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Reiterando as relações entre o ateísmo ideológico e os Direitos Animais

Obs.: Este artigo se encontra na categoria “Preconceito contra ateus”, mas não aborda o problema do preconceito, e sim um assunto pertinente ao ateísmo. Essa categoria de posts é onde atualmente categorizo tudo que fale de ateísmo, mas tem como prioridade abordar a ateofobia.

A partir da dialética obtemos aprendizados muito importantes, e este pretender ser o caso também. Foi publicado nos últimos dias um texto que questiona as conexões e laços de coerência entre a categoria de ateísmo que chamo de ateísmo ideológico (AI) e os Direitos Animais (DA). Este meu artigo, a comentar cada parte dele, pretende novamente defender essa relação, ainda que, como já dito no artigo Ateísmo ideológico e Direitos Animais, não haja uma coerção ou imperativo externo a exigir que todos os ateus ideológicos e os demais humanistas seculares tornem-se veg(etari)anos e defensores dos DA.

O autor do texto inicialmente divide os valores do AI em negativos – baseados na negação do religioso e do sobrenatural, como a ausência de éticas absolutas no ateísmo, o ceticismo científico e o racionalismo – e positivos – o humanismo secular (HS), em específico a defesa dos Direitos Humanos. E levanta a dúvida sobre a ligação de cada um desses valores com a consideração aos DA.

Primeiro aborda o ceticismo mesclado com o antiabsolutismo moral típico da irreligião. Afirma a princípio que ainda é preciso que o indivíduo se subscreva a um código moral que exerça uma robusta força coercitiva para mudar hábitos essenciais como o consumo. Porém, é necessário esclarecer que hoje em dia o número de vegetarianos e veganos não vem precisando dessa coerção externa para crescer, mas sim da pura consciência ética, que hoje em dia [1] emana muito mais da própria pessoa, a partir da reflexão ético-filosófica com efeitos práticos, do que de coação por outrem.

Se há influência externa, não é uma influência vigilante e punitiva, como o texto parece vislumbrar, mas sim meramente educativa, baseada na exposição de fatos sobre a pecuária e a pesca e o questionamento dialético dos valores do carnismo (ideologia oculta que fundamenta o consumo de produtos derivados do corpo ou secreção de alguns animais), o que induz tanto ao choque entre o hábito e crença de consumo e a realidade como à ação socrática de “parir o conhecimento”.

Em seguida, coloca: “Na ausência de uma clara motivação para mudar algo tão básico, por que fazê-lo?” Clara motivação ou motivações é o que não falta, e ela(s) é(são) baseada(s) fundamentalmente na alteridade, aquela mesma que nos faz reconhecer os direitos e a dignidade de todas as outras pessoas, e, dependendo do indivíduo, também na compaixão e na empatia.

Se há pessoas que só pararão de consumir animais mediante coerção legal, isso não necessariamente diz respeito à conexão (ou ausência dela) entre o ateísmo antiabsolutista moral e os DA, mas sim à dificuldade e/ou resistência da pessoa de assimilar novos valores progressistas. Se esses indivíduos existem, isso não anula o fato de que inúmeros outros estão aderindo ao veg(etari)anismo ético sem a necessidade de qualquer controle social.

Em relação à frase seguinte, sobre a indiferença do ceticismo ético em relação a romper ou continuar com o especismo, ele por si só não induz à ruptura com a velha ética antropocêntrica, mas facilita muito, visto que, como dito, permite ao indivíduo a flexibilidade de adotar uma ética mutável e progressista, ao contrário de muitas religiões, que dificultam essa adoção.

Adiante, o autor mescla ceticismo científico e racionalismo e prossegue afirmando:
“Não somos levados aos hábitos alimentares por conclusões racionalistas, isto é, não comemos carne por entendê-la necessária. A decisão sobre o que comer – assim como muitas outras decisões de prática social – é pautada antes por valores culturais. Se a decisão fosse fortemente racionalista, comeríamos cachorros e gatos no ocidente com a mesma naturalidade com a qual comemos vacas e porcos; evidentemente, não é esse o caso.”

Não é o caso de milhões, ou mesmo bilhões, de pessoas. Para elas, a cultura per se não é o exclusivo indutor do consumo de animais. Há todo um aparato desinformativo, que vai desde o bombardeio aos telespectadores de TV e leitores de jornais e portais online com reportagens tendenciosas, sobre como o vegetarianismo seria uma dieta “que inspira cautela”, até as orientações errôneas antivegetarianas dadas por nutricionistas que desconhecem ou pouco sabem sobre o tema da Nutrição Vegetariana.

