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Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas: mundo sem religião X mundo com religião

Atualizado em 27/08/12

A partir de hoje, tão logo eu encontre uma imagem antirreligiosa que apele para a desonestidade intelectual e o preconceito contra religiões e religiosos, passarei a desmentir esse tipo de imagem aqui no Consciencia.blog.br. Não é fomentando preconceito contra religiões e religiosos que nós ateus conseguiremos extirpar da sociedade o preconceito contra ateus. Divulgar o tipo de imagem a que me refiro só irá criar mais um motivo para os ateus terem seu filme queimado e serem ainda mais vítimas de preconceito.

A imagem de hoje é essa abaixo:

A imagem em questão apela para uma falsa dicotomia maniqueísta, em que um mundo sem religiões seria obrigatoriamente um paraíso, o reduto do Bem, e um mundo com religiões seria necessariamente “um mundo cheio de ódio”, guerras, matanças etc., o reduto do Mal.

É de se perceber que muitas, senão todas, as imagens antirreligiosas, a exemplo da figura acima, consideram como a “religião padrão” o trio abraãmico (cristianismo, islamismo e judaísmo), religiões que de fato acabaram servindo – e até hoje servem – de estandartes para muitos crimes contra a humanidade. A figura em questão, aliás, possivelmente incluía em sua concepção o hinduísmo – enquanto instituidor de castas – e religiões pagãs antigas que veneravam deuses da guerra e demandavam sacrifícios humanos. Mas acontece que, na abordagem acima, todas as religiões, mesmo se tendo tentado fazer uma ressalva, acabam caindo no mesmo saco das “religiões violentas”, incluindo religiões de caminho (budismo, taoísmo, hinduísmo, xintoísmo etc.), crenças religiosas sincréticas que têm a paz e o respeito às diferenças como dois dos seus pilares éticos centrais e as vertentes pacifistas do cristianismo e do islamismo.

Deve-se esclarecer: um mundo sem religiões não é igual a um mundo pacífico e harmonioso. Irreligião não é um atestado de santidade humana. Uma humanidade que tenha despojado de si todas as religiões existentes (organizadas ou não) ainda teria muito o que sanar para se tornar uma humanidade pacífica e equilibrada. Nada impediria que ideologias seculares violentas continuassem existindo, a exemplo do socialismo histórico do século 20 e de versões seculares do nacionalismo de extrema-direita.

Além disso, um mundo sem religiões não implicaria um mundo sem preconceitos. Continuaria existindo etnocentrismo, especismo, machismo, gerontofobia, gordofobia, homofobia (ainda que em escala muito menor, mas dessa vez associada mais ao machismo do que aos antigos valores religiosos), racismo, preconceitos regionais, xenofobia etc. O fim das religiões não implicaria o fim das tradições socioculturais escoriosas que durante séculos ou milênios tornaram as sociedades humanas tão apegadas a preconceitos. Uma evidência muito forte disso é a existência hoje de uma parcela nada desprezível de ateus machistas-misóginos, homofóbicos e mesmo racistas e xenófobos.

E também não se acabariam os interesses econômicos escusos por partes de pessoas muito ricas, empresas e Estados, interesses esses que costumam legitimar guerras e sistemas opressivos (como o próprio capitalismo em si).

Além do mais, a ilustração de guerra na figura não condiz com os fatos: nenhuma das duas figuras de guerras remete a conflitos motivados por intolerância religiosa. Com destaque à famosa figura da menina queimada na Guerra do Vietnã, conflito esse que envolveu tudo menos provavelmente diferenças religiosas. Vê-se assim um desconexo apelo à emoção e a indução ao erro, pelo qual todas as guerras, mesmo aquelas motivadas por interesses geopolíticos e econômicos, seriam fundamentadas por “religiões violentas”.

Por outro lado, a religião, em sua definição de (re)ligar pessoas a(os) Deus(es) e/ou orientá-las a caminhos de retidão ético-moral, nunca foi intrinsecamente significado de obscurantismo, dominação rebanhista por parte de sacerdotes, sectarismo, dogmatismo e beligerância. Há religiões pacifistas e tolerantes por excelência, o que inclui diversas religiões orientais (como o budismo), (neo)pagãs, indígenas e sincréticas. Muitas religiões, como as dhármicas, podem ser seguidas simplesmente trilhando-se um caminho de retidão ético-moral descrito pela sabedoria espiritual-filosófica trazida por suas obras literárias, sem que seja necessário cultuar divindades contraditórias, ter medo de punições pós-morte e se submeter ao controle psicológico por parte de clérigos. E mesmo religiões organizadas, como o cristianismo, têm caminhos/vertentes alternativos que permitem o livre uso da Razão – mesmo para duvidar da existência de Deus -, o respeito a todas as diferenças e a insubmissão ideológica.

Por fim, a ressalva feita na base da imagem, além de mal escrita, contradiz o argumento-base do panfleto. A dicotomia da imagem é claríssima, e a ressalva invalida a mensagem passada – segundo esse asterisco nos permite concluir, um mundo com certas religiões pode sim ser um mundo de paz e respeito, e “mundo sem religiões” não é igual a “mundo com algumas religiões”, logo a figura é falseada por seu próprio rodapé.

Esse tipo de dicotomia maniqueísta que conflita o “ateísmo santo do bem” contra a “religião belicista e odienta do mal” corre o risco de se passar por desonestidade intelectual, acaba jogando a categoria inteira de ateus e demais irreligiosos contra a dos religiosos e também semeia no meio ateísta o preconceito contra religiões e religiosos. E isso está muito longe de trazer paz ao mundo – tudo o que trará é ainda mais sectarismo e intolerância mútua.

imagrs

15 comentário(s). Venha deixar o seu também.

José Franco Silveira

agosto 9 2016 Responder

No meu ver acho que todas as lendas históricas desde suas primeiras escritas foram por meras inspirações.de um ser humano.Dessas inspirações nasceram várias religiosidades cada uma com suas interpletações, e assim cada uma delas ensinaram os seus pontos de vista para as crianças que nasceram dentro deste parecer. Se é cristão ou não um rumo foi assim seguido.Não quero inculcar ninguém neste meu parecer, pois cada um têm sua idéia formada.Para o meu modo de pensar, a verdadeira razão da vida ainda não foi desvêndada. A inteligência superior que comanda este imenso universo ainda não se manifestou sobre a razão dessa nossa vida. A fé é uma esperança criativa que nos seres humanos produziu. Mas a realidade disso tudo, pelo que eu sinto ainda não foi bem esclarecida.Então procuro viver neste meu isolamento a procura infinita da mais pura verdade.Me isolo porque os meus pensamentos não confere com a maioria dos meus parceiros de vida que aqui se instalou.

Teixeira de Sousa

janeiro 15 2016 Responder

As religiões deixam as pessoas idiotas.

Ana Augusta

agosto 20 2015 Responder

Comentário que misturava cristocentrismo e pregação religiosa apagado. Respeite as (des)crenças alheias e o direito de não cristãos de permanecerem não cristãos. RFS

RITA DE CASTRO

junho 10 2015 Responder

A RELIGIÃO , ELA CAUSA GUERRA. O IDEAL É PODER OLHAR A NATUREZA E PERCEBER Q. EXISTE UM ÚNICO CRIADOR. AS PESSOAS DE TODO MUNDO SÓ PRECISA DE (FÉ ) MAIS É TD COMERCIO E GUERRA. EU…

Romario

novembro 17 2014 Responder

meu caro em verdade o que voce esta apresentando não é intolerancia religiosa e sim cultural como voce mesmo disse não são todas, mas te digo o seguinte, são poucas que cometem atrocidades em comparação as que praticam benevolencias sociais, acredito que você deva reconsiderar suas escritas religio-fóbicas, pois o seu preconceito está tentando combater preconceito e não sua razão para combater o preconceito e o crime não devemos usar as mesmas armas, ou nos toirnaremos semelhantes aos nossos opressores.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 17 2014 Responder

    Romario, acredito que você respondeu a outra pessoa. Mas se foi a mim, sinto em dizer que você não entendeu direito o propósito desse post, que é justamente desmontar argumentos antirreligiosos preconceituosos, e não fomentar a repulsa às religiões.

Camila Simões

dezembro 5 2013 Responder

Na verdade, por mais que você tenha mencionado a contradição, creio que compreendi o que o panfleto quis passar, neste ponto.
Obviamente usaram o termo “religião” de forma ampla, a principio, e depois fizeram uma ressalva para demonstrar que, na verdade, se referiam apenas às religiões que se enquadrem nos requisitos.
Creio que a intenção foi apenas de que a frase não perdesse a força, pois, ao colocar na parte do contraste “algumas religiões” a mensagem perderia a força, o que não acontece colocando uma ressalva.

Além disto, concordo plenamente que um mundo sem religião não resultaria necessariamente num mundo sem todos os problemas que encontramos. Mesmo porque não sabemos o que seria um mundo sem religião.

Alguns países acreditaram que um mundo comunista seria melhor do que um capitalista e, posteriormente, voltaram a ser capitalista, pois os problemas aumentaram. O contrário também é válido.

