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fev12

[OFF] Alienação segundo o senso comum

Fala-se muito no senso comum sobre a alienação. Sobre como a TV, certas revistas e jornais, as igrejas, os Estados controlados por regimes autoritários e, segundo alguns, mesmo o futebol e o Carnaval alienam as pessoas, roubando-lhes o senso crítico e a consciência sociopolítica. Mas muitas pessoas não entendem integralmente que conceito de alienação é esse, que virtualmente se diferencia da definição sociológica clássica de transferir para o controle de outrem algo que era ou deveria ser seu. Tantas chegam a usar frequentemente os termos alienação, alienar e alienado sem ao menos saber realmente conceituá-los.

Por isso, convém falar um pouco sobre essa alienação a que o senso comum tanto se refere. Na verdade, essa palavra tem várias definições “diferentes”, conforme se pode conferir depois de uma análise do sentido que as pessoas geralmente lhe dão:

Alienação:
1. Despolitização, desmobilização sociopolítica, indisposição constante de participar das tomadas de decisões políticas;
2. O ato de alhear-se, induzido ou não, da discussão séria sobre temas de relevância coletiva, como sociopolíticos, socioambientais e éticos.

Alienar:
1. Transmitir informações propositalmente manipuladas de modo a desmobilizar e despolitizar a audiência. É atribuído geralmente à mídia, a panfletagens interesseiras, a certas igrejas e a propaganda institucionais governamentais ou não;
2. Desinformar e enganar para desmobilizar e despolitizar. Também se atribui essa forma de alienação à imprensa, a panfletagens interesseiras, a certas igrejas e a propagandas institucionais governamentais ou não;
3. Desmobilizar e despolitizar por meio de entretenimento apolítico que induz ao esquecimento temporário ou permanentemente mantido de problemas sociopolíticos. É uma acusação muito dirigida ao Carnaval, ao futebol e a outras manifestações culturais de massa;
4. Incitar paixões nacionalistas, desfavorecendo o senso crítico político de modo a inibir a consciência sociopolítica da população. Nesse caso, a intenção de alienar é dos regimes autoritários/totalitários, vide incitação ao nacionalismo e patriotismo e culto à personalidade do autocrata.

Alienado (nome pejorativo):
1. Aquele que foi bem-sucedidamente despolitizado e desmobilizado pela entidade interessada na alienação;
2. Aquele que, despolitizado e manipulado por forças “superiores”, ridiculariza, rebaixa e/ou trata como irrelevantes questões sérias (sociopolíticas, socioambientais, éticas etc.);
3. Aquele que, despolitizado e manipulado, aceitou o conformismo como maneira de encarar a realidade sociopolítica vigente.

Apesar de, se vistas superficialmente, essas definições diferirem do conceito sociológico clássico, há um elo forte entre ambos. Como os conceitos de alienação a senso comum têm como núcleo comum a desmobilização e a despolitização, convém conhecer essa relação entre esse ponto de interseção entre a conceituação popular e a científica.

Quando alguém é despolitizado e desmobilizado, acaba transferindo para outras pessoas e/ou entidades a responsabilidade política que, numa democracia de fato, deveria ser de todos os adultos capazes. Transfere geralmente para quem é justamente interessado em conservar a ordem vigente de desigualdades e injustiças – maioria dos políticos, grande empresariado, mídia conservadora e igrejas mal intencionadas.

Ao negar a ação sociopolítica cidadã, o indivíduo nega sua responsabilidade pela integridade do coletivo e joga-a inteiramente nos “outros”. E muitos desses outros fazem a mesma coisa. E no final, quem decide os rumos da sociedade em tempos não eleitorais são uns poucos cidadãos engajados, os parlamentares, os governantes e, como dito, os grandes empresários, os donos da imprensa e algumas igrejas. E isso é transferir para outrem a soberania popular e o poder de tomar decisões. É alienar-se nos dois sentidos.

Da mesma forma, comenta-se pelo senso comum que certas atividades de entretenimento, como, exemplificam, o Carnaval e o futebol, afastam as pessoas de pensar sociopoliticamente, visto que elas se distraem e esquecem todos os problemas locais, regionais e nacionais, preferindo conversar sobre futebol, sobre a folia e sobre outros temas relacionados a essas diversões culturais. Com um povo distraído a ignorar os problemas em nome de um quase-hedonismo, o poder decisório estaria transferido às mãos de poucos.

O que, porém, nem todo mundo concorda, visto que muitas pessoas gostam de futebol e Carnaval, inclusive torcendo para times e frequentando blocos fixos, mas nem por isso deixam de pensar na sociedade e nos rumos políticos nos “dias de branco”.

Já em relação ao nacionalismo e ao culto à personalidade autocrática, a exploração das paixões do povo, fazendo-o “amar” artificialmente o Estado e o ditador, o faz ignorar, esquecer ou mesmo desconhecer que esse país possui inúmeros problemas, muitos deles inclusive de foro político. Com essa hipnose generalizada, o Estado sequestra para si todo o poder das decisões políticas, fazendo o povo, induzido, transferir o controle sobre si mesmo para o regime ditatorial.

A população, pois, não comete nenhuma incorreção sociológica ao definir alienação, alienar e alienado com conceitos baseados na desmobilização sociopolítica, embora não toque diretamente na definição clássica. Porque desmobilizar-se é de fato sacudir de si a responsabilidade democrática e delegá-la a outras pessoas, cujos interesses muitas vezes são deletérios a quem se aliena. E, convém perceber, isso é altamente prejudicial à integridade da democracia, lhe retira a consistência.

imagrs

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Lucho

fevereiro 26 2012 Responder

Alienado é o “xingamento” preferido que os comunistas de shopping center usam para “ofender” o outros.

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