Isso sem falar nas campanhas alienantes que podem se tornar cada vez mais comuns, como o Serviço de Informação da Carne e o extinto Instituto Pró-Carne. Além dos preconceitos nutricionais de senso comum que ainda rondam entre a sociedade e motivam que, por exemplo, pais forcem seus filhos a comerem carne a contragosto ou vegetarianos que, mal orientados nutricionalmente, contraem alguma doença ou deficiência de ordem alimentar voltem ao consumo de animais.

Tudo isso induz as pessoas a crerem de fato que consumir animais seria essencial e não fazê-lo prejudicaria muito a saúde. E isso realmente inibe muita gente de se tornar vegetariana ou vegana e prestar um respeito mais abrangente pelos animais não humanos e os faz continuar comendo carne. São esses preconceitos e manipulações, pertinentes ao tema da Ciência e da Razão e não mais à cultura, que o ceticismo científico, em (futura) aliança com a militância veg(etari)ano-abolicionista, poderá confrontar e desmontar – aliás, já está fazendo-o, vide alguns artigos meus.

Continuando o texto, coloca-se que “encontram-se sim nos valores negativos do ateísmo majoritários motivos para abandonar a conduta onívora; mas, sem dúvida, encontram-se na mesma quantia motivos para abandonar a conduta vegetariana”. Este artigo de réplica desde já demanda ao autor da resposta a mostrar, de forma mais detalhada do que o exposto nela, quais seriam esses motivos para abandonar o vegetarianismo ou o veganismo enquanto hábito de consumo de orientação ética.

Na colocação seguinte, de que “[n]a questão moral, o ceticismo leva a entender a questão como uma escolha arbitrária”, isso é verdade. Mas o ceticismo também permite à pessoa concluir que uma das alternativas é mais coerente que a outra, mesmo ambas sendo defendidas com seus melhores argumentos possíveis. E a consequência lógica seria escolher a opção mais sensata.

Sobre a afirmação de que os animais “também não foram feitos para uma vida de fraternidade conosco”, ignora-se ali a qualidade deles de sujeitos morais. Não é necessário que nós seres humanos convivamos com eles em fraternidade, tal como a Bíblia cristã fala em Isaías 11:7 [2] sobre predadores e presas viverem juntos e em comunhão, mas sim simplesmente que os respeitemos em seu direito de não serem propriedade humana e em seus interesses individuais enquanto seres sencientes e deixemo-nos no seu canto, vivendo e morrendo ao sabor da Natureza.

O passo seguinte do texto é mudar para os valores positivos – no caso, o que é defendido pelo humanismo secular. É posto então que não há relação intrínseca entre, por exemplo, feminismo e oposição à pecuária, ou entre defesa de civis desarmados em zona de guerra e oposição ao morticínio de animais “de consumo”. Acontece que a conexão entre os princípios do HS e os DA não está na realmente questionável relação direta entre os temas defendidos por cada um, mas sim nos alicerces éticos de ambos. De tal maneira que o HS poderá, num futuro indeterminado, evoluir para Supra-Humanismo (ou outro nome que definisse melhor a nova ideologia pós-humanista), algo que defenderá simultaneamente os animais humanos e não humanos e o meio ambiente como um todo.

Ser humanista para com os animais não humanos da mesma forma que para com os humanos não é questão de exigência lógica, mas de coerência. Porque, reiterando o que foi dito no texto sobre AI e DA, é muito contraditório um humanista que já tomou conhecimento do direito dos seres sencientes de não ser propriedade crer que os princípios do HS, apesar de todas as semelhanças com os DA, não podem ser aplicados aos animais não humanos na medida das diferenças entre eles e os humanos [3].

O autor em seguida faz uma colocação relevante: o texto anterior não chegou a tocar na palavra especismo – justifico aqui que não foi necessário usá-lo. Prossegue afirmando, em seu último contra-argumento, que o termo em sua definição não diria por que é errado ser especista, colocando em seguida:

“Ainda se espera uma argumentação consistente que defenda a igualdade das espécies: até lá, a infâmia do especismo será algo altamente duvidoso. Além disso, como evitar um mínimo especismo? Mesmo os vegetarianos apenas alargam um pouco a lista de espécies que têm o respeito necessário para não serem comidas.”

