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nov11

Falácia de redução ao radical, ou Reductio ad Extremum

Introdução e definição

É frequente ver ideias filosóficas dotadas de coerência e senso ético e ações sustentáveis sob o ponto de vista científico sendo preteridas pela maioria das pessoas simplesmente porque elas acham tal ideia ou ação algo “radical”. Comete-se nisso uma falácia lógica que, apesar de ser usada tão corriqueiramente e há tanto tempo – pelo menos, presumo, desde a época do Iluminismo –, ainda não foi oficialmente incorporada aos catálogos de vícios a serem evitados em argumentações.

É o que eu chamo de falácia de redução ao radical ou redução ao extremismo ou Reductio ad Extremum. É semelhante à falácia do apelo ao ridículo, no que tange a desdenhar argumentos sem refutá-los racionalmente, e consiste na seguinte estrutura lógica:

X é radical.
Logo, X é necessariamente falso/errado/absurdo.

Que pode variar sob as formas de:

Eu considero X radical.
Logo, X deve ser falso/errado/absurdo.

X não é radical.
Logo, X está certo.

X é radical.
Y não é radical.
Logo, Y é superior a X.

Considere-se para esta falácia a seguinte definição de radical, conforme o Dicionário Aurélio:  “que não é moderado, que prega o radicalismo ou age com radicalismo, ou que revela radicalismo, inflexibilidade; radicalista”.

 

Nem tudo que é radical é absurdo

Embora a sociedade atual preze, em seu paradigma social, por ignorar e desdenhar ideias consideradas radicais, tendentes à inflexibilidade, nem tudo aquilo que tem aspectos de radicalismo é necessariamente absurdo. Aliás, várias ideias que essa mesma sociedade pensa, segue ou vive são de fato radicais e inflexíveis, e nem por isso são automaticamente consideradas absurdas, falsas e erradas. São os casos de:

a) Os Direitos Humanos: Poucas pessoas hoje em dia nas sociedades ocidentais cogitariam flexibilizar os Direitos Humanos para qualquer propósito. Para centenas de milhões de pessoas, é impensável abrir mão de direitos como os à vida e à liberdade, o de não sofrer tortura e o de não ser submetido à escravidão. Toda essa população não aceitaria desistir voluntariamente de quaisquer desses direitos, nem que fosse para garantir a segurança da coletividade. Assim sendo, pode-se considerar os Direitos Humanos algo defendido com radicalismo mesmo por aqueles que se dizem politicamente moderados.

b) A democracia: Nas sociedades regidas pela democracia liberal, é extremamente difícil um candidato majoritário que defenda a suspensão da democracia e do Estado de Direito e a implantação de um Estado policial autoritário ser eleito pela maioria dos cidadãos. Democracia, ainda que defendida sob formas diferentes a variar da representativa à propriamente direta, é algo que geralmente não se pensa em abrir mão, de se flexibilizar em nome de um suposto “bem maior”. Portanto, também podemos ver a defesa da democracia no senso comum como uma defesa radical e fechada a retrocessos.

c) Oposição à dominação estrangeira: Seja antimilitarista ou simpatizante da existência de forças armadas, quase ninguém aceitaria de bom grado ver seu país sendo militarmente invadido e subjugado por um país agressor. Mesmo nas democracias ocidentais, é bastante difundida a ideia de que uma hipotética dominação estrangeira traria opressão e supressão de direitos e deveria ser inegociavelmente combatida, mesmo que isso custasse a vida de militares e civis armados. E nem por isso tal pensamento é desdenhado por essas sociedades como radical, pelo contrário.

Há outras ideias radicais que também são dotadas de uma coerência perceptível à maioria das pessoas, mas por sua vez são desdenhadas por não dizerem respeito diretamente à vida delas. São correntes filosóficas baseadas na empatia sincera e praticamente incondicional, como o vegano-abolicionismo e a Ecologia Profunda. Neste artigo, porém, me restrinjo a falar da aplicação da Reductio ad Extremum à negação da lógica do veganismo e da salutaridade do vegetarianismo estrito.

 

Vegano-abolicionismo, vegetarianismo estrito e a redução ao radical

Deixa-se muito a entender, na argumentação de carnistas, que o veganismo e o abolicionismo animal são radicais e, por isso, não são dignos de aceitação. Fala-se bastante que “o ideal é o equilíbrio” e que tudo aquilo que esteja longe do centro deve ser evitado. Essa falácia de redução ao radical também é usada para rejeitar a sustentabilidade fisiológico-nutricional do vegetarianismo estrito.

Começo pelo caso da alimentação sem derivados animais. Entre leigos e nutricionistas carnistas (que não tiveram uma formação decente em Nutrição Vegetariana e Vegana), é dominante a ideia de que se deve evitar tanto o extremo de comer apenas carnes como o de não ingerir nada de origem animal. O motivo seria de que não fazem bem à saúde.

