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A “pregação-spam” também é uma forma de intolerância religiosa

Verifiquei recentes comentários proselitistas cristãos que eu recebi nos últimos meses em meus artigos sobre ateísmo e ateofobia e li um texto pró-pregação também recentemente, e liguei-os à incapacidade de muitos cristãos de simplesmente tolerar e aceitar que outras pessoas tenham crenças diferentes das delas. Daí eu cheguei a uma conclusão talvez polêmica, mas lógica: a “pregação-spam”, empreendida no tête-à-tête online ou offline por um religioso para um “gentio” contra os desejos e disposição deste, é uma forma de intolerância religiosa, de recusar que o outro (des)creia livremente naquilo em que (des)crê e só satisfazer-se quando/se o outro começar a crer no mesmo que o prosélito.

Quando uma pessoa vai pregar à outra, “levar-lhe a Palavra”, está na verdade tentando convencê-la que a religião pregada é a certa e verdadeira e deve prevalecer e as crenças ou descrenças dessa outra pessoa são falsas e erradas e devem ser combatidas, ainda que sutilmente. Que o Thor do outro é uma mentira aberrante e intolerável, ao contrário do seu Jesus. Que não é possível simplesmente aceitar pacificamente que o outro seja ateu, deísta, judeu, pagão, orientalista ou de qualquer outra categoria, mesmo que tal (des)crença seja inofensiva à coletividade. Que a pessoa não descansará enquanto não privar o outro de sua (des)crença e puxá-lo ao séquito de ovelhas de sua igreja.

É patente que, desde épocas antigas, pregar implica necessariamente não aceitar as crenças do outro. Ao longo da história da Igreja Católica instituída (desde o fim da perseguição à fé cristã pelo Estado romano), a instituição começou suas investidas por toda a Europa, o que, entre os séculos IV e XIV, resultou na destruição de todas as religiões pagãs do continente e na deformação das culturas que eram sustentadas pelo paganismo. Isso obviamente incluiu a pregação da religião católica desde para os camponeses mais humildes até para os grandes reis e imperadores.

A ICAR demonstrou claramente que não aceitava que a Europa continuasse com suas culturas pagãs, não queria conviver pacificamente com elas. Queria transformá-las em culturas cristãs, nem que para isso fosse necessário danificá-las gravemente por desgarrá-las do elemento religioso nativo. O resultado foi opressão e assassinato de inúmeros pagãos que resistiam em sua fé original e não queriam abandonar os Deuses.

A única diferença entre a igreja pregadora da Antiguidade Tardia e da Idade Média e os crentes proselitistas de hoje é que os últimos não usam de violência física nem barganha política para tentar converter os outros. Mas a inaceitação à (des)crença alheia, a sanha de não querer que o outro continue acreditando naquilo que é externo à religião cristã, é exatamente a mesma.

E isso também se aplica a neoateus, no caso de tentarem persuadir na ofensiva, por exemplo, seu amigo que é protestante de que as crenças deste são erradas e nocivas e devem ser combatidas começando pela ateização dele, sem que esse amigo tenha tomado anteriormente qualquer iniciativa de lhe pregar a “palavra de Deus” ou ouvir a opinião ateísta. Isso considerando que muitos neoateus, na tentativa de varrer as religiões abraâmicas do planeta, fazem a mesma coisa que os religiosos proselitistas: a “pregação-spam” tête-à-tête.

E reitero: ao falar acima, me refiro àquelas pregações diretas, de pessoa a pessoa, “pregações-spam” que vêm mesmo sem o “pregado” estar minimamente interessado em pôr à prova sua crença ou descrença religiosa. Não é o caso de sites e blogs de conteúdo persuasivo/proselitista – sejam religiosos, sejam neoateístas – já que estes são lidos apenas por quem quer ler um pouco de seu conteúdo, por quem chega nessas páginas por livre e espontânea vontade.

Isso faz a mim, como ateu, e a muitas outras pessoas encararmos o proselitismo religioso como aquilo que realmente é: uma forma de negar ao outro a continuidade de sua (des)crença, de não aceitar conviver tolerantemente com a profissão íntima das crenças não cristãs pelo outro. E exigirmos respeito incondicional dos religiosos, mesmo dos prosélitos, às nossas (ir)religiões e ao nosso direito de continuarmos professando-as em nossa intimidade – significando isso uma demanda para que não nos preguem mais nenhuma religião alheia às nossas convicções e disposição de conhecê-la.

 

P.S: Antes que apareçam pessoas dizendo que o mesmo deveria se aplicar à “pregação” veg(etari)ana, devo deixar claro: comparar veg(etari)anismo, que envolve fatos e questões éticas que dizem respeito às consequências reais da ação de uma pessoa sobre outros seres sencientes, humanos ou não, com religião, que mexe com crenças que, per se, não possuem nenhuma consequência perniciosa exceto em suas formas fanático-fundamentalistas, é uma falsa analogia. O que não me faz, porém, defender formas inadequadas de divulgação do veg(etari)anismo.

imagrs

8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Rodrigo

outubro 29 2013 Responder

Comentários ofensivos contra comentaristas apagados em série e comentador banido. RFS

Fernando Soares

junho 29 2012 Responder

Quando uma pessoa vai pregar à outra, “levar-lhe a Palavra”, está na verdade tentando convencê-la que a religião pregada é a certa e verdadeira e deve prevalecer e as crenças ou descrenças dessa outra pessoa são falsas e erradas e devem ser combatidas, ainda que sutilmente. Que o Thor do outro é uma mentira aberrante e intolerável, ao contrário do seu Jesus.
Isso é errado do ponto de vista ético ou moral? Será que alguém não pode ter opiniões diferentes e tentar convencer os outros de sua posição?

Que não é possível simplesmente aceitar pacificamente que o outro seja ateu, deísta, judeu, pagão, orientalista ou de qualquer outra categoria, mesmo que tal (des)crença seja inofensiva à coletividade. Que a pessoa não descansará enquanto não privar o outro de sua (des)crença e puxá-lo ao séquito de ovelhas de sua igreja.
Aí você mistura as coisas. Uma coisa é pregar pacificamente; outra, completamente diferente, é coagir os outros.

Isso faz a mim, como ateu, e a muitas outras pessoas encararmos o proselitismo religioso como aquilo que realmente é: uma forma de negar ao outro a continuidade de sua (des)crença, de não aceitar conviver tolerantemente com a profissão íntima das crenças não cristãs pelo outro. E exigirmos respeito incondicional dos religiosos, mesmo dos prosélitos, às nossas (ir)religiões e ao nosso direito de continuarmos professando-as em nossa intimidade – significando isso uma demanda para que não nos preguem mais nenhuma religião alheia às nossas convicções e disposição de conhecê-la.
Ninguém ao fazer proselitismo ou ao pregar está “negando ao outro a continuidade de sua (des)crença”. Há coerção? Não. Então pronto. Você não tem o direito de obrigar o outro a “respeitar” suas crenças ou descrenças. Uma coisa é pregar, tentar convencer os outros. Outra coisa é usar a violência. Você pode inclusive achar que é desagradável a pregação de tal pessoa, e falar com ela para parar, ou deixar de falar ou andar com ela. Isso é diferente de desrespeitar a liberdade de expressão dos outros.

    Robson Fernando de Souza

    junho 29 2012 Responder

    “Então pronto. Você não tem o direito de obrigar o outro a “respeitar” suas crenças ou descrenças. Uma coisa é pregar, tentar convencer os outros. Outra coisa é usar a violência.”

    Também não tenho direito de obrigar os outros a respeitar meu direito de não crer no mesmo que ele?

      Fernado Soares

      junho 29 2012 Responder

      É claro que tem.

        Rodrigo

        outubro 29 2013 Responder

        Comentários ofensivos contra comentaristas apagados em série e comentador banido. RFS

Fabricio

dezembro 17 2011 Responder

Segundo comentário ofensivo apagado. Se você realmente vem pra este blog só pra ofender, então não é bem vindo por aqui.

Sem mais,
RFS

Ruth Iara

dezembro 9 2011 Responder

Parabéns, amigo ! Chegaste a síntese de uma dialética. Aqui nos somos iguais apesar de eu não ser atéia como já percebeste. =)

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 9 2011 Responder

    Obrigado novamente, Ruth =)

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