É necessário esclarecer: a igualdade entre as espécies animais na filosofia abolicionista é determinada basicamente pela senciência, que é a habilidade de grande parte dos animais de sentir dor, sofrer, manifestar emoções e ter consciência de que está vivo e lhes confere interesses individuais ausentes em espécies e reinos não sencientes, como os de querer continuar vivo e não sofrer.

E a saber: vegetarianos e veganos não comem animais de nenhuma espécie. Se alguns ainda consomem laticínios e ovos e produtos não alimentícios com ingredientes de origem animal, é porque o vegetarianismo é a fase alimentar de transição ao veganismo, a qual começa no parar de comer animais mortos e se conclui no vegetarianismo estrito, que por sua vez realmente isenta o prato de qualquer alimento de origem animal.

Além disso, na grande maioria dos casos de escravidão animal, as espécies exploradas – como espécies de mamíferos, aves, anfíbios, peixes, moluscos e crustáceos – têm sua senciência já conhecida pelo ser humano. E o especismo, que nega os direitos desses animais enquanto seres sencientes e os rebaixa a objetos/produtos cujo sofrimento seria nulo ou irrelevante, “permite” que sejam explorados. Ou seja, ser antiespecista é mais fácil do que se imagina no senso comum.

Em relação a matar outros animais em certas situações em vez de considerá-los também sujeitos de uma vida, convém expor:
a) Insetos e outros animais menores são mortos por veg(etari)anos apenas quando representam ameaça à integridade físico-biológica dos humanos. Se matam pernilongos que voam no quarto, é porque algum desses bichos pode ser vetor de algum micro-organismo perigoso à saúde humana.
b) As mortes de animais rasteiros ou pragueiros na agricultura são contingenciais e inevitáveis, e não podem ser elevadas a uma questão de preocupação dos DA porque não dizem respeito a tratar animais como propriedade, mas sim a algo que (ainda) não pode ser evitado.

É de se reiterar que há conexões lógicas entre o ateísmo ideológico e os Direitos Animais. Um ateu-ideológico não é obrigado a se tornar veg(etari)ano e defender os animais não humanos contra a opressão, mas fazê-lo é parte da evolução e completamento de sua condição de racionalista, cético, humanista secular e opositor das “morais absolutas”.

Este artigo e o anterior, ao contrário do que o texto aqui respondido tenta argumentar em sua consideração final, não intencionam coagir os ateus-ideológicos e demais humanistas seculares. Mas sim questionar a condição ideológica daqueles que prezam pelo progresso ético, pela Razão, pela Ciência, pelo ceticismo e pelo HS mas negam respectivamente a inclusão dos animais não humanos ao progresso ético de nossa sociedade, defendem de forma passional o consumo dos mesmos, contrariam ou ignoram os cada vez mais numerosos tratados científicos apoiadores do vegetarianismo e da senciência animal, usam de falácias lógicas para defender o consumo de animais e têm seus hábitos baseados em valores opostos aos princípios do HS.

 

Notas:

[1] Fala-se “hoje em dia” neste artigo por se levar em consideração um provável futuro em que a produção e consumo de alimentos de origem animal sejam tornados crimes contra a vida animal, dada a perspectiva futura de politização da militância abolicionista.

[2] “A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi.

[3] Entenda-se como sendo essas diferenças, por exemplo, a inaplicabilidade de direitos civis e políticos e de alguns direitos humanos (como o à nacionalidade e ao asilo político) aos animais não humanos. O único direito que lhes fará a diferença é o de não ser propriedade, até porque este implica todos os demais direitos concernentes à relação unilateral humanos-não humanos – à vida, à integridade física, à liberdade, ao respeito a seus interesses individuais etc.

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11 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernando Cônsolo Fontenla

março 7 2012 Responder

Mikair

fevereiro 24 2012 Responder

Paulo, antes de tomar a ideia de “dor animal” como um dado, como se fosse algo inquestionável, talvez caiba questionar se faz sentido falar em dor se não há consciência de si. É isso que o Robson (e quinhentos mil veganos) tão falhando em fazer.

Paulo M N

fevereiro 24 2012 Responder

Eu acho que tem um pessoal que come esponja sim, não tenho certeza. Mas valeu pela resposta, obrigado mesmo.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 24 2012 Responder

    Intão =)

Paulo M N

fevereiro 24 2012 Responder

ática = ética.
Digitei errado.

Paulo M N

fevereiro 24 2012 Responder

Você afirma em seu texto duas coisas:
1 – o vegan não come NADa de origem animal, baseado na ática do DA

2 – O DA especifica que a não-morte de outros organismos deve ser baseada no princípio da senciência.

Se entendi certo, vagans não comem animais que tenham senciência. Pois bem, esponjas do mar não têm sistema nervoso, não têm sequer célular nervosas. Biologicamente falando, são impossíveis de sentir dor ou qualquer coisa que envolva sentidos de percepção-resposta. Ou seja, são animais, mas NÃO SÃO sencientes. Seria antiético, para um vegan, comer uma esponja do mar?

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 24 2012 Responder

    Paulo, considerando que a senciência é o parâmetro moral dos Direitos Animais e esponjas não sentem dor, não seria antiético comê-las. Só que, por coincidência, elas não são comestíveis pro ser humano ;-)

Mikair

fevereiro 23 2012 Responder

“a igualdade entre as espécies animais na filosofia abolicionista é determinada basicamente pela senciência, que é a habilidade de grande parte dos animais de sentir dor, sofrer, manifestar emoções e ter consciência de que está vivo” <- pelamor, isso tá TOTALMENTE ERRADO.

Mesmo que o conceito de senciência fosse algo que se sustentasse, não haveria motivo algum para pressupor igualdade entre espécies. Por que não caberia, dentro do conceito, falar em gradações ou matizes diferentes de senciência? Já seria o suficiente pra descartar igualdade. Ou seja, nem dentro do seu próprio paradigma, montado sobre o vapor da "senciência", você faz sentido.

Senciência não é consciência de estar vivo. Isso seria uma forma de consciência de si ou de autoconsciência, que é exatamente aquilo que veganos evitam. Senciência, como veganos a definem, é uma espécie de consciência perceptiva. É um conceito que, se submetido a escrutínio mais rigoroso, não se sustenta e vira um vapor de enviesamento e retórica furada. É uma tentativa tendenciosa de destacar e jogar no lixo da experiência de estar vivo qualquer concepção de consciência de si ou de autoconsciência, e daí pegar o que sobra e dar um nome. Senciência sem consciência de si é mera reatividade. É o que no linguajar popular se chama de "agir por instinto", apesar da expressão não ser tão precisa. Senciência não é sinônimo de subjetividade, e só faz sentido defender consideração moral para sujeitos, e não para máquinas ou zumbis.

Só faz sentido falar em "sofrimento" se existe alguma consciência de si, e consciência de si é exatamente aquilo do qual todo vegano que defende "senciência" foge e evita a todo custo. Só sujeitos podem sofrer. Se não há subjetividade, consciência de si, autoconsciência, senso de self, não cabe falar em sofrimento, e nem em dor na verdade.

Além disso, veganismo não tem nada a ver com ateísmo, e na prática não tem nada a ver com ser lógico, racional, sensato, iluminado ou prezar por ciência. Na ***PRÁTICA*** veganos são meia dúzia de revoltados agindo com o coração, e não com a cabeça, seguindo ou uma orientação anarquista ou esotérica, e descartando qualquer migalha de ciência ou razão do seu próprio discurso, que na verdade é uma sopinha de sentimentalismo. Você pode até tentar fundamentar essa sopinha de emoções com um temperinho de razão, e pode gastar longos anos da sua vida nessa tentativa. Mas uma vez que você reconhece que o princípio desse esforço é, sim, emocional (ou "patético", pra usar uma palavra mais afeita a você mesmo, que se demonstra exímio conhecedor de retórica), e que todo o esforço de racionalizar é secundário, não sobra muita coisa.

E vai por mim, depois de um tempo você cansa e percebe que é tudo bobagem.

Talvez isso ilumine um pouco. Nietzsche, sobre "cristo e anarquia", em Crepúsculo dos Ídolos.

Cristo e Anarquista. 

Quando o anarquista, enquanto a embocadura das camadas decadentes da sociedade, exige com uma bela indignação "direito", "justiça", "igualdade de direitos", ele não se encontra com isto senão sob a pressão de sua ignorância, a qual não sabe compreender o real porquê de seu sofrimento: – a qual não sabe compreender em relação ao que ele é pobre, à vida… Um impulso causal é nele poderoso: alguém precisa ser culpado pelo fato de ele se sentir mal… Também faz bem para ele a "bela indignação" mesma, é um prazer para todos os pobres diabos o maldizer: há aí uma pequena embriaguez de potência.  Já o reclamar, o queixar-se pode dar à vida um estímulo, em virtude do qual se a sustém: uma dose mais sutil de vingança está presente em toda queixa, se apresenta o seu sentir-se mal, sob certas circunstâncias mesmo a sua ruindade como uma censura àqueles que são diferentes, como se o ser diferente fosse uma injustiça, um privilégio inadmissível.  "Se sou um canalha, tu também tens de sê-lo": em função desta lógica faz-se revolução. – O queixar-se não serve em caso algum para algo: ele provém da fraqueza. o fato de se atribuir o seu sentir-se mal aos outros ou a si mesmo – o primeiro o faz socialista, o segundo, por exemplo, cristão – não faz propriamente diferença alguma.  O que há de comum, digamos mesmo o que há de indigno nisto, é que alguém deva ser culpado por se sofrer – em resumo, que o sofredor prescreva para si contra o seu sofrimento o mel da vingança.  Os objetos desta necessidade de vingança enquanto os objetos de uma necessidade de prazer são causalidades ocasionais: o sofredor encontra por toda parte causas para refrescar a sua vingança – se ele é cristão, dito uma vez mais, então ele as encontra em si… O cristão e o anarquista – ambos são decadentes.  Mas também quando o cristão condena, calunia, enlameia o "mundo", ele o faz a partir dos mesmos instintos, a partir dos quais o trabalhador socialista condena, calunia, enlameia a sociedade: o "juízo final" mesmo é ainda a mais doce consolação da vingança – a revolução, como a espera também o trabalhador socialista, apenas pensada um pouco mais distante… O próprio "além" – para que um além, se ele não fosse um meio de enlamear o aquém?…"

Gustavo Crivellari

fevereiro 22 2012 Responder

Robson, por considerar que minha resposta será curta, pretendo fazê-la aqui mesmo. Segue:

Em primeiro lugar, devo desfazer um mal entendido. Quando falei da ausência do termo “especismo”, me referia ao meu próprio texto.

Como fator mais importante, preciso te responder como o ceticismo poderia levar ao abandono dos hábitos vegetarianos. É, para mim, algo evidente: um indivíduo, ao aderir ao vegetarianismo, adere a um código moral. Se eventualmente ele sentir vontade de comer carne, o ceticismo fará com que seja mais fácil se livrar do código moral vegetariano. Dito isso, concluo: o ceticismo facilita o abandono de qualquer código moral – mesmo o humanismo. Um cético poderia dizer: “Mas que valor tem a vida humana?”, e não teríamos resposta alguma senão “é um valor arbitrário que damos a ela”. Ceticismo não implica em humanismo, não implica em vegetarianismo.

Por fim, noto que há uma questão moral muito pertinente no debate. De fato, você tem razão ao dizer que há desinformação sobre o vegetarianismo – também considero isso ofensivo. Porém, alerto que não é apenas um caso de informação, e sim um caso de adesão a um corpo de valores. Afinal, desde Nietzsche que a filosofia está armada com a noção de que não existem fatos morais, mas só a interpretação moral dos fatos.

Enfim, fico satisfeito que nessa réplica não seja mais citado o termo “imperativo ético”. Ademais, digo que ainda discordo que exista qualquer ligação de coerência entre ser humanista e vegetariano, bem como não penso que seja possível falar em “evolução” nesse sentido. É algo que não foi demonstrado.

Abraços,
Gustavo.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 22 2012 Responder

    Olá, Gustavo. Obrigado pela resposta novamente franca e cordial.

    Sobre o ceticismo, pelo que parece, você vê pelo lado do ceticismo filosófico, aquela escola que existe desde a Grécia Clássica. Mas minha abordagem desde o início foi em relação ao ceticismo científico, aquele que se dedica principalmente a refutar pseudociências, crenças e mitos – e não consegui perceber esse ceticismo científico na frase “Se eventualmente ele sentir vontade de comer carne, o ceticismo fará com que seja mais fácil se livrar do código moral vegetariano”.

    E eu não neguei que haja outras implicações além da questão do conhecimento preconceituoso na não adesão ao vegetarianismo – tanto que pus que a cultura não é o único indutor do carnismo.

    Em relação à ligação de coerência, creio que os meus dois artigos exemplificam essa ligação, mas alguns podem achá-los insuficientes para demonstrar isso.

    Abs

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