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abr12

Para Dilma, a sustentabilidade é uma mera fantasia

Dilma Rousserra apronta novamente contra o meio ambiente. A grande rival de Marina Silva na época do Governo Lula e atual presidenta deu um discurso que certamente deixou os ambientalistas de todo o mundo furiosos. Dilma, do alto de seu conservadorismo ambiental, afirmou ontem, no Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, que “a fantasia não tem espaço” na Rio+20 e os paradigmas de crescimento não devem parecer “etéreos ou fantasiosos”. Disse ela:

“Temos até uma missão mais difícil [na conferência], que é propor um novo paradigma de crescimento que não pareça fantasioso. Ninguém aceita discutir a fantasia. Ela [a Rio+20] não tem espaço para fantasia. Eu não falo da utopia, falo da fantasia. Tenho que explicar como comer, ter acesso a água e como vão ter acesso a energia.”

[…]

“Eu não posso dizer que só com eólica é possível iluminar o planeta. Não é. Para garantir energia de base renovável que não seja hídrica, fica difícil, né? Porque eólica não segura, né? E todo mundo sabe disso.”

Assim como todo discurso reacionário, a fala dela abusou de falácias para tentar defender das objeções dos ambientalistas o seu projeto de “desenvolvimento”. Sua fala sobre energia eólica foi uma significativa falácia do espantalho, uma vez que ninguém defende que se “ilumine o planeta” “só com [energia] eólica”. E ela atirou uma indireta bem interpretável como Tu quoque ao criticar os países ditos desenvolvidos:

“Nós temos tecnologia para antecipar e monitorar o desmatamento que poucos países têm, até porque muitos já desmataram o que tinham para desmatar.”

Isso é interpretável como indireta porque tenta desacreditar as críticas dos ambientalistas europeus e norte-americanos com base na história ambiental de suas terras natais.

A Folha.com, enfatizando implicitamente o conservadorismo ambiental da presidente, mostra em seguida (grifos meus):

Depois de um ano e quatro meses sem se reunir com o fórum e sem priorizar o combate à mudança climática, Dilma fez um afago no grupo e disse que não há como não discutir clima na conferência de junho. Essa era uma das principais críticas do secretário-executivo do fórum, Luiz Pinguelli Rosa. “O clima toca em outros aspectos aos quais o governo dá prioridade, como a pobreza“, disse.

É confirmado aqui que o projeto de governo dela trata o meio ambiente com a tradicional dicotomia moral do “ou eles (o meio ambiente) ou nós (a sociedade, como se não fizesse parte do meio ambiente)”, com a crença de que não seria possível conciliar justiça social com justiça ambiental, como se não existisse a palavra socioambiental.

O discurso de Dilma apenas retrata aquilo que seu governo faz: desenvolvimentismo sem responsabilidade ambiental. É possível pensar que, se Dilma pudesse, ela extinguiria o Ministério do Meio Ambiente ou o fundiria com um ministério qualquer, tal como antigamente existia o Ministério da Instrução Pública (Educação), Correios e Telégrafos.

E a cada dia se solidifica a conclusão de que não adianta muito protestar nas ruas. Porque o Governo Dilma vem se portando de forma essencialmente antidemocrática, alheando a população governada de qualquer poder decisório ou mesmo julgador.

 

Só mais um retrocesso

Definitivamente, ao termos votado em Dilma Rousseff, acabamos elegendo alguém ainda mais direitista que José Serra. Toda aquela movimentação dos movimentos sociais no segundo turno de 2010, para evitar que o outro candidato, apoiado por diversos setores da extrema-direita (TFP, monarquistas, bispos ultraconservadores de igrejas evangélicas e católicas, militares saudosos da ditadura etc.), vencesse e instaurasse uma pequena “Idade das Trevas” das lutas sociais, acabou tendo o resultado inverso: essa “Idade das Trevas” veio, mesmo com Dilma e o ex-esquerdista PT no poder ao invés da direita tradicional.

Estamos vendo um verdadeiro crepúsculo nas políticas de Direitos Humanos, com as cada vez mais numerosas iniciativas homofóbicas oficiais – veto do Escola Sem Homofobia pela própria Dilma e por Mercadante, empregado como “ministro da Educação”; censura da propaganda do Ministério da Saúde envolvendo relação homossexual no carnaval; apoio de gente do PT a projetos de lei estaduais cheios de ódio redigidos por membro do clã Bolsonaro; discursos contra a “propaganda de opção sexual” por parte da chefona; acordos com a criminosa bancada evangélica… -; a opressão ferrenha aos indígenas do Xingu e aos opositores da Usina de Belo Monte, fato que implicou a violação de tratados internacionais e o rompimento do governo brasileiro com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos; o fraquejo diante dos militares de pijama, com a aprovação de uma fraca Comissão da Verdade; conflitos graves como a guerra de Pinheirinho, o genocídio dos Guarani-Kaiowá e os assassinatos de extrativistas opositores do agronegócio são solenemente ignorados…

A Cultura dexou de ser tratada com espírito democrático e passou a ser o reino dos defensores da tirania dos direitos autorais e inimigos da cultura popular. Os movimentos sindicais e estudantis tradicionais foram cooptados, transformados em fantoches pelegos a serviço de uma “mestra” que despreza as lutas sociais. Os desejos do povo são respondidos pela presidente com discursos monossilábicos. O capitalismo e o mercado, numa forma só não mais cruel do que na China, tornaram-se sagrados, sendo cegamente zelados por partidos que um dia militaram pelo socialismo (P”T”, P”S”B e P”C”doB).

O “desenvolvimento” defendido por Dilma e seu séquito segue estritamente o modelo do regime militar: faraonismo com megaconstruções, investimentos na indústria desprovidos de condicionantes de responsabilidade, grandes projetos concretizados à revelia da vontade da população, exploração de mão-de-obra, salários baixos, hostilização contra greves, crescimento sem contrapartidas socioambientais… E também o legado tucano das privatizações – no caso de Dilma, voltadas a vender às grandes empresas os aeroportos e rodovias brasileiros.

E para fechar (mas não esgotar) essa lista de retrocessos com chave de osso, o meio ambiente deixou de ser um tema periférico e secundário para se tornar, ante a visão dilmista, um estorvo, um encosto que atrapalha o tal projeto de “desenvolvimento” herdado da ditadura. Estamos vendo iniciativas obviamente contrárias à crescente ética da sustentabilidade: corte das unidades de conservação existentes e de reservas indígenas, interrupção da criação de novas UCs, obras faraônicas desprovidas