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[OFF] Jornalões X cidadãos: a reação da mídia contra a reação popular aos aumentos das passagens

Versão "do bem" da capa do Diario de Pernambuco de 10/02/2012, montada pelo site humorístico Diário Pernambucano

Introdução: breve histórico

Pelo visto, é guerra. Os grupos detentores dos jornalões do Recife resolveram centrar seu fogo nos protestos, liderados pelos estudantes universitários e secundaristas, contra o aumento das passagens de ônibus. No dia 02 de fevereiro, a Folha de Pernambuco começou a apelação com a enorme palavra “BADERNA” estampada, com fundo preto, na sua capa.

Oito dias depois, em 10 de fevereiro, dois jornalões mostraram suas garras: primeiro o Diario de Pernambuco, com a sugestibilíssima capa “A cidade não aguenta mais isso”, e em seguida o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, por meio do perfil do NE10 no Facebook, faz uma “enquete” altamente tendenciosa intitulada “Você também foi afetado no trânsito pelo protesto dos estudantes? Compartilhe conosco a sua história”.

No ano passado o Diario é que tinha se concentrado no ataque aos manifestantes, havendo pouca ação dos outros dois grupos de comunicação. Mas nesse ano a onda ficou mais séria, havendo essa investida conjunta dos jornalões.

Este artigo pretende comentar os dois acontecimentos do dia 10 de fevereiro, por parte do Diario e do NE10, e mostrar tanto a falta de ética jornalística perceptível na práxis pró-ordem de ambos como a reação irada dos cidadãos a tamanha desfeita.

 

DP: Tendenciosidade e desonestidade intelectual

Primeiro, o Diario de Pernambuco divulga uma reportagem altamente tendenciosa e irresponsável, na capa e na página C2. Dá a entender que a cidade inteira teria ficado contra os “poucos” estudantes – quando na verdade não havia apenas estudantes no protesto do último dia 9, mas também trabalhadores que já terminaram ou interromperam seus estudos – e chega ao absurdo de tentar imputar ao movimento manifestante o atropelamento de uma senhora de 65 anos.

Não sabemos como o Diario ainda não pôs em seu editorial uma convocação para que o Exército intervenha nos protestos, ou que a PM aja com ainda mais vigor do que como já havia agido nos primeiros protestos do ano. Isso porque a visível linha editorial do jornal em torno da abordagem dos protestos é claramente pró-ordem, pró-trânsito e antimanifestações.

Não vemos ali apoio à prerrogativa constitucional e democrática dos cidadãos de ir às ruas lutar contra aquilo (e, às vezes, aqueles) que os oprime com injustiças e abusos. Mas apenas apelos às emoções daqueles que, libertos do transporte coletivo que motiva os protestos, se veem presos nos engarrafamentos. Não há ali o pensamento holístico de que uma coisa (injustiça contra os usuários do transporte público) leva a outra (protestos) que leva a uma terceira (engarrafamentos) que tem uma de suas grandes causas na primeira. Mas sim o pensamento pequeno e conservador de que a metrópole deve estar em ordem de modo a servir impecavelmente àqueles que têm carros.

E para defender esse ponto de vista, o jornal acaba usando de manipulação, muitas vezes tendentes à desonestidade intelectual, para jogar o povo contra o povo. Como já dito mais acima, chegou-se ao absurdo de tentar jogar às costas dos manifestantes a responsabilidade pelo atropelamento de uma idosa de 65 anos – o que acaba sendo facilmente desmascarado tanto adiante na página C2 como ali mesmo na capa, visto que foi um carro que a atropelou, não os manifestantes, que estavam a pé ou de bicicleta.

Além do mais, foi omitido quase que por completo o lado dos manifestantes e de seus apoiadores populares. Praticamente só se falou nos transtornos do trânsito – o que, como todos já devem saber, são tanto responsabilidade de um poder público corporativista e negligente como ossos do ofício de uma sociedade democrática que precisa se mobilizar para garantir o cumprimento de seus direitos.

