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Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas: o “buraco científico” da Idade Média

Editado em 24/05/2015 às 15h14

A figura acima, comumente compartilhada em fóruns e páginas antirreligiosas/neoateístas de redes sociais, como a da ATEA, traz uma maneira falaciosa e ingênua de abordar o conflito histórico entre ciência e algumas denominações cristãs. Segundo ela, houve um crescimento linear exponencial da Antiguidade egípcia e greco-romana, que teria sido interrompido e “derrubado” pela ascensão do cristianismo na Europa.

O cristianismo teria mantido a ciência, aparentemente definida com o conceito oriundo da época de Galileu Galilei, Francis Bacon e René Descartes e reforçado pelo positivismo, num “nível” mínimo, até que a Renascença (leia-se a atuação dos “pais fundadores” da ciência moderna) teria iniciado um crescimento explosivo e cada vez mais intenso dessa ciência ao longo dos séculos seguintes.

A crença manifestada na imagem é muito ingênua, e cai em diversas falácias, omissões e romantizações, sobre o conceito de ciência que vigorou nas diversas civilizações, a evolução da ciência ao longo dos séculos, a maneira de “medir” essa evolução, a interferência do catolicismo pré-Reforma Protestante na ciência medieval, os avanços científicos nos séculos seguintes à Renascença, a própria relação entre cristianismo e ciência e também a visão de quem fez a imagem sobre o que era o mundo humano em sua diversidade de civilizações.

A figura comete muitos equívocos, como os seguintes:

1. É profundamente eurocêntrica, deixando a entender que o mundo pré-capitalista inteiro se resumia a Egito e Europa;

2. Deixa a entender que a “ciência universal” só se desenvolvia em apenas uma civilização por vez, como se não houvesse paralelamente uma ciência mesopotâmica se desenvolvendo paralelamente à ciência egípcia, à chinesa, à grega, à indiana, à das diversas civilizações africanas subsaarianas, à meso-americana, à andina etc.;

3. O critério de “avanço científico” usado na imagem é obscuro e escorado nas crenças e vieses subjetivos, claramente neoateístas, lineares, iluministas, positivistas e anticristãos, da pessoa que a fez;

4. Induz ao erro ao deixar parecer que o conceito e método de ciência teriam sido os mesmos ao longo de toda a história humana, mesmo variando-se as civilizações e épocas. Deixa a entender que a ciência dos egípcios antigos e dos romanos veneradores de Júpiter, Vênus e cia. teria sido conceitual e metodologicamente a mesma dos pesquisadores do CERN e da NASA;

5. Não deixa claro se no “avanço científico” também se incluem os avanços tecnológicos, de engenharia;

6. Dá a ideia de que houve um desenvolvimento linear e uniforme entre os avanços egípcios, gregos e romanos. É como se harmonicamente, por exemplo, o desenvolvimento científico egípcio tivesse crescido ininterruptamente até o ano 700 a.E.C. e, exatamente naquele ano, o Egito Antigo tivesse deixado de existir e os gregos tivessem começado a desenvolver essa ciência pegando tudo o que havia de conhecimento científico dos “recém-extintos” egípcios, aperfeiçoando essa ciência egípcia e convertendo-a em “ciência grega”.

E é como se o mesmo tivesse acontecido dos gregos para os romanos, sem a possibilidade de haver um desenvolvimento científico próprio dos romanos anteriores a 100 a.E.C. paralelo ao desenvolvimento da ciência grega;

7. Ignora a interferência de acontecimentos históricos que perturbassem a suposta estabilidade do desenvolvimento científico dos três povos pré-cristãos, como guerras, secas e outras catástrofes;

8. Ignora por completo os avanços científico-tecnológicos de todas as demais civilizações – árabes, chineses, dos povos africanos subsaarianos, meso-americanos, andinos, dos ameríndios do território hoje brasileiro, dos povos mesopotâmicos, persas, indianos, dos povos da Oceania etc. É como se toda a ciência do mundo fosse unicamente a ciência dos egípcios e das civilizações europeias mais avançadas (gregos antigos, romanos politeístas, ingleses, franceses e alemães);

9. Induz ao erro, ao deixar a entender que a cristianização do Império Romano teria aniquilado – por meios como a queima generalizada de livros e destruição de máquinas de engenharia – absolutamente tudo o que os gregos e romanos tinham desenvolvido desde o ano 700 a.E.C. Ignora que não só o catolicismo romano e medieval não chegou a promover toda essa destruição e com tamanha magnitude, como muçulmanos medievais salvaram do fanatismo cristão da época incontáveis obras e engenhos da Grécia e Roma antigas;

10. Ignora que existiram sim muitos avanços científicos durante a Idade Média, inclusive na Europa, havendo inibição desse desenvolvimento apenas para algumas descobertas e teorias que contradiziam os dogmas católicos. Alimenta preconceito contra o desenvolvimento medieval da ciência e da tecnologia;

11. Afirma erradamente que a dominação católica da Europa teria estagnado por completo a ciência no continente – e no mundo inteiro, englobando também o mundo islâmico, a Escandinávia viking, a China, a África não islâmica, a América Central, a Oceania e muitos outros locais que não foram invadidos por cristãos durante a Idade Média.

Ignora que, por exemplo, muitos cristãos, muçulmanos e judeus foram fundamentais no desenvolvimento da ciência medieval e os polímatas (intelectuais multidisciplinares) muçulmanos foram fundamentais para a preservação e manutenção de parte do desenvolvimento científico no Velho Mundo;

12. Ignora os enormes avanços tecnológicos na Idade Média europeia e o fato de que justamente a construção de igrejas, junto à de castelos, capitaneou a engenharia civil da época;

13. Traz um conceito obscuro daquela ciência que teria surgido explosivamente em 1800. Descarta como “não moderna” aquela ciência que havia originado o método científico moderno, através de autores como Galileu, Francis Bacon, Descartes e Hume;

14. Induz à fantasiosa crença de que, se o cristianismo não tivesse se tornado religião de Estado de Roma, o ano 1000 da Era Cristã teria a mesma ciência e tecnologia que de fato havia no ano 2000, sem que absolutamente nada na literatura histórica comprove isso. Em outras palavras, afirma, sem qualquer comprovação, que haveria carros, computadores, espaçonaves, robôs, máquinas diversas, equipamentos eletrônicos etc. no ano 1000, se uma religião específica não tivesse vindo à existência e Roma continuasse politeísta;

15. Ignora todo o contexto social, econômico e político que vem envolvido nos avanços científicos e tecnológicos de qualquer país, incluindo a Europa da transição da teocracia cristã aos governos seculares. Houve uma pesada influência do capitalismo industrial nas invenções dos séculos 18, 19 e 20, e no século 20 houve um poderoso impulso político, vindo dos órgãos estatais dos EUA e da União Soviética, devido à corrida espacial e militar.

E isso a imagem desconsidera, argumentando como se o desenvolvimento científico do “mundo” (aquele centrado na Europa Ocidental iluminista) tivesse se dado exclusivamente graças ao declínio do poder do cristianismo na Europa e ao esforço dos filósofos iluministas e positivistas e aos inventores e engenheiros dos últimos séculos.

16. Desvincula a ciência e a tecnologia dos contextos filosóficos e religiosos nos quais ambas se desenvolvem em cada civilização. Ignora que, por exemplo, as religiões pagãs europeias da Antiguidade e da primeira metade da Idade Média tinham cosmovisões da Natureza muito diferentes da cosmovisão promovida pela ciência moderna cartesiana, aquela antropocêntrica, mecanicista e objetificadora daquilo que não era humano, artificial, “civilizado”, masculino e europeu-ocidental.

Acredita que uma Europa governada por religiões politeístas e não influenciada pelo cristianismo desenvolveria rigidamente essa mesma cosmovisão e teria um progresso exatamente igual ao da Europa Ocidental “pós-cristã”, pós-iluminista e capitalista.

Ou seja, teríamos, por exemplo, robôs, siderúrgicas, indústrias de maquinaria pesada e extensos metrôs funcionando na Irlanda celta regida pelos druidas e altos-reis e na Europa Oriental semitribal adepta da religião politeísta eslava no ano 1000, mesmo que não houvesse condições, em tal contexto cultural, de se desenvolver um iluminismo, positivismo e capitalismo idênticos ao da Europa dos séculos 18 e 19.

A imagem tenta denunciar os abusos e atrasos impostos pela Igreja Católica medieval, mas usa uma falácia do espantalho, inundada por crenças fantasiosas, de que a instituição teria interrompido por completo e mesmo desfeito todo o conhecimento científico adquirido desde o Egito Antigo até a Roma clássica.

E reflete os diversos preconceitos manifestados por muitos neoateístas “de internet”, influenciados pelo positivismo, pela romantização das crenças iluministas e capitalistas liberais e por um antiteísmo fundamentalista que crê que a religião é, sozinha, “a razão de todo os males do mundo” e que pessoas com crenças religiosas são todas “ignorantes”, “apedeutas”, “anti-humanistas”, “fanáticas”, “submissas” e “incapazes de pensar”.

Não é assim que se conseguirá diminuir os abusos motivados por convicções religiosas no mundo. Isso só fará, no máximo, que os ateus se passem por historicamente ignorantes e também por maus argumentadores. Isso não fará o mundo se tornar mais ateísta e justo (ou mais “ateísta, logo justo”).

Pelo contrário, ameaça fomentar entre os descrentes um fundamentalismo muito semelhante ao de muitos religiosos e criar uma espiral de preconceito, intolerância e hostilidade entre religiosos e irreligiosos. Algo muito distinto do mundo de paz e prosperidade que os ateus, sejam eles antirreligiosos ou respeitadores das religiões, desejam.

imagrs

11 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Claudinof

setembro 20 2015 Responder

O texto explora apenas a análise da figura, portanto me aterei apenas a este aspecto:

Todas as ponderações do texto se baseiam na proposição da estagnação cientifica que a imagem sugere, pois bem, se a figura mensurar algum acréscimo, por menor que seja ao desenvolvimento científico da época, COLOCA em cheque TODAS as argumentações feitas, e passa a representar mais fidedignamente o que houve após DECRÉSCIMO EXPONENCIAL ocorrido no período.

Não há como negar o papel VILÂMICO das religiões durante esse período, muito embora tenha havido algum crescimento científico, ele foi cabalmente supressivado pelos conceitos religiosos da época e se o Cristianismo não houvesse se implantado tão arrogantemente como o foi, a Ciencia teria SIM nos proporcionado avanços muito mais significativos do que ocorreu.

O demais, o texto faz uma analise até FANTASIOSA das reais intenções do gráfico, concluindo por EXTREMOS falaciosos que não têem nenhum embasamento na lógica e na razão.

Paz e reflexões

    Robson Fernando de Souza

    setembro 20 2015 Responder

    Então realmente não houve avanços científicos e tecnológicos entre os anos 450 e 1450, na Europa, no mundo islâmico, na África não islâmica, na Índia, na China, nas Américas, na Oceania etc.?

Gabriela Silva Zorgüen

julho 20 2015 Responder

Concordo com este post, a Idade Média teve grande importância, não só na ciência, mas nas artes, religião…
No século XX, os historiadores reconheceram a cultura e ciência da Idade Média, e, nos dias de hoje usar o termo “Idade das trevas” para se referir a Idade Média é considerado desrespeito ou até preconceito!
Cada momento da história é importante e tem o seu valor, se nós “pulássemos” a Idade Média e fossemos da Idade Antiga (Relembrando: que teve como marco a queda do Império Romano do Ocidente, conquistada pelos hérulos) para a Idade Moderna (Os turcos otomanos invadem e dominam o Império Romano do Oriente) não faria sentido!
Essa imagem quer comparar os períodos da história, isso é errado! Você não pode comparar duas pessoas, pode? É impossível! Cada um tem seus defeitos e suas qualidades, a Idade Média também.
Falar que ela não trouxe nada de “útil” para a sociedade atual é um ato de completa ignorância do assunto, só mostra que você não estudou sobre esse tempo, ou que realmente é um ser humano preconceituoso e sem opinião própria.
Essa atitude já é ultrapassada, os romanos a não-sei-quantos-anos-atrás faziam isso, chamavam os povos germânicos de “bárbaros” apenas por que eles não falavam a mesma língua (latim), não possuíam as mesmas crenças e costumes, e não tinham as leis escritas como eles tinham, ou seja: achavam ele inferiores por não seguirem o modo de vida deles.
As cruzadas, o feudalismo, as relações entre o vassalo e o suserano, as ordens de cavalaria e a peste negra marcaram esse período, mas não podemos nos esquecer da literatura! Quem nunca ouviu falar em Robin Hood? O fora da lei que roubava dos pobres para dar aos ricos, Os três mosqueteiros? E o seu famoso “Um por todos e todos por um”? E quem nunca se surpreendeu com os enormes castelos, que trazem a arquitetura da época? Sem contar das incontáveis contos de fadas onde o “Era uma vez…” e o “[…] e viveram felizes para sempre!” que ainda encantam, emocionam e recebem novas versões há todo tempo?
Como disse Jacques Le Goff, um dos mais importantes medievalistas da contemporaneidade, exatamente em suas próprias palavras: “Os códigos e valores desse longínquo passado-próximo são bem mais estranhos a nós do que habitualmente pensamos. Mas lhe devemos bem mais do que queremos admitir”
Mas é claro que é questão de opinião, você pode ler e ignorar, só por que vai “contra” a sua opinião, vou respeitar isso assim como eu espero que você respeite a minha ;-)
Gabriela Silva Zorgüen

Rodrigo

outubro 13 2012 Responder

DIZER QUE A IDADE DAS TREVAS CRISTA NAO AFUNDOU , NEM DESACELEROU O AVANÇO CIENTIFICO É IGNORANCIA . COISA ESPERADA DE CRISTÕES

    Robson Fernando de Souza

    outubro 15 2012 Responder

    Quer dizer que quem não concorda com essas falácias antiteístas é cristão?
    E você deixou de enxergar este trecho da sidebar:

    Pàginas especiais: Ateísmo e Ateofobia

    Aos religiosos: eu vivo sem Deus, sou ateu
    Ateofobia, uma intolerância tão gritante mas tão pouco notada
    Compreendendo o ateísmo: noções básicas

Mateus Gosser Rodrigues

maio 6 2012 Responder

E é por esse monte de equívocos que chamamos a idade média de era das trevas né?!
É um exercício de fé muito grande acreditar que a inquisição não atrasou a formação dos estados europeus e consequentemente as legislações que permitiram as inovações tecnológicas e científicas das revoluções industriais, dado que qualquer invenção ou descoberta cientifica seria dada por bruxaria ou sacrilégio.
A imagem está equivocada sim, porém não tem menor mérito ao descrever que houve uma estagnação (no minimo) dos avanços tecnocientíficos.
Quanto ao argumento das demais regiões mundias, me explique por que a maquina a vapor só surgiu na Inglaterra e não na China que eu considero esse argumento válido. O pensamento histórico é Eurocêntrico porque os avanços tecnocientíficos ocorreram na Europa.

    Robson Fernando de Souza

    maio 6 2012 Responder

    1. A consideração histórica da Idade Média como “idade das trevas” vem decaindo entre os historiadores.
    2. Não era qualquer avanço científico ou tecnológico que era punido. Alguns foram infelizmente, mas nem todos – o que não quer dizer que eu esteja defendendo a Inquisição.
    3. Reduzir a questão tecnocientífica ao alegado controle religioso, ignorando fatores como economia, recursos naturais e política, é um reducionismo que não se admite na historiografia.
    4. Não apenas na Europa. O velho continente sediou sim os avanços industriais, mas os avanços pré-industriais aconteceram em todos os continentes.

Fernanda

abril 25 2012 Responder

Muito válido esses posts. Cai naquela coisa de que as próprias minorias são preconceituosas quando deveriam saber o quão horrível é esse preconceito. Vamos abrir a cabeça gente!!

Ruth Iara

abril 24 2012 Responder

Justiça e busca sincera da verdade independem mesmo de nossas crenças ou descrenças, amigo. Parabéns !

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