07

abr12

O perigo da misantropia para o movimento abolicionista

Um dos grandes fatores que atrapalham e inibem o crescimento e profissionalização do movimento defensor dos Direitos Animais vem não de fora, pelos alfacistas, demais carnistas formadores de opinião e representantes da agroindústria da carne e dos laticínios que tentam difamá-lo. Mas sim de dentro. Dos que se dizem veganos mas literalmente odeiam uma dada espécie de animais – os humanos – ou a maioria dos indivíduos a ela pertencente – incluindo mesmo os que mudarão de consciência no futuro.

São os portadores da misantropia, o ódio por outros seres humanos – e talvez até por si mesmo por ser um humano. São pessoas que tomaram um caminho corrompido em termos de assimilação dos Direitos Animais e compreensão da necessidade de se abolir a exploração animal. Ao invés de terem percebido que é necessário educar e conscientizar aquelas pessoas que ainda compactuam, mesmo sem se dar conta, com os sistemas de escravidão animal, passaram a crer que a espécie humana é irreversivelmente corrupta e merece ser varrida do planeta pelo bem dos demais animais.

Em vez de dialogar ou mostrar conteúdo didático que denuncie a escravidão animal ou traga perguntas inquietantes que tematizem uma eventual reflexão por parte dos leitores ou telespectadores, preferem mandar os onívoros comerem fezes ou xingá-los de outras maneiras. Irracionalmente creem que estão construindo um mundo melhor ao ofender ao invés de educar. E ainda que admirem grupos de ação direta como a ALF, contrariam todos os princípios éticos deles – que sempre incluem libertar os humanos e não fazer qualquer mal, por mais cruéis que alguns deles sejam.

E curiosamente, quando odeiam todo aquele ser humano que compactue de alguma forma com a exploração animal – seja comendo alimentos de origem animal, seja pescando ou caçando, seja indo a rodeios e vaquejadas etc. –, negam tanto que provavelmente, por exemplo, já gostaram de rodeios, foram a zoológicos e curtiram e comeram carne por muitos anos – e tiveram e aproveitaram a oportunidade de deixar de fazê-los por conscientização –, como que pessoas podem mudar em sua consciência no futuro, por mais violentas e desigualitárias que sejam suas crenças atuais.

Internamente são, junto às brigas internas, uma das duas grandes pedras no sapato do movimento defensor dos Direitos Animais. Primeiro porque na prática não querem libertar os animais não humanos, não aceitando as providências racionais – todas as quais envolvem a educação abolicionista – para que se realize a futura derradeira libertação e preferindo apenas se revoltar impotentemente com a situação atual de escravidão e assassinato em massa. Segundo porque queimam o filme dos defensores dos DA, “confirmando” a crença do senso comum de que estes seriam extremistas, terroristas e odiadores da humanidade e que o vegano-abolicionismo seria algo absurdo e indutor de práticas violentas.

No caso da atrapalhação, ela acontece porque os misantropos, ao fazerem suas ceninhas de manifestação de ódio, por exemplo, mandando os onívoros comerem cocô, despertam nos carnistas não o interesse em conhecer o veg(etari)anismo de razões éticas e os Direitos Animais, mas sim repulsa pelos abolicionistas. Além de plantarem neles o medo de que se tornar vegano lhes cause o florescimento mental da misantropia sociopática. Em outras palavras, afastam, ao invés de atrair, as pessoas da compreensão dos Direitos Animais, tornando-as ainda mais resistentes do que já são aos diálogos que os defensores dos animais tentam semear.

E todo e qualquer empecilho, seja externo ou interno, que iniba o crescimento e sofisticação do vegano-abolicionismo deve ser enfrentado na medida de seu poder interferente. Isso inclui ajustar os conceitos de veganismo e abolicionismo de modo que eles, por ontologia, não aceitem misantropos. Porque libertação animal também é libertação humana, e os seres humanos precisam ser libertos do estado de alienação, bruteza sutil e cumplicidade inconsciente em que se encontram, e não exterminados por forças naturais ou intra-antrópicas.