Para o Diario, tem muito mais direitos aquele que sempre usa carro do que quem tem que usar todos os dias, nos horários de pico, ônibus superlotados, nada confortáveis e de tarifas cada vez mais caras. Um motorista chegar atrasado em casa é tornado muito mais relevante e importante do que um passageiro de ônibus que, sendo obrigado a desembolsar, no caso de quem gasta seguidamente uma passagem B e uma A, quase 240 reais por mês – valor cada vez mais elevado a cada ano que passa – mesmo sem boas condições financeiras só para ir de casa ao trabalho e vice-versa, está perto de passar mal por causa da superlotação e do calor ofegante do ônibus e ainda terá que esperar dezenas de minutos para pegar o segundo ônibus, também lotado, de seu trajeto.

Não faltaram depoimentos de quem se descontentou com a consequência dos protestos de 09/02. Mas foram descaradamente escasseadas as declarações de quem apoiou a passeata – mesmo daqueles que assumiam estar sendo prejudicados pelos engarrafamentos mas reconheciam a importância da manifestação cidadã.

O DP mostrou que não é imparcial acerca dos protestos, que tem uma linha editorial em relação ao assunto, e essa linha é ser contra as manifestações e a favor da ordem social vigente desde que isso mantenha os motoristas “em paz” (?). E manifesta essa opinião de maneiras sub-reptícias, que faltam com a honestidade de um veículo que deveria ter importância social e informar e formar cidadãos. Faz-o dando aos leitores a ilusão de que o jornal “defende o povo” mas “ainda sendo imparcial”.

 

NE10 no Facebook: a reação do povo

O ponto alto do dia 10/02 foi a irada reação do povo contra uma enquete bastante tendenciosa que o perfil do NE10 no Facebook lançou aos leitores – “Você também foi afetado no trânsito pelo protesto dos estudantes? Compartilhe conosco a sua história.” A maioria esmagadora veio criticando e/ou condenando a postura do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, que tentou, assim como o DP, dar ao protesto um caráter muito mais de problema público do que de manifestação democrática.

Apenas uma pequena minoria correspondeu à expectativa do NE10 de coletar depoimentos desfavoráveis à passeata. O que se viu no vasto restante dos comentários de usuários do Facebook foi indignação ao ver mais outro veículo de comunicação se pondo contra um ato democrático de luta contra opressões. Bem que o NE10 ainda tentou se desvencilhar da postura pró-ordem, alegando imparcialidade com um histórico de reportagens e notícias sobre os problemas do transporte público e a repressão policial contra os protestos anteriores, mas isso nem de longe aplacou a indignação dos comentadores.

Ficou claro ali, assim como na Folha de Pernambuco do dia 2, que dessa vez não é apenas o Diario o veículo que se posiciona contra o direito constitucional da população de protestar contra os problemas, abusos e negligências do transporte público, visto que dessa vez outros jornalões estão aderindo à defesa do Grande Recife Consórcio de Transporte e do governo do já considerado “painho” Eduardo Campos.

 

Considerações finais

A mídia está atacando os cidadãos e seus direitos constitucionais de mobilização social. Mas, na medida do possível, o povo está reagindo, mostrando que não tolera tal posição dessa imprensa que vem chapabranqueando em prol de Eduardo Campos e do consórcio Grande Recife. Quem com ferro fere, com ferro será ferido – isso pôde ser visto na revolta dos leitores do NE10, que souberam retaliar com palavras e argumentos contra a postura do portal, que teve que baixar o rabo e tentar se mostrar “imparcial” acerca dos protestos.

A população deve perceber, nas próximas mobilizações, que tem dois adversários: primeiro, o consórcio Grande Recife mais o governo Eduardo Campos; segundo, a mídia chapa-branca que usa o problema dos engarrafamentos – causado em grande parte por causa da total negligência do poder público em relação ao transporte coletivo – para tentar criminalizar direitos democráticos do povo oprimido e impor a ordem por via da criação de conflitos entre motoristas de carros e usuários de ônibus, por jogar povo contra povo.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Lucho

fevereiro 11 2012 Responder

Desculpa. Agora eu entendi. :)

Lucho

fevereiro 11 2012 Responder

Diário pernambucano?????

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