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abr12

Os “verdadeiros animais” e o especismo

Referir-se a pessoas violentas como "os verdadeiros animais" rebaixa os animais em geral à qualidade de seres brutos, bestiais, inferiores e desprezíveis.

É bastante frequente que a frase “Quem são os verdadeiros animais?”, ou alguma variante, apareça em imagens ou textos de protesto contra alguma crueldade promovida por seres humanos contra animais de outras espécies. Quem a profere acha que está reduzindo os autores de violências ao atributo de seres desprezíveis, mas não sabe que está falando uma frase bastante infeliz e também especista que atenta contra os próprios animais.

Quando se diz que “esses humanos violentos são os verdadeiros animais”, reproduz-se as mesmas ideias preconceituosas dos próprios cometedores de violência física contra animais não humanos – a de que ser animal é ser ruim e cruel, e que os bons seres humanos não teriam o “desprezível” atributo de animais. Barbariza-se o conceito de “animal”, reduzindo-o a uma característica negativa, e assim comete-se a tradicional violência simbólica especista de tratar os animais não humanos como seres inferiores e os seres humanos – pelo menos os bons – como se fossem “mais do que meros animais”.

Associando-se o atributo de animal à violência, à crueldade e à incivilidade, o desavisado defensor faz exatamente o contrário do que pretende: ao invés de fazer um esforço para tornar a humanidade menos violenta e especista contra outros animais, contribui para perpetuar o velho valor especista de rebaixar estes últimos a seres bestiais, estúpidos, brutos, inferiores e desprovidos de dignidade.

Tratar pessoas que são violentas contra animais não humanos chamando-as de “os verdadeiros animais” é um equívoco tão grave quanto, ou ainda mais que, falar de cães, gatos e animais de tração como se fossem objetos sob propriedade de um dono – em outras palavras, usar as palavras “dono”, “proprietário” e “posse” para abordar relações de tutela entre pessoas e animais domésticos.

No final das contas, acaba-se desenhando, ainda que sem querer, uma realidade em que ninguém quer ser considerado um animal, por achar que ser um animal é ser uma besta inferior, estúpida e violenta. E perpetua-se, por via da violência simbólica que carrega essa linguagem, aquela cultura especista de tratar os animais não humanos com violência também física e psicológica. Afinal, se ser um “verdadeiro animal” é ser desprezível, condenável e merecedor de castigos, automaticamente os animais são seres desprezíveis, condenáveis e merecedores de algo ruim.

Devemos ter muito cuidado para evitarmos usar esse tipo de linguagem especista ao tratarmos de animais humanos e não humanos. Ela mais atrapalha do que ajuda. Isso passa por policiar-se e parar de usar o termo “verdadeiros animais” em referência a criminosos que agridem seres sencientes. Porque todos nós, humanos e não humanos, somos animais de verdade, e isso não nos é demérito nenhum.

imagrs

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Patricia (Libertação Animal Brasília)

abril 4 2012 Responder

Nossa, Robson, eu costumo conversar com as pessoas exatamente isso que você escreveu! A partir de agora eu já vou recomendar de cara o seu texto!!! Excelente! Obrigada!
Patricia

    Robson Fernando de Souza

    abril 4 2012 Responder

    Obrigado, Patricia =)

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