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As limitações de “Terráqueos”

O filme Terráqueos (Earthlings) merece todos os méritos por ser, desde 2006, um grande meio de divulgação dos Direitos Animais e do veg(etari)anismo e um grande introdutor dos leigos ao assunto. Porém, nenhuma obra deve ser isentada de avaliação e críticas. Este artigo não pretende desqualificar e desmerecer o documentário, mas apenas expor algumas limitações dele de modo que futuras obras cinematográficas de conscientização passem a observar os pontos referidos.

Alguns pontos acabaram ausentes e outros foram abordados de um ponto de vista um tanto bem-estarista. Estão descritas abaixo as 12 limitações mais visíveis de Terráqueos:

a) Foco excessivo em violências óbvias (físicas e psicológicas)
Há uma preocupação enorme em se mostrar a violência propriamente dita contra os animais em diversas atividades, mas é perceptível que se foca excessivamente nas violências física e psicológica, pouco se falando de outras formas de violência especista. Quase não se cita diretamente a escravidão animal, o tratamento de animais como propriedade e as violências mais tendentes ao simbólico – como, por exemplo, o tratamento de animais como mercadorias, a pecuária extensiva, o aprisionamento de animais em aquários.

Percebe-se que o documentário tem um viés muito consequencialista, abordando muito mais as consequências da exploração animal do que a exploração em si e evitando-se tocar em outras partes da raiz das agressões flagradas que não o especismo, como a proprietarização da vida senciente.

b) Eutanásia
Terráqueos deixa a entender que defende a “eutanásia” baseada em injeção letal como forma de controlar a população de animais abandonados, descrevendo-a como “humanitária” e praticamente lamentando que ela não seja o método predominante de extermínio de animais de rua.

c) Sem relação entre abandono de animais de estimação e mercantilização da vida
O filme fala (um pouco) do abandono de animais e da situação dos pets criados em “fábricas de filhotes”, mas não liga os dois pontos. Faltou ali uma relação clara entre o costume de abandonar animais que “não servem mais” e o de tratar bichos como mercadorias cuja “utilidade” como provedores de afeto pode ser trocada por dinheiro, mesmo existindo essa ligação.

d) Ausência da pecuária extensiva
Fala-se muito dos métodos abusivos da pecuária intensiva e da semiextensiva, mas a extensiva, predominante em grandes países pecuaristas com o Brasil, acabou sendo ignorada. Há maus tratos na criação extensiva, e a denúncia dos mesmos poderia fazer muitos habitantes de países ricos nesse tipo de pecuária (como os brasileiros) repensarem sua alimentação, mas o documentário infelizmente deixou de mostrá-las.

e) Fala de abate Kosher mas não de Halal
Terráqueos falou do abate Kosher, que oferece carne para judeus, mas nada falou do Halal, o abate ritual que oferece a carne consumida pelos muçulmanos. Essa falta deixou de plantar em muitos muçulmanos onívoros a empatia pelos animais explorados e mortos pela pecuária.

f) Nada de desmama
Uma das violências mais absurdas existentes na pecuária é justamente a desmama precoce, quando os pecuaristas roubam os filhotes de suas mães, confinam os primeiros muito longe delas e os obrigam a uma alimentação adulta, o que geralmente acontece meses ou semanas antes do que seria a desmama natural. Há casos, em especial nas criações leiteiras, em que a desmama é forçada a poucos dias de vida dos filhotes.

Mas o filme acabou omitindo essa parte, que seria ótima para convencer as pessoas de que a produção de leite também é algo essencialmente cruel, não só por exaurir e matar as mães “fornecedoras”.

g) Descorna apenas mecânica
O documentário fala apenas da descorna mecânica em animais adultos. Deixou de falar de outros métodos, como a mutilação cirúrgica de adultos – muitas vezes realizada sem anestesia – e o amochamento de animais jovens – realizado no Brasil com métodos dolorosos como introdução de soda cáustica e cauterização a ferro em brasa. Alguns poderiam assim pensar que o amochamento seria um “progresso do bem-estar animal” na pecuária.

h) O momento em que fala sobre a senciência dos peixes; a omissão da senciência dos crustáceos e moluscos
Poderia ter-se falado da senciência dos peixes logo quando o assunto abordado foi “frutos-do-mar”, mas ficou parecendo que o problema ético da pesca de fins alimentares seria apenas o enorme peso ambiental da atividade. Falou-se da sensibilidade desses animais à dor apenas na parte da pesca “esportiva”, o que deixa parecer para muitos que pescar com vara para transformar os peixes em alimento humano seria algo aceitável.