Porém o vegetarianismo estrito, conforme relatórios como o da American Dietetic Association e o elaborado em conjunto entre a ADA e a Dietitians of Canada e a página do Physicians Committee for Responsible Medicine, é saudável para todas as faixas etárias e tão possível quanto o próprio onivorismo nas sociedades modernas, mesmo negando incondicionalmente a ingestão de alimentos de origem animal.

Refutar a sua sustentabilidade fisiológica vai muito além de meramente preteri-lo por ser radical em comparação ao onivorismo ou julgá-lo “radical, logo errado” mediante evidências anedóticas desfavoráveis. Exige sim a superação metodológica das pesquisas favoráveis à alimentação sem animais e a exibição de provas científicas peer reviewed de que ela representaria intrinsecamente uma ameaça à saúde humana e, logo, não seria segura para algumas ou nenhuma faixa etária.

Em relação ao veganismo e ao abolicionismo animal, a redução ao radical consiste basicamente em negar a lógica de ambos, por terem algumas diferenças muito fortes em relação ao paradigma moral hoje dominante, baseado no antropocentrismo e na dicotomia “humanos X outros animais”, e por reivindicar inegociavelmente a abolição da exploração animal – em oposição ao moderado bem-estarismo, o qual aceita um meio termo entre a escravidão explicitamente cruel de animais e a libertação dos mesmos.

Curiosamente, o vegano-abolicionismo é preterido como radical mesmo tendo bases filosóficas muito semelhantes às utilizadas pelos abolicionistas humanos dos séculos 18, 19 e 20 e pelos defensores dos Direitos Humanos, havendo como grande diferença apenas o parâmetro majoritário de consideração moral – no caso dos Direitos Humanos, as diversas semelhanças entre todos os seres humanos e, no dos Direitos Animais, a senciência.

Portanto, é um contrassenso esnobar o abolicionismo animal e a práxis vegana como sendo radicalistas ao mesmo tempo em que se defende incondicionalmente que todos os seres humanos devam possuir os mesmos direitos fundamentais. Fica evidente o caráter seletivo da falácia de redução ao radical nesse sentido: para seus usuários, as radicalidades que os beneficiam diretamente podem e devem ser aceitas, mas aquelas que beneficiam profundamente não a eles próprios, mas sim a outros seres, não devem. Isso torna a estrutura lógica do Argumentum ad Extremum indefensável pelas vias da razão.

 

Considerações finais

Com este artigo, espero acrescentar ao conhecimento público mais uma falácia lógica, muito usada mais ainda não catalogada nos tratados de Lógica Argumentativa. Desmascarar esse vício argumentativo será muito útil para o fortalecimento da defesa de ideias que, mesmo não tendo apontadas em si falhas, incoerências e absurdos éticos, acabam esnobadas no senso comum por seu caráter radical, por sua proposta de afetar profundamente os valores da sociedade e fazê-la abandonar por completo formas socioculturalmente arraigadas de opressão.

Não nego aqui, porém, que há ideologias radicais, especialmente no campo político, que realmente possuem um caráter nocivo, no que tange a suprimir direitos, promover desigualdades, ameaçar a integridade física de pessoas inocentes e incitar a violência como práxis.

Mas elas devem ser desacreditadas na base da dialética, da exposição de suas falhas lógicas e factuais e disparates ético-morais. Preteri-las como “radicais, logo inválidas” não vai fazer frente à ameaça que representam ao bem comum, mas sim acabam reforçando em seus pensadores e seguidores crenças como “Este povo ainda é tolo demais para compreender os desígnios do nosso Deus” (no caso de religiosos fundamentalistas) ou “A sociedade ainda é alienada demais para entender que só haverá justiça social quando os ricos forem exterminados e for instaurado um governo de inspiração stalinista” (num caso hipotético de extrema-esquerda autoritária).

Em outras palavras, sejam autoritárias ou libertárias, opressoras ou antiopressoras, as ideologias e práticas dotadas de radicalidade devem ser julgadas com as faculdades da razão, não com a falácia de redução ao radical. Tratadas da forma devida, poderão ou ser denunciadas como abusivas e perigosas ou nos revelar a real necessidade de mudar muitos dos valores hoje tratados como normais.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Nelson Choueri Junior

outubro 6 2012 Responder

Parabéns pelo artigo: original, na denúncia de nossa pseudo “radicofobia”, claro e curtinho, como o são as boas ideias filosóficas.
Ofereço-lhe minha dissertação de mestrado em Filosofia em ética ambiental, na qual coloco em dúvida se o que somos de fato pode ser chamado de antropocêntricos.

at,

http://www.ifch.unicamp.br/profseva/nelson%20choueri%20jr.pdf

    Robson Fernando de Souza

    outubro 7 2012 Responder

    Obrigado, Nelson. Pretendo ler sua dissertação tão longo eu tenha tempo livre pra isso. Abs

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