No meu ponto de vista, a ideia de não ter religião (é claro, naturalmente) demonstraria menor ignorância por parte da população e isto sim poderia gerar melhorias. Mesmo porque, existem pesquisas (ainda precisam ser reafirmadas) que demonstram que ateus são mais benevolentes, que países com menor índice de religiosos (no sentido amplo) são mais desenvolvidos, enfim…

É claro que ai teríamos que lidar com a ideia de “só tenho uma vida”. Mas, de qualquer forma, todo o preconceito gerado por conta das religiões seria excluído. Provavelmente, ainda o teríamos, como você mesmo disse, mas em números bem menores. De qualquer forma, é uma bagagem bem grande de problemas acarretados.

Mas ao final, de fato, acabar com a religião não consiste em acabar com os problemas.

carlos

novembro 27 2012 Responder

A grande verdade, seja política, religiosa, esportiva, cultural, que é inato do ser humano, ser dono da verdade! ateus não se desentendem só com religiosos, mas com ateus também, e vice e versa, assim como torcida oranizada, no fundo todo ser humano é feito de EGO! todos querem se expressar

tayna

outubro 8 2012 Responder

que crueudade eh claro que temos que ter religião oq temos que ter mesmo eh que respeitar a religião de cada um …

    Robson Fernando de Souza

    outubro 8 2012 Responder

    Não “temos” que ter religião. A pessoa tem religião se assim acreditar que é melhor.

Gabriel Batista

agosto 26 2012 Responder

Não acho que um mundo sem religião possa diminuir ou aumentar a violência, a não ser se nós estivéssemos falando do Oriente Médio, onde há conflitos de grupos religiosos armados todos os anos, um mundo sem religião melhoraria o vida do povo de lá.Um mundo sem religião não iriamos ter inquisição e muitas outras coisas absurdas que a religião fez, a igreja católica neste caso.Sou ateu, e não vejo importância da religião e das igrejas no mundo, não precisamos delas, pois religião qualquer ou deus qualquer ou igreja qualquer não vai fazer que um mundo seja menos violento ou mais, a não ser dos casos citados anteriormente, o que eu quero falar é que moral não vem das religiões e o bem e o mal não vem delas também, um mundo sem religião poucas coisas iriam melhorar, como as guerras do oriente médio e preconceitos, mas não existe um ponto positivo nas religiões, por isso nós ateus acreditamos que a religião não tem importância para o mundo, ela não é precisa, o mundo com certeza seria um pouco melhor sem ela, é só você pensar na sociedade e você verá que religião alguma é precisa.

Evanildo

junho 1 2012 Responder

Olá, amigo.

Gostei bastante dessa reflexão. Desejo apenas tecer um ponto em especial.

Ocorre que não é a PRESENÇA da religião que torna as guerras possíveis. É a diferença e COMPETIÇÃO entre elas! É o FUNDAMENTALISMO FANÁTICO! Veja que eu digo fundamentalismo FANÁTICO, pois não há nada de errado em ser fundamentalista, ao contrário do que aprendemos desde 11/09/2001!

O fundamentalista preza pela manutenção dos fundamentos da religião. O fundamentalista fanático quer fazer o outro engolir, mesmo a contragosto, os fundamentos de sua fé! O fanático quer eliminar a concorrência!

Durante a História – e a Revolução Francesa é o mais eloquente quadro – a ausência de religião tornou os seres humanos tão ou mais violentos e os animalizou tanto ou mais que os resultados do fanatismo religioso. Lembre-se que a onda de ateísmo que surgiu à partir da RF foi uma resposta ao fanatismo cristão por meio do catolicismo durante 1260 anos de Idade Escura! Ou seja, a resposta surgiu tão violenta quanto!

Com ou sem religião, o ser humano pode conceber cada vez mais formas de brutalizar-se e ao outro! Ponto passivo é a necessidade que a espécie humana tem de se ressocializar, re-humanizar-se, reaprender as bases da tolerância, do convívio com os que pensam diferente. Quando isso ocorrer -se ocorrer – a religião ou ausência dela, não terão importância!

Abraços e parabéns pelo texto!

    Robson Fernando de Souza

    junho 1 2012 Responder

    Obrigado pelo comentário e pela apreciação, Evanildo =) Concordo integralmente contigo ;-) Abração

Bárbara

abril 24 2012 Responder

Tenho visto cada vez mais esse tipo de imagem nas redes sociais e o que penso é que se está reproduzindo o mesmo comportamento de intolerância que os próprios ateus criticam nas religiões. Outra coisa que cresce é a mensagem de que os ateus se livraram da alienação da religião, como se toda religião fosse dogmática e todos os religiosos seguissem cegamente e irrefletidamente esses dogmas.

Não se pode atribuir a violência do mundo apenas às religiões, já que salvo raras exceções, ela surge de atos totalmente contrários ao que estas pregam. Se todos os cristãos seguissem a Bíblia, por exemplo, as grandes guerras mundiais não teriam acontecido…

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