Além do mais, nada se falou da senciência dos crustáceos e dos moluscos cefalópodes (ainda há uma polêmica em relação à dos bivalves), animais também muito pescados para fins alimentares. Essas duas omissões acabam transmitindo para muitos a impressão de que comer animais aquáticos de fontes certificadas como “sustentáveis” seria eticamente válido.

i) Produção de penas
Faltou falar da produção de penas, que de fato explora muitas aves ao redor do mundo. Hoje é dificílimo encontrar penas sintéticas no mercado, e uma denúncia por parte de Terráqueos ou outro documentário poderia impulsionar muitas pessoas, veganas ou não, a demandar do mercado a produção e venda desses itens.

j) Omissão dos parques aquáticos que exploram cetáceos
Uma das formas mais conhecidas em muitos países de se explorar animais por entretenimento é o uso de cetáceos, em especial golfinhos, orcas e baleias, em apresentações que se assemelham muito às de circos. Os bastidores desse tipo de exploração poderiam ter sido mostrados em Terráqueos – o que sensibilizaria, por exemplo, os americanos, que possuem vários Sea World em seu território.

k) As maiores vítimas da vivissecção foram as menos focadas; pouco foco no aprisionamento
Mesmo correspondendo atualmente a mais de 99% das vítimas dos experimentos científicos in vivo, os ratos e camundongos foram muito pouco focados pelo filme. Cometeu-se a falha de priorizar justamente os animais “carismáticos” – cães, gatos, coelhos e primatas não humanos. As maiores e mais numerosas vítimas tiveram muito pouca atenção, aparecendo apenas em poucas imagens. Pareceu ao documentário que os roedores, por não serem tão despertadores de paixões nas pessoas, não mereciam tanta atenção assim, mesmo correspondendo esmagadoramente ao maior número de animais explorados e mortos em laboratórios.

Além disso, o consequencialismo do filme ficou visível ao se mostrar quase que somente as feridas e violências óbvias proporcionadas por esse tipo de pesquisa experimental. Pouco se focou no segundo grande aspecto da vivissecção: o aprisionamento perpétuo de animais. Não se falou do problema que é manter aqueles animais presos desde o nascimento em biotérios, privados para sempre de liberdade ou mesmo de “soltura”. Nem dos casos em que primatas são ou eram capturados em seus habitats naturais para serem torturados em laboratórios.

l) O que fazer? O filme não diz
Para muitos é claro, sem se fosse necessária uma mensagem explícita no documentário, que a solução mais prática para que se acabe tudo aquilo que foi visto na tela é tornar-se vegetariano e, em seguida, vegano. Mas faltou a mensagem expressa para aqueles cuja ficha não caiu na hora. Muitas pessoas devem ter se sentido impotentes diante daquilo tudo. Aliás, mesmo telespectadores já veganos podem ter se sentido assim, uma vez que perceberam que o veganismo nem de longe é a solução para tudo aquilo. Não se sugeriu ali nada em relação a aderir à militância animal.

***

Essas omissões não tornam Terráqueos menos importante na divulgação da causa animal e do veg(etari)anismo, tampouco o fazem menos recomendável nesse intuito. Entretanto, são pontos que os próximos comentários deverão divulgar, lacunas que precisam ser preenchidas num futuro próximo pelas entidades de defesa dos Direitos Animais e do veg(etari)anismo. Esse reforço tornará o abolicionismo mais visível e compreensível para as pessoas que ainda estão se introduzindo na causa animal.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Antonio Matienzo

novembro 10 2015 Responder

Primeiramente parabenizo o estudo publicado aqui, considerando tudo o que faltou para deixar o documentário basicamente completo. Nisso, esse artigo é perfeito. Porém, respeito infinitamente o documentário, e imagino o quão difícil deve ter sido deixar um sem-fim de situações e cenas num formato de apenas 108 minutos. Tudo que foi mencionado aqui seguramente é do conhecimento dos autores, mas se fosse incluído na versão final, a prolongaria em pelo menos meia hora o filme mais doloroso se assistir de todos os tempos. Talvez completo fosse menos assistido. Talvez completo fosse assistido de forma incompleta. Honestamente, eu não coloco ressalvas no trabalho feito. Voltaire disse que “o segredo de se aborrecer é falar tudo “. Terráqueos já faz o seu trabalho. É preciso confiar minimamente ma inteligência das pessoas, senão estaremos cometendo um grande erro. Se um muçulmano puder ser influenciado com o argumento anti-especista através desse filme, certamente ele irá se informar sobre o abate Halal. Se um turista que vai a Orlando puder ser influenciado com as cenas de tortura no adestramento de elefantes, ele vai ficar muito desconfiado com o que é feito com as Orcas. A maior parte do nosso conhecimento não vem de informações, mas de conclusões.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 10 2015 Responder

    Concordo integralmente com você, Antonio. Terráqueos, mesmo não sendo um documentário “completo” nesse sentido, já faz um grande trabalho de conscientização. Sem ele, o mundo teria talvez milhões de vegans e vegetarianos a menos hoje. O apontamento de limitações teve como objetivo estimular que futuros documentários supram essas lacunas, e não detratar o Terráqueos ou diminuir o valor dele pra causa animal.

Pedro Arboés

abril 28 2012 Responder

Acho muito bom o documentário, apesar de existir muitas omissões é excelente para mostrar àqueles que desconhece imagens realistas da indústrias e que pensam que é como nos desenhos animados que os animais ficam pastando no campo felizes da vida. Uma dúvida: Os Sea World sempre tratam mal o animal em treinamentos? Existe formas de treinamentos éticos? Esses 2 questionamentos também vale para circos e experimentos (se existe experimento ético).

    Robson Fernando de Souza

    abril 28 2012 Responder

    As acusações majoritárias são em torno da escravidão mesmo, de privar os animais da liberdade de locomoção, do seu habitat e do exercício de seus instintos. Isso em si já é o suficiente pra tornar a exploração de cetáceos em parques aquáticos algo antiético.
    Não existem formas de treinamento ético nem pesquisas in vivo éticas.

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