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fev12

Paula Kirby: Como os ateus encontram significado na vida?

Abaixo minha tradução do artigo de Paula Kirby, consultora de ONGs secularistas e colunista do The Washington Post, sobre como os ateus encontram significado na vida. Ele também inclui críticas ao cristianismo, com as quais concordo em parte – só não concordo integralmente com a parte que afirma que as religiões teístas (incluindo mono e politeístas) deveriam ser integralmente abandonadas.

 

“Como os ateus encontram significado na vida?”
por Paula Kirby para o The Washington Post, texto traduzido por mim

O correspondente foi curto e grosso: “Por que vocês ateus simplesmente não saem daqui e se matam já?”

É verdade que a maioria das frases cristãs são bem mais delicadas, mas os ateus são regulamente informados por um certo tipo de crentes que nossas vidas não podem ter nenhum valor se não acreditamos no Deus deles. Qual é a real – perguntam eles – de ser gentil ou amoroso, de se preocupar com o sofrimento ou fazer qualquer outra coisa, se um dia vamos simplesmente morrer?

É verdade que, na ausência de um plano divino, nossas vidas não têm um propósito externamente determinado: um indivíduo não nasce pelo propósito de se tornar médico, criar uma obra de arte espetacular ou cavar um poço num canto árido da África. Mas são os doentes menos curados, o prazer dos amantes da arte menos intenso, ou a sede de aldeões castigados pela seca menos aplacada, simplesmente porque uma pessoa buscou seu próprio propósito ao invés de seguir uma determinação do alto? Será que nós realmente precisamos de uma divindade para nos dizer que uma vida gasta curando o câncer vale mais a pena do que uma que foi gasta bebendo-se na vala?

Por que não deveríamos encontrar satisfação em aliviar o sofrimento ou a injustiça, simplesmente porque nós todos vamos morrer um dia? O grande fato de que esta vida é tudo que nós temos faz dela ainda mais importante de modo que façamos tudo o possível para reduzir o sofrimento causado pela pobreza, pelas doenças, pela injustiça e pela ignorância. Descrever tais esforços como carentes de significado é dizer que o sofrimento evitável não importa – dificilmente é uma posição moral.

Muitos cristãos clamam que não temos razão para nos importarmos com os outros se não existe nenhum Deus. Mas este é ele próprio um clamor religioso, oriundo do conceito teológico do Pecado Original, que declara a humanidade caída e corrupta. Nós podemos seguramente ignorá-lo, por na realidade não precisarmos de histórias infantis de recompensa ou danação eternas para nos coagir para sermos bons: uma pesquisa mostra que as sociedades menos religiosas possuem a menor incidência de males sociais, incluindo o crime e a violência. Humanos saudáveis possuem empatia embutida em si, e as explicações para isso estão na Psicologia e na Biologia Evolucionária: não requer nenhum deus.

A vida não pode ser algo sem significado tão logo nós tenhamos a capacidade de afetar o bem-estar de nós próprios e dos outros. Para uma verdadeira carência de significado, nós precisaríamos do paraíso.

Nesse estado de permanente e perfeito regozijo que é a definição de paraíso, “fazer a diferença” é impraticável. Se a diferença fez uma melhora, o estado anterior não poderia ter sido perfeito. Se faz as coisas piores, o resultado não poderia ser perfeito. No paraíso, nenhum dos dois casos é possível. Mesmo reunir-se com entes amados não poderia adicionar nem um tiquinho à alegria deles ou à sua, visto que o paraíso seria, por definição, um estado que não poderia ser melhorado.

Considere por apenas um momento o infernal despropósito do paraíso. Ao menos em nossa existência real, nossas ações têm um efeito, para melhor ou para pior, e assim vale a pena tentar exercer as ações certas. Numa vida eterna onde não podemos ter qualquer efeito no final das contas, nós estaríamos como se mortos de fato.

