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Machismo, apologia à traição e profanação do amor marcam comercial de promoção de cerveja

Machismo, ridicularização do amor e apologia à traição conjugal são comuns em propagandas de cerveja. E não foi nada diferente na propaganda em que a Skol divulga sua promoção, intitulada “Operação Skol Folia”:

Além de reduzir a frangalhos a beleza e a essência romântica da música de Aerosmith, I Don’t Want to Miss a Thing e do próprio filme Armageddon, ali parodiado, o comercial chama a atenção pelo seu caráter bastante machista e pró-traição: enquanto a mulher se abala ao saber que vai passar tempos, talvez a vida toda, longe de seu amor por causa de uma suposta guerra e fica em casa pensando nele, zelando pela vida do amado e temendo sua morte (porque militarismo e guerra é sempre violência e morte, e este blog é ativamente contra a existência de forças militares), o “soldado” vai para o carnaval e a trai covardemente, sambando e flertando com mulheres “gostosas” e “aproveitando a vida” na farra em contraste com a vida de sofrimento e privação de sua namorada/noiva/esposa.

Ao fim da “guerra”, o comandante e um soldado vêm à casa da triste mulher, que, ao gesto do comandante, se abala ao acreditar inicialmente que seu amado morreu, mas o soldado faz o gestinho de curtir carnaval – nisso a expressão da mulher foi covardemente omitida.

E o machismo da propaganda é triplo. Primeiro porque rebaixa as mulheres duas vezes, através de dois arquétipos: primeiro coloca a mulher como a dona-de-casa que não tem o direito de curtir a vida (ao contrário do seu cônjuge cafajeste), e em seguida mostra-a como brinquedo sexual, como a “gostosa” sem sentimentos que diverte os homens ao ser bulinada e às vezes usada numa transa do tipo “usa e joga fora”. Segundo porque propagandeia aos homens heterossexuais a crença (ou valor cultural) de que é “bom demais” trair sua companheira, jogar fora anos de amor que ela lhe deu em troca de alguns dias de carnaval e usar outras mulheres como se elas fossem meros brinquedos feitos para bulinar ou fazer sexo.

Comerciais desse tipo, além de legitimar uma cultura de objetificação/submissão da mulher e banalização da traição conjugal, deixa aquelæs, mulheres ou homens, que realmente sabem o que é amar e ser amado ferventes de raiva, até por empatia à mulher que foi trocada pelo carnaval pelo marido. Aquelas mulheres que sabem o que é se despedir dos seus amados por causa de uma missão militar e sequer saber se voltarão a ver os rostos deles, incluindo muitas brasileiras cujos companheiros foram enviados ao Haiti ou ao Líbano, certamente estão ferventes de raiva desse comercial. Porque ele faz pouco caso do sentimento delas; trata seu amor como algo desprezível, muito menos importante do que poucos dias de folia.

Imagine-se então, mesmo não sendo algo realmente verossímil, o triplo golpe para a mulher: a) ser alheada de seu amor, com ela temendo que seja para sempre; b) no final descobrir que foi enganada, já que seu companheiro não foi para nenhuma missão, mas sim foi para a folia traí-la e usar outras mulheres; c) tomar conhecimento, estarrecida, que seu amor é um cafajeste que usa mulheres como meros objetos sexuais, incluindo ela própria.

Profana-se ali algo sagrado para milhões de seres humanos: o amor legítimo, o compromisso do coração, o pacto mútuo de fidelidade e proteção. Exalta-se como valor cultural o abandono da companheira pelos seus homens, mesmo que não haja qualquer pacto de relacionamento aberto – e isso, em inúmeras culturas, incluindo na ocidental, é traição, é violação do pacto conjugal. É não só um acinte ao valor do pacto de fidelidade como parte do amor de relacionamentos não abertos, como é antiético, já que causa sofrimento intenso à mulher, frustração com a vida, descrença no amor, depressão, solidão.

E ainda impõe-se à mulher papéis extremamente desfavoráveis, como já foi dito, através desses dois arquétipos: o primeiro da dona-de-casa que não tem os mesmos direitos de diversão que o seu homem e deve aceitar que foi traída – dada a omissão do sentimento, reduzido à total irrelevância, da mulher do comercial -; o segundo da mulher-objeto “gostosa” que vai ao carnaval seminua para divertir sexualmente homens solteiros ou traidores.

Esta propaganda, ao meu ver, merece intervenção do CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), portanto desde já convoco vocês leitoræs a denunciá-lo. Porque não basta todo o mal que o consumo irresponsável de bebidas alcoólicas faz para a sociedade, ainda temos que ver uma bebida alcoólica sendo promovida com triplo machismo, apologia à traição conjugal e desrespeito aos sentimentos daqueles que realmente sabem o que é amar, incluindo milhões de casais verdadeiramente apaixonados e tantas mulheres que temeram perder (ou mesmo perderam) seus amados homens em guerras ou “missões de paz”?

