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nov11

Lola: os argumentos circulares do racismo #ConsciênciaNegra

A princípio peço desculpas aos negros e negras por, mesmo hoje sendo o Dia da Consciência Negra, eu não ter trazido um post de minha autoria em homenagem a este dia. Eu venho me ocupando num livro que estou escrevendo, acelerando o ritmo depois de meses com a obra paralisada, e isso vem me tomando quase todas as horas do meu dia na frente do computador. Acabei tendo que pegar um texto de uma das minhas ídolas e irmãs de consciência, Lola Aronovich, para não deixar o dia de hoje passar em branco (neste contexto, este termo acaba sendo meio esdrúxulo).

O texto é antigo, de mais de dois anos atrás, mas mantém uma atualidade formidável. Daí eu trago-o aqui na íntegra (excepcionalmente, uma vez que atualmente eu venho divulgando apenas os trechos iniciais de textos reproduzidos de outros lugares, acrescidos do link para o artigo completo na fonte).

 

Argumentos circulares para continuar com o racismo
por Lola Aronovich

Um dos assuntos do momento nos EUA diz respeito à prisão de um professor universitário. Henry Louis Gates Jr, um negro de meia idade e professor de nada mais nada menos que Harvard, voltava ao seu lar após uma semana pesquisando na China. Encontrou a porta da sua casa emperrada, e tentou, com a ajuda de seu motorista, também negro, forçá-la um pouco para poder entrar. Nem preciso continuar contando o que aconteceu, né? O nosso conhecimento prévio já se encarrega de terminar.

Aqui no Brasil é igual: quando alguém numa vizinhança predominantemente branca e de classe média vê dois negros forçando a porta de uma casa, chama a polícia. Se isso não é racismo, eu não sei o que é. Mesmo assim, um monte de gente insiste que não, não somos racistas. E que, nos EUA, o racismo morreu e foi enterrado com a eleição do Obama. Pelo jeito crer nessas fantasias aplaca a nossa culpa. É meio como criança acreditar em Papai Noel e coelhinho da páscoa.

Mas continuando: quando a polícia chegou à casa de Henry, ele já estava dentro, e seu motorista havia ido embora. Henry, supreso, apresentou documentação ao policial branco para provar que aquela era a sua casa. Mas, indignado, disse: “É isso que acontece com homens negros na América”. O policial não gostou, eles discutiram, e o tira da pesada o prendeu por desacato à autoridade. Henry foi levado de sua casa algemado. Depois da divulgação do caso, a polícia retirou as queixas. Henry segue revoltado. Por que será?

O engraçado é que tem um monte de americano branco analisando a notícia e chegando à brilhante conclusão que a polícia estava certa e Henry, errado. Pior: as análises são todas do tipo “se fosse comigo, eu…”. Meu amigo, não é com você. Você é branco. Por mais que você acredite piamente que o racismo não existe, a realidade te desmente. A maior parte dos negros, tanto nos EUA quanto aqui, já sofreu discriminação. A justiça não é cega coisa nenhuma. A polícia certamente não trata brancos e negros da mesma forma. A própria avó do Obama, branca, declarou certa vez que, por medo, mudava de calçada ao ver um negro se aproximar. Deve ser ótimo ser negro e ver todo mundo desconfiar da sua honestidade.

Esta semana, por coincidência, foi divulgado um estudo da Unicef mostrando que rapazes negros, no Brasil, tem 2,6 vezes mais chances de serem assassinados que rapazes brancos. Aí a gente lê os comentários e lá tá escrito (não sei porquê, mas aposto que escritos por brancos): “Qual a novidade? Os negros são pobres!”. O funcionamento neurológico dos comentaristas não permite que eles deem um pulinho e façam essa simples pergunta: por que tantos negros são pobres? Pra responder essa pergunta inconveniente, das duas uma: ou você culpa um sistema de profunda desigualdade, ou assume seu racismo.

Se você crê que as oportunidades são iguais pra todos, vai ter que explicar por que os negros não aproveitam esse mar de oportunidades. Será incompetência? Negros são burros? Alguma desvantagem genética que os faça menos capazes? Hoje só a extrema direita tem coragem de mentir em público e confirmar essas asneiras. Mas e o resto, que não acredita em racismo e tem certeza que não é racista? Como explica essa desigualdade, que é inegável?

O argumento muita vezes é circular, e nunca chega ao x da questão. Pra responder por que a maior parte dos pobres é negra, o pessoal que não crê em racismo alega: “Ah, negros são pobres porque têm baixa escolaridade”. Então vamos perguntar a razão dessa baixa escolaridade. Por que são raríssimos os casos como o de Henry que, apesar de ser negro, conseguiu estudar e virar professor universitário? Por que na USP os professores negros não representam nem 1% (0,2%, pra ser extata) do quadro docente? Por que há tão poucos negros estudando nas universidades públicas? Quem crê que o problema está em uma sociedade ser injusta, e não em um indivíduo (negro) ser incompetente, tem que ser a favor das cotas raciais.

As coincidências não param aí: o DEM, nosso partido mais à direita atualmente, decidiu entrar com representação no Supremo contra as cotas nas universidades. Para eles, as cotas são inconstitucionais, já que todos os homens são iguais perante a lei e vivemos numa sociedade igualitária e… o resto você conhece. A direita está eufórica com essa representação do DEM, porque, segundo ela, não é a sociedade que é discriminatória, é a política de cotas que é racista. E o fato de haver tão poucos negros nas universidades é mera coincidência.

Ou seja, vamos continuar tudo como está, por favor, que nós, brancos de classe média, não queremos perder nossos privilégios. Isso sim é justiça! Ah, justiça – só se for divina. Quem é contra as cotas já vem com um discurso de “o que precisa ser melhorado é a qualidade das escolas públicas”. Bom, todo mundo concorda com isso. Mas geralmente esse discurso vem atrelado a um posicionamento contra o governo Lula, como se a má qualidade de ensino tivesse começado há exatos seis anos. Os quinhentos anos de governantes da mesma ideologia do DEM que vieram antes não tiveram nenhuma responsabilidade, e muito se empenharam em criar e manter boas escolas.

Com as cotas, talvez mais negros possam estudar e alcançar a invejável posição do professor de Harvard e virarem, eles também, professores universitários. E com uma discussão franca sobre racismo, talvez professores universitários negros, os poucos que existem, deixem de ser vistos como criminosos pelos vizinhos e de ser presos pela polícia. Talvez.

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