Além disso, seres humanos são sujeitos morais iguais aos demais animais, não inferiores a estes, logo merecem a mesma consideração moral nas campanhas de emancipação animal. E na filosofia abolicionista não há espaço para dicotomias, justamente porque são estas que provocam todo o derramamento de sangue inocente, seja não humano ou humano, por parte dos sistemas de escravidão animal.

Por isso a misantropia deve ser, com o perdão da palavra militarista, combatida dentro do movimento. Cada crueldade que vemos acontecer no dia-a-dia deveria ser sentimentalmente tratada com a frase “Isso nos mostra que a humanidade deveria ser educada e libertada desse estado de embrutecimento”. E não com “Isso nos mostra que a humanidade deveria ser varrida da face da Terra”. Antes de tudo, também somos animais, igualmente sujeitos aos princípios emancipatórios dos Direitos Animais. E o ódio aos humanos é um fator que ajuda a reforçar o recrudescimento da cultura zooescravista, por matar nas pessoas qualquer interesse de nos entender e se juntar a nós. E, por isso, ser misantropo é ser contra os Direitos Animais.

imagrs

9 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Luizón Loiron

novembro 29 2016 Responder

para mim, não é a humanidade que tem de ser varrida da terra. eu mesmo vou me varrer daqui!

Patricia (Libertação Animal Brasília)

abril 18 2012 Responder

Amei o texto! Minha linha de pensamento é bom próxima desta que vc colocou aqui e me preocupa muito a forma como as pessoas estão perdendo a “fé” na humanidade. Abs!

Bárbara

abril 13 2012 Responder

Concordo com Evorah no que diz “Nem me reconheço naquela pessoa que fui”. Não consigo imaginar eu do outro lado, comendo de tudo e me orgulhando disso D=

Eu, particularmente, luto todos os dias para ser menos “radical” e mais didática com todas as pessoas que vem falar comigo sobre veg(etari)anismo. Alfacistas inclusos. E digo, não é fácil.

Após essa mudança de atitude da minha parte, reparei que muitos amigos meus já se tornaram mais simpáticos com a causa, me tratando melhor (leia-se: menos piadinhas ofensivas) e respeitando por eu ser diferente deles.

Uma pequena “vitória” minha, recente, foi ter ganhado chocolate sem lactose no amigolate que teve no meu trabalho :)

Bruna

abril 11 2012 Responder

Ótimo! Mas depois de ouvir tantas vezes expressões como “abate humanitário”, “forma mais humana de se matar uma lagosta”, é bom ter sempre cuidado para não colocar um pé na misantropia…

Fernando Cônsolo Fontenla

abril 10 2012 Responder

O primeiro passo deveria ser para de dizer “bem feito” ao ler a notícia de um humano morto ou gravemente ferido por um animal. O exemplo mais clássico são os toureiros.

Eles entram nesta profissão não por crueldade ou sede de sangue, mas por contexto cultural, apoio da família, necessidade financeira, etc. O mesmo é válido sobre o peão de rodeio.

Podem me chamar de louco, mas eu suponho que eles um dia serão fundamentais à causa! Quando eles mesmos mudarem, como grupo, aceitando o veganismo, o movimento ganhará uma força tremenda e indetível.

Evorah

abril 7 2012 Responder

Robson, como sempre seus artigos me fazem pensar e refletir. Às vezes, sinto momentos de revolta e acho que a humanidade toda deveria ser exterminada, comigo junto, e ficar só os animais, mas depois eu volto para meu eixo e penso: bom eu não sou um ser humano de se jogar fora, e existem milhares de humanos ainda bem mais bacanas do que eu, e como você disse, através da conscientização muitas pessoas vão se tornar veganas, e se libertar de muitos condicionamentos negativos, aliás, com aconteceu comigo, outrora uma carnista que defendia o consumo de carne. Nem me reconheço naquela pessoa que fui.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo