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out11

[OFF] Desejar um carro é fato social nas cidades brasileiras

Vêm sendo cada vez mais frequentes as reclamações sobre a multiplicação dos carros nas cidades brasileiras e os consequentes engarrafamentos que se tornaram corriqueiros até em horas fora do pico. Fala-se muito que os brasileiros estão enchendo as ruas e avenidas de automóveis de forma insustentável e contribuindo para sua própria desgraça em termos de meio ambiente e qualidade de vida. Mas convenhamos que isso acontece, entre outros fatores, porque a falta de um transporte público decente está nos forçando a comprar mais e mais carros.

Querer um carro apesar de nossas vias estarem cada vez mais entupidas é um fato social, conforme apontaria Durkheim. Afinal, segundo ele, fato social é aquele fenômeno social que, sendo externo ao indivíduo, lhe exerce um poder coercitivo. Como exemplos de fatos sociais durkheimianos há o caso da religião em sociedades teocráticas, o uso obrigatório de roupas em qualquer sociedade moderna e a obrigatoriedade da matrícula de crianças e adolescentes em escolas.

Pois bem, o desejo, ou mesmo necessidade, do carro é praticamente isso: uma força social externa que vem exercendo uma coerção muito forte sobre quem, a médio ou longo prazo, terá condições de comprar um automóvel. Porque o transporte coletivo urbano das metrópoles brasileiras, sem grandes evoluções de qualidade, faz a vida do cidadão sem carro ser constantemente difícil, impontual e extremamente desconfortável.

Como recifense, tenho experiência para relatar: quem espera 15 minutos ou mais por um ônibus que, em certos horários, chega certamente lotado, tendo que, depois de pagar uma tarifa cada vez mais cara e insustentável, ficar dezenas de minutos em pé e espremido como se estivesse dentro da caçamba de um caminhão de carga, sabe muito bem do que estou falando. Essa situação piora ao quadrado em terminais de integração (como o SEI da região metropolitana do Recife), onde algumas linhas só chegam de uma em uma hora e sempre vêm abarrotadas da “carga” como somos tratados.

Isso se torna ainda mais angustiante quando observamos a deficiência da diversidade de modais em muitas cidades. Recife e região metropolitana mesmo têm um limitadíssimo serviço de metrô e trem, que usa o trajeto de antigas linhas ferroviárias e atendem menos de 10% da população da metrópole. Por aqui não se fala em expandir o metrô para outras localidades das cidades, exceto quando se promete criar um apendicezinho da linha do metrô de superfície para a polêmica Cidade da Copa.

O metrô por baixo da terra, então, é um tabu. Muitas vezes vem a desculpa de que Recife é uma cidade litorânea e seu subsolo não favoreceria linhas subterrâneas, mas a verdade é que uma engenharia competente dribla quase qualquer limitação geológica. Nova York se localiza muito perto do mar e tem um dos maiores sistemas de trem subterrâneo do mundo, deve-se relevar.

VLT, por sua vez, é algo marginalmente discutido: o único projeto desse modal elaborado para a região metropolitana daqui é a linha Cajueiro Seco-Cabo-Suape, que, assim como o metrô de superfície, ocupará uma moribunda linha ferroviária.

A qualidade e abrangência do nosso transporte coletivo nunca melhora significativamente. Ônibus novos, até com o adesivo “Ônibus Novo!”, só vêm mesmo para substituir os veículos velhos, ou no máximo para linhas recém-criadas. De qualquer maneira, continuamos pagando caro por um serviço desconfortável e insosso. Em última análise, nossa dignidade humana e nossos direitos de consumidor são agredidos, ao sermos tratados como carga e recebermos um serviço péssimo não como usuários de um sistema público, mas sim como clientes forçados de uma rede de empresas privadas que desconhecem licitações.

Alguns podem dizer que, para o atendimento de primeiras necessidades, conforto é algo um tanto supérfluo. Podem confundir conforto com luxo. Mas não é essa a conclusão a que se chega quando se anda de ônibus todos os dias. Quando se passa uma hora ou mais por dia espremido num veículo superlotado, tendo dificuldades até mesmo de andar em direção à porta de saída, derretendo com o calor de um sistema que anos atrás abandonou o ar-condicionado, correndo risco até de passar mal. Quando se desembolsa oito reais ou mais por dia para sofrer dentro de algo que mais parece um caminhão de carga viva. Aí um mínimo de conforto acaba se tornando uma demanda a ser defendida com a vida.

É para nos libertarmos desse pesadelo que é o transporte coletivo que somos vencidos pelo desejo de comprar um carro. Não simplesmente porque queremos luxo, mas porque precisamos, não aguentamos mais depender de um sistema que nos trata quase como os animais escravos da pecuária. O sentimento da necessidade de se livrar do ônibus demorado, caro e lotado acaba ultrapassando em força nossa preocupação com as mudanças climáticas, a poluição atmosférica, o gasto de recursos minerais em grande escala, o futuro colapso do sistema viário e todos os inconvenientes da dependência do carro.

Por isso é que Durkheim chamaria nosso desejo por carros de fato social. Porque nosso limite de resistir a essa coerção urbana atiçada pelo precário transporte público vem sendo testado todo dia. Querer um automóvel não é mais um mero sonho de consumo. Vem se tornando, ao invés, uma necessidade, uma meta para nossa alforria. É exterior a nós, e se exerce com uma forte coerção.

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