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Carnismo e (de novo) machismo em propaganda de cerveja

Esperar ética e inteligência de agências de publicidade que fazem propagandas de cervejas no Brasil é como esperar que chovam moedas de um real a partir das nuvens (sem que haja uma aeronave despejando-as). Pois está no ar mais uma propaganda de cerveja machista e, como novidade, alfacista. É a vez da Antarctica Sub-Zero (coitado do personagem de Mortal Kombat):

O enredo: Um “experimento científico” mostra numa tela como seria um churrasco com “cerveja normal” – cerveja que, num contexto vegano, seria a Heinekken, única cerveja largamente conhecida no Brasil que, até onde sei, não patrocina rodeios e vaquejadas. Tal churrasco seria vegetariano, apenas com análogos de pseudocarne vegetal (como pseudocarne de soja) e vegetais crus. Mas um sojasco (nome como também é conhecido o churrasco vegetariano) extremamente estereotipado, cheios de adereços hippies e indianos, dominado por calmaria, com pessoas agindo em atividades “monótonas” e dotadas de temperamento zen. O protagonista pergunta “cadê a carne” e o rapaz de cabelo encaracolado aponta para a mesa, onde há pseudocarne de soja, para o evidentíssimo desgosto do primeiro.

Então o “experimento” ativa o “processo Sub-Zero”, e a cena passa para um “churrasco com Antarctica Sub-Zero”, onde a carne realmente deriva da pecuária, a cena é animada ao som de funk, todo mundo dança animado e há mulheres “gostosas” “ilustrando” o cenário. O de cabelo encaracolado, presumidamente vegetariano, pergunta: “E as frutas que você falou que ia ter?”, a que o protagonista responde apontando para três “mulheres-fruta” e retruca: “E aí, gosta da fruta?”. Nesse instante é possível ver no de cabelo encaracolado uma cara meio aversiva. E então o comercial acaba mostrando as cervejas.

Além do tradicional machismo de explorar visualmente a figura da mulher-objeto que no contexto serve quase unicamente de deleite visual dos homens, a propaganda explora um alfacismo sutil e indireto, diferente do tradicional alfacismo de internet ofensivo, reacionário e de argumentação falaciosa. A versão publicitária de alfacismo usa a mesma estratégia que a Globo usou no ano passado: exibir vegetarianos de forma maliciosamente estereotipada e negativa, transmitindo a mensagem de que ser vegetariano seria ruim e inspiraria comportamentos indesejados pela sociedade – e reforçando-a na mentalidade coletiva, ainda que não necessariamente com convencimento direto.

E também é possível interpretar uma ligação sutil duplamente preconceituosa entre vegetarianismo e homossexualidade masculina, dada a feição do rapaz de cabelo encaracolado ao ver as “mulheres-fruta” – aqui parece passar-se a mensagem de que vegetarianismo e homossexualidade masculina seriam intimamente relacionados e reforçar que ser gay é “ruim” e “contra os valores” da sociedade.

Dessa vez não tenho esperança de que o CONAR vá sustar o comercial e advertir o anunciante, uma vez que não fizeram nada (o Carnaval passou, a propaganda foi livre e impunemente veiculada e ela não foi julgada pelo conselho, pelo menos ainda) em relação ao comercial ainda mais machista da Operação Skol Folia. Portanto, a solução é protestar para a agência publicitária AlmapBBDO, autora de mais esse comercial de bebida alcoólica descomprometido com a responsabilidade ético-social: Site, Facebook (Grupo 1 e Grupo 2) e Twitter.

imagrs

7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Bárbara

abril 13 2012 Responder

PS: Só agora vi o link ali, no último parágrafo, rs. Obrigada Robson, novamente, pelo ótimo serviço realizado! :)

    Robson Fernando de Souza

    abril 13 2012 Responder

    hehehehe Dinada, Barbarinha ;-)

Bárbara

abril 13 2012 Responder

Alexandre, qual é a empresa que fez tal propaganda? Você pode me mandar um link? Quero mandar minha reclamação também.

Quando será que vão parar de estereotipar para conseguir ter criatividade numa propaganda? AFÊ! Quando vi tal ‘comercial’ pela primeira vez fiquei impressionada em quantos jargões conseguiram usam em 30′: machismo, alfacismo e até homofobia (que não tinha reparado antes até ler este post)?

Ah vá viu! É muito mal gosto para apenas meio minuto…

Vãnia Rodrigues

março 26 2012 Responder

Foi uma falta de sensibilidade sem precedentes… Numa época em que se prega a abstinência de carne pelo menos um dia na semana, uma agência de propaganda – local em que se presume a existência de pessoas inteligentes e antenadas, mostrando total ignorância sobre como é levar uma vida saudável sem impor sofrimento a outro ser – vincula a figura estereotipada de um rapaz sem cor e totalmente sem graça, como se fosse ele alguém que sofresse de alguma moléstia pelo simples fato de ser vegetariano. Sintam-se envergonhados, isso é lamentável e muito triste…

Alexandro Serratine da Paixão

março 24 2012 Responder

Caro moderador boa noite! Li os comentários sobre o churrasco vegetariano e só tenho a lamentar pela propaganda.

Deixei a seguinte mensagem no “contato” do site da agência:

“Prezados boa noite! Faço contato com o objetivo de criticá-los. Isso mesmo! Soube que a sua agência é a responsável pelo comercial do “churrasco vegetariano” e só tenho a lamentar, pois o preconceito veiculado, além de despropositado é ofensivo aos que não apreciam carne. Lamento e assino embaixo. Obrigado”

“Lá” (no site), os caracteres são limitados, mas cada um pode e deve fazer um pouco e que esse pouco signifique mais respeito.

Era isso!

Sucesso!

Obrigado!

Alex.

Vivian Fiorio

março 23 2012 Responder

Bom saber que não estou sozinha, a primeira vez que vi esse show de clichês fiquei de boca aberta. Um sem número de cenas elaboradas de forma estupidamente preconceituosa, me admira (nem tanto) que o comercial não tenha saído do ar.

Atila

março 16 2012 Responder

Lamentável, MUITO lamentável. Já enviei a minha insatisfação e reclamação – por ter me sentido discriminado e julgado pejorativamente porque sou vegetariano – ao CONAR. Também tenho incitado meus amigos, vegs ou não, a me apoiar neste reclamação. Vamos aguardar…

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