 

Modelo de mensagem a enviar para o CONAR:

A referida propaganda, que é uma paródia parcial do filme Armageddon, investe no machismo, no incentivo à traição e no desrespeito ao sentimento das mulheres companheiras de militares em missão para divulgar sua promoção de carnaval. O machismo aparece três vezes: primeiro, imputa à mulher o arquétipo da dona-de-casa que não tem os mesmos direitos (destacadamente o de se divertir) do marido; segundo, exalta o arquétipo da mulher-brinquedo sexual, como a “gostosa” sem sentimentos que diverte os homens ao ser bulinada e às vezes usada numa transa do tipo “usa e joga fora”; terceiro, propagandeia aos homens heterossexuais a crença (ou valor cultural) de que é “bom demais” trair sua companheira, jogar fora anos de amor que ela lhe deu em troca de alguns dias de carnaval e usar outras mulheres como se elas fossem meros brinquedos feitos para bulinar ou fazer sexo. A propaganda também desrespeita os sentimentos das mulheres cujos companheiros realmente foram a missões de paz ou mesmo guerras, como as brasileiras companheiras de militares que fizeram missão no Haiti ou no Líbano, sem saber se seus companheiros voltariam vivos – e algumas realmente recebendo a notícia de morte dos cônjuges. Também incide no incentivo à traição conjugal por parte dos homens, na violação deliberada do pacto de fidelidade dos relacionamentos de compromisso sério, algo que causa intenso sofrimento a muitas mulheres, incentiva a violência doméstica mútua e destrói famílias. Portanto, venho pedir providências em relação ao referido comercial.

Dados a serem colocados no formulário de reclamação:

Veículo de comunicação: televisão
Emissora: Globo
Data: 17/01/2012
Hora: em torno das 13h

(ou, se você assistiu à propaganda em outra emissora, data e/ou horário, coloque os seus próprios dados)

 

Atualização (26/05/12, 02:50): Como era esperado, o CONAR arquivou a denúncia, assim tornando o comercial impune. De fato perdi minha fé nessa entidade, que não pune abusos e preconceitos não tão óbvios ao senso comum.

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8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Heloisa Helena

fevereiro 26 2014 Responder

E o número da casa é “171”…

yume

janeiro 24 2012 Responder

Vi sua publicação em outro blog e vim até o seu informar-lhe que já encaminhei para organizações feministas,para que denúncias sejam feitas.

valeu pela publicação ^_^!

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 24 2012 Responder

    Valeu também, Yume =)

Ewerton Oliveira

janeiro 23 2012 Responder

Fiquei estarrecido com tamanho desrespeito a figura da mulher, este comercial é extremamente burro e medíocre. Só podia ser umas bandinhas de axé aparecerem neste tipo de propaganda.Aff, alguma coisa tem que ser feita, e não tem nada de censura proibir um comercial que desrespeita os direitos humanos.

Valkiria

janeiro 18 2012 Responder

Vi esse comercial e também fiquei impressionada com o machismo escancarado. Como mulher, me senti bastante desconfortável.
Lamentável o pensamento de certas empresas e seus publicitários…

Victor Maia

janeiro 17 2012 Responder

Acho seus argumentos muito bem fundamentados e posso até concordar com eles. Entretanto, submeter qualquer conteúdo à censura é uma prática careta, burra e que remete aos tempos idos (será?) da ditadura militar, época áurea do militarismo (ao qual esse blog é contra.
As empresas têm o direito de veicular suas propagandas, que não precisam ser analisadas de modo tão atencioso e criterioso. É bem verdade que nossa população não é educada o suficiente para julgar com senso crítico o que lhes é empurrado pela televisão, entretanto, não podemos subestimá-los a ponto de intervir por seus nomes contra o comercial.

Admiro muito o seu blog e concordo com muitas das ideias aqui discutidas.

Atenciosamente,

Victor Maia

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 17 2012 Responder

    Victor, o CONAR é um órgão de autorregulamentação publicitária, e eles geralmente não censuram comerciais, mas, até onde sei, recomendam enfaticamente a suspensão da propaganda abusiva e advertem o seu anunciante.

    yume

    janeiro 24 2012 Responder

    Vitor,então vc acha justo que material que propague que nós mulheres somos serviçais domésticas e meros objetos sexuais tem que ficar circulando pelo mídia? Se fosse algo racista,vc teria esta postura? Por que que sempre quando é algo que ofende nós mulheres,é aceitável? E o que tem a ver a opressão do regime militar com a defesa de nossa dignidade humana? As verdadeiras censuradas somos nós,quem tem total liberdade de expressão são os homens,nem reclamar podemos que já somos taxadas de tudo o que se possa imaginar(ou seja,liberdade de expressão feminina é reprimida).
    Gostaria que vc pensasse sobre isso toda vez que achar que quando nosos direitos femininso são violados,temos que “levar na piada”(vide o exemplo do Rafale Bastos) porque reagir é “censura”

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