e heteronormativa.

O Brasil não precisa de partidos como o PSC. Também não precisa de parlamentares religiosos, que historicamente vêm sendo reconhecidos muito menos por bons feitos em educação, saúde, inclusão social, meio ambiente etc. do que por sua militância homofóbica e pseudo-pró-vida, por suas tantas agressões ao Estado Laico brasileiro e pelos escândalos de corrupção.

Torna-se um grito de guerra meu (e, espero, o de muitas outras pessoas) esse brado:
Ei! PSC! O Brasil não precisa de você!

imagrs

10 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Anna Carolline

dezembro 12 2013 Responder

Desde a primeira vez que assisti à propaganda do psc senti nojo, revolta. Acredito em Deus e em Jesus, mas essa propaganda só aumenta minha indignação, pois os que se dizem defensores do cristianismo são os primeiros a pecar. Até onde eu lembro, julgar também é pecado e o que é isso que eles fazem se não é julgar uma pessoa pela orientação sexual? Se as relações homossexuais são pecado ou não isso é problema somente de quem é, não cabe a ninguém o direito de julgar e muito menos de usar um Estado supostamente laico como forma de impor sua religião. Um partido como esse no poder seria impor o cristianismo e mesmo quem é cristão deve reconhecer que não adianta uma pessoa “viver sem pecar” por uma obrigação legal. Jesus pregou a tolerância, o amor sem limites, mas as pessoas continuam a distorcer as palavras Dele e isso mata minha esperança por uma humanidade melhor. Também a intolerância religiosa é ridícula, muitas pessoas religiosas vivem farsas e fazem o bem pensando na recompensa divina. Por outro lado, se um ateu ajuda alguém, ele não pratica uma boa ação pensando no retorno divino, a ajuda é sincera, por amor ao próximo e não por interesse como muitos que se julgam santos. Enquanto partidos e pessoas como essas se preocupam em “defender ” a família, os hospitais estão abandonados, pessoas morrem sem atendimento, outras tantas passam fome pelo mundo afora, as ruas estão cheias de pessoas invisíveis aos olhos da sociedade, morando em baixo de viadutos e por vezes perdidas nas drogas. Para esses alienados o meu recado é: se preocupem com o que realmente importa, se querem levar a mensagem de Deus, ajudem quem precisa, levem amor, pois creio que desse modo Ele se alegrará mais com nossos atos que com essas perseguições irracionais.

Isabelle

julho 23 2013 Responder

Olá, excelente post! É horrível que em nosso cogresso exista uma bancada religiosa que consegue barrar (até quando??) leis de direitos humanos FUNDAMENTAIS de pessoas LGBTs, como a proibição de discriminação no trabalho. Eu sou transgênero e quantas pessoas trans estão fora do mercado de trabalho e outras que morrem de medo de se assumirem por conta dessa irracional. cruel desumana discriminação? Eles dizem que não existe homofobia / transfobia no Brasil, uma mentira nojenta, pois sabemos que há os mais diversos crimes no Brasil, inclusive o de discriminação homofóbica / transfóbica. Dizem não ser preconceituosos mas barram leis que visam nos garantir direitos básicos numa clara contradição. Homofobia e transfobia são crimes e assim tem que ser tipificado por lei.

Karoline W.

novembro 3 2011 Responder

Sabe que quando assisti a propaganda do PSC pela primeira vez não me dei conta que eles estavam fazendo propaganda homofobica, mas depois de ler este texto e outros na web me dei conta disso e fiquei indignada.
Não gosto desde partido, não gosto desta história de religião e politica.

Thiago G. Viana (@Thiago_Fiago)

novembro 1 2011 Responder

Excelente post. Parabéns.

Escrevi a respeito dessa propaganda do PSC aqui: “O PSC e a perigosa utopia da defesa da “família, moral e bons costumes” (“http://comendoofrutoproibido.blogspot.com/2011/10/o-psc-e-perigosa-utopia-da-defesa-da.html)

Tomei liberdade de linkar o texto de vocês no meu.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 1 2011 Responder

    Valeu, Thiago =)

André O.

outubro 31 2011 Responder

Robson fernado,oque vc disse no final eu assino em baixo…
HOMOFOBIA NÃO TEM VEZ

Sérgio

outubro 31 2011 Responder

Comentários preconceituosos, mesmo sem agressividade, não são tolerados aqui. Por bom senso, não posso liberar comentários que digam, sem qualquer prova, que a família homossexual “vem acompanhada de doenças”.

Att,
RFS

Dom Rafael

outubro 29 2011 Responder

Comentário homofóbico e altamente agressivo apagado. Quem vem pra cá só pra ofender e destilar ódio não tem vez por aqui.

Sem mais,
RFS

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