Se você já clamou que sua vida não teria nenhum sentido se não fosse por sua fé em Deus, você realmente acredita que sua família e amigos não têm nenhum valor intrínseco, por si mesmos? Você realmente não pode ver sentido em esforçar-se para proteger e alimentar seus filhos, mesmo se não há uma vida eterna? Tem certeza?

Se você pensa assim, então é você, não os ateus, que deprecia a humanidade, e é o cristianismo, não o ateísmo, que diminui os reais valor e significado da vida. Nós ateus vemos propósito no mundo como ele é, e em nossas vidas reais; nós vemos os seres vivos [sencientes] como dotados de valor intrínseco, como merecedores de nossa preocupação e compaixão simplesmente porque eles compartilham conosco nossa capacidade de sentir dor e prazer. É difícil imaginar uma posição menos moral, menos favorável à empatia , do que essa visão aberrante e incaridosa de humanidade proposta pelo cristianismo.

Essa é uma visão perversa da realidade. No final das contas, se a única coisa valiosa sobre a existência é que Deus deu-a para nós, então isso deve significar que esse presente não é digno de se ter por suas próprias características. A criação de Deus seria o equivalente a um suéter sem forma e folgado de cor dúbia que você jamais vestiria por vontade própria mas, apesar disso, você jamais se daria o direito de jogar fora porque foi um presente de vovó. Essa abordagem, para todos os efeitos, diz que você é grato pelo presente de Deus, mas de fato não gosta tanto dele; que, se não fosse por sua crença de que haverá uma eternidade no paraíso para compensar você por ter tido que aguentá-lo, você não pode ver qualquer razão pela qual você iria querer esse presente.

A religião teísta reduz a vida a algo que não tem nenhum valor que não o atributo de ser a criação de uma divindade imaginada. Ela decreta que propósito e significado só podem ser encontrados na característica de ser um fantoche de uma deidade, tendo nenhum propósito a não ser o propósito do deus e nenhum valor fora como sendo a obra dele. A religião teísta olha para tudo o que há de melhor e mais nobre no impulso e esforço humanos e desdenha tudo como sendo vazio de significado e de valor – ou pior: corrupto – a não ser que tenha sido feito em nome de Deus. É hora de se abandonar essa visão de mundo infundada. É hora de rejeitar a religião teísta e começara ver a nós mesmos e aos outros com real dignidade, como seres dotados de fim em si mesmos e não apenas como as sombras distorcidas de um criador fictício.

 

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

TOS

março 29 2012 Responder

Christopher Hitchens e Willian Craig opinaram sobre essa pergunta acerca de um valor objetivo da existência dentro do ateísmo.

http://www.youtube.com/watch?v=z7LU-jPvNnw&feature=player_embedded

TOS

março 28 2012 Responder

“Por que não deveríamos encontrar satisfação em aliviar o sofrimento ou a injustiça, simplesmente porque nós todos vamos morrer um dia?”

E por que não deveríamos encontrar satisfação em causar sofrimento e injustiças que nos beneficiem? Isso sempre foi feito na história da humanidade, construída por pessoas saudáveis, afinal de contas o egoísmo também pode ser explicado pela psicologia e biologia…

A questão não é que um ateu não possa agir corretamente. Indivíduos ateus podem ser ótimas pessoas no trato com os outros. A questão é que não se pode retirar do ateísmo e do naturalismo nenhum sistema ético… Os ateus “boa gente” no final das contas estão contradizendo o niilismo proveniente de sua visão de mundo, este texto é prova disso.

A autora apela para um valor intrínseco que o mundo tem mas sinceramente qual a diferença entre os átomos do cadáver de uma pessoa assassinada e o de seu assassino? Ela simplesmente diz que temos que acreditar nisto mas no fim não tem como demonstrar esse valor intrínseco. É um dogma do “ateísmo boa praça”. Um ateu “alma sebosa”, por seu lado, pode encontrar sentido na vida detonando os outros, por que não? E quem pode dizer que ele está errado?

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