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Nada a ver com “falta de Deus”: resposta a Dom Fernando Saburido

Em entrevista ao Jornal do Commercio, publicada no último dia 07/04, Dom Fernando Saburido,  arcebispo de Olinda e Recife, acusou a “falta de Deus” pela escalada de problemas como a depressão e o vício em drogas pesadas:

JC – Qual a maior doença dos pernambucanos?
DOM FERNANDO SABURIDO – São tantas as doenças… Atualmente acho que a depressão está sendo uma coisa séria e preocupante, por conta desse corre-corre, dessa agitação. Também tem causado sofrimento às famílias o envolvimento dos jovens com as drogas, está tirando a paz das pessoas. É muito difícil.

JC – Como esses problemas podem ser resolvidos?
DOM FERNANDOA ausência de Deus leva a isso. As pessoas estão muito despreocupadas com o aspecto religioso, têm pouco compromisso com a fé, estão perdendo o sentido da vida.         

Imediatamente o leitor pode pensar no ateísmo, que vem crescendo em todo o planeta, ainda mais nas sociedades em processo de secularização cultural, como no Brasil. Porque, de fato, no “coração” de nós ateus, por excelência, há uma total ausência de Deus e de Deuses. E o ateísmo vem sendo a longo prazo, de uma forma ou de outra, uma ameaça ao crescimento das igrejas pentecostais e um possível fator estimulante da evasão de fiéis da Igreja Católica em que o arcebispo professa sua fé.

Mas a tal “ausência de Deus”, ao vermos em seguida, se refere não necessariamente ao ateísmo, mas à Teologia da Prosperidade, que valorizaria mais os interesses econômicos individuais e as falsas promessas de “cura milagrosa” do que a devoção cristã ao Divino:

JC – Ao mesmo tempo a gente vê uma explosão de novas religiões. Por que está faltando Deus na vida das pessoas?
DOM FERNANDO – Infelizmente se abrem igrejas como se abre casa comercial. Há uma preocupação excessiva com dinheiro, com dízimos, em mostrar curas sem comprovação científica. Não são religiões comprometidas, históricas, tradicionais.

Portanto, pelo que se vê, Dom Saburido não quis se referir ao ateísmo. Mas acabou demonstrando desconhecer que existe sim vida fora da crença em Deus. Ofende aqueles que não acreditam na divindade dele ao acusar a “ausência de Deus” pelas desgraças que acometem a humanidade. E torna indevidamente o seu credo, que defende como “essencial” a crença em Deus, o centro de tudo. Isso o prejudicará quando tentar dialogar com pessoas sem religião e também com politeístas, cujos deuses em nada se assemelham com a deidade bíblica.

Contrariando a crença do arcebispo, a Suécia possui uma grande população ateísta, que afirmam já ser 85%, mas praticamente não sofre as mazelas que no Brasil são atribuídas à “falta” de uma divindade. O Japão também possui uma população cristã muito minoritária, e nem por isso é um país repleto de problemas sociais como o Brasil. Já os países islâmicos, fortemente monoteístas, por sua vez, padecem de níveis de qualidade de vida muito baixos, e neles as mulheres são fortemente oprimidas. E os países latino-americanos em geral também vivem problemas, em muitos casos, ainda mais sérios do que no Brasil. E nem por isso se vê cristãos acusando a “ausência de Deus” pelos flagelos desses países.

É necessário dizer também que lhe falta embasamento científico – logo àquele que criticou a falta de fiabilidade científica nas promessas de “cura pela fé” oferecidas pelos charlatães –, principalmente sócio-antropológico, tanto para acusar a “falta de Deus” pelos problemas que ele citou como para apontar o dedo às igrejas pentecostais acusando sua Teologia da Prosperidade de tornar o “onipotente” Deus “ausente” de tais templos. Nada há ainda nas Ciências Sociais que inter-relacionem Teologia da Prosperidade com desvalorização do aspecto teológico do cristianismo (leia-se “ausência de Deus”) e esta com o crescimento da depressão e do consumo de drogas.

Portanto, fica o meu pedido, em nome dos ateus que se sentiram ofendidos pela declaração de Dom Fernando Saburido sobre a (falsa) relação entre ”carência de Deus” e as patologias referidas, que o caro arcebispo procure obedecer à honestidade científica que ele próprio acusa as igrejas “milagreiras” de não ter. E, com isso, procure saber a real causa de problemas como depressão, vício em narcóticos, violência urbana e tantos outros antes de tentar especular, do alto de seu credocentrismo, que a culpa é da “falta de Deus”. Porque existem muitos milhões de pessoas que realmente vivem “sem Deus” e nem por isso são dependentes químicas ou depressivas. E, por isso, culpar a “ausência de Deus” por qualquer coisa irá ofender os ateus, ou pelo menos muitos.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Bárbara

Abril 13 2012 Responder

Haha, mais um, esse Dom Fernando Saburido, “a là Datena”.

Eles não tem de onde tirar suas razões, não leem o suficiente sobre ciência (e o pouco que leem preferem não acreditar, vide uso da camisinha, por exemplo) e ainda culpam a descrença, a ‘falta de deus’, pelas mazelas sociais que eles mesmos criaram após séculos de tirania? Ah vá.

Não tenho mais paciência com esse tipo de gente não Rob. Este é um dos motivos pelo quais que te admiro. Você vai contra a corrente e não deixa barato :)

Ah, adorei o comentário do Daniela acima.

    Robson Fernando de Souza

    Abril 13 2012 Responder

    Brigadim, Barbarinha =) Realmente insisto em ir contra a corrente, não espero que os outros ajam primeiro.

Daniel

Abril 8 2012 Responder

Bem se os pernambucanos estão tendo problemas com drogas e estão se afastando da religião,devem comemorar,pois de uma droga já se livraram.

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