04

dez11

Desabafo: o fracasso da luta contra o ecocídio de Suape

Pouco mais de um ano e sete meses depois de autorizado por lei o maior desmatamento litorâneo da história de Pernambuco no estuário de Suape, olho para trás e vejo que tudo o que fiz – artigos de opinião, panfletagens e presença em alguns eventos relativos ao acontecimento – parece ter sido em vão. Tendo dado de cara com um ambientalismo local pouco acessível, faço hoje meu desabafo perante tantas decepções enfrentadas nesses quase vinte meses depois da aprovação da famigerada lei estadual 14.064/2010.

Ao longo desse tempo tentei, à minha maneira, urgir a população metropolitana, desde estudantes e trabalhadores comuns até professores das áreas ambiental e social-aplicada, a esboçarem mobilização contra esse crime ambiental que recentemente devastou grande parte da Ilha de Tatuoca, outrora um paraíso ecológico habitado por famílias simples que desfrutavam uma vida bucólica.

Busquei a integração com alguns grupos ambientalistas, pedindo a representantes deles para que me inserissem em newsletters que anunciassem novas reuniões, ações ou eventos relativos à luta pela vida do estuário do Ipojuca. Escrevi doze artigos de opinião em 2010 e 2011 na esperança de atrair a atenção do povo e das ONGs de luta ambiental – ao menos para que me chamassem às mobilizações presenciais. Participei de uma audiência pública e da sessão da Comissão de Justiça da Assembleia Legislativa de Pernambuco e me ofereci aos ambientalistas ali presentes para colaborar fazendo panfletagem na UFPE – o que prontamente fiz, na incapacidade de comparecer à vigília que estava acontecendo no mesmo dia próximo à ALEPE.

Mas não consegui colher quase nada de bons resultados. Jamais fui atendido em meus pedidos de receber novidades por e-mail. Não consegui contatos formais com nenhuma ONG ambientalista, que não fossem breves contatos com representantes. Sequer fui avisado de reuniões e mobilizações, exceto nos primeiros dias após as primeiras notícias na mídia relativas ao desmatamento de Suape. Meus artigos, além de terem sido bombardeados por comentários de reacionários pró-desenvolvimentismo que não estavam afim de um debate honesto, não atraíram a atenção dos ambientalistas, à exceção de indivíduos admiráveis como o professor Heitor Scalambrini. Minha panfletagem teve resultado zero – nem mesmo os professores, em cujas salas pus meus panfletos, se inspiraram para sequer procurar saber melhor o que estava rolando sobre a destruidora expansão de Suape.

À parte de minhas ações, uma ação no Ministério Público até conseguiu poupar por alguns meses o estuário ipojucano da ação raivosa das motosserras, buldôzeres e máquinas de aterro. Mas o alívio acabou em setembro passado, quando o MPF-PE chegou a um acordo com IBAMA, CPRH e a diretoria de Suape e acabou liberando a destruição de 90 dos 691 hectares de vegetação condenados pela insidiosa lei 14.064/2010.

Em suma, os bilhões de reais em negócios trazidos pelo ultracapitalista presidente do Partido “Socialista” Brasileiro foram implacáveis e venceram a relativamente fraca resistência dos ambientalistas pernambucanos. E no processo eu – assim como presumivelmente muitas outras pessoas também dispostas a lutar aguerridamente – acabei excluído, mesmo tendo tido um grande potencial para ajudar na luta pela sobrevivência do estuário que Suape roubou da Natureza silvestre.

Essa decepção me faz lançar um apelo às entidades não governamentais do movimento ambientalista pernambucano, em forma de pontos. Caros ambientalistas, por favor:

a) tornem-se mais acessíveis e comunicáveis à população em geral, de modo que não precisemos pedir insistentemente a indivíduos específicos, via celular, por inte(g)ração. Criem sites atualizados, e/ou páginas em redes sociais, que permitam um contato franco com vocês e garantam respostas rápidas aos cidadãos inquiridores;
b) tornem mais públicas vossas ações e demandas, via internet e informes na imprensa;
c) invistam em chamar os cidadãos pernambucanos a aderirem às ONGs existentes ou pelo menos contribuírem com doações mensais;
d) busquem a integração com as filiais regionais das ONGs ambientalistas nacionais ou internacionais (Greenpeace, WWF, SOS Mata Atlântica etc.);
e) promovam regularmente eventos que chamem a população a estarem por dentro das ações das ONGs e do debate socioambiental;
f) intercambiem com grupos anticapitalistas e/ou socialistas, que denunciam a essência ecocida e sócio-opressora do capitalismo.

Essas ações tornarão o movimento ambientalista pernambucano mais integrado com os anseios da população, mais numeroso em indivíduos militantes e, sem sombra de dúvida, mais poderoso a ponto de peitar interesses político-econômicos bilionários. E será mais difícil sairmos derrotados e decepcionados das lutas que travamos pela sobrevivência da vida humana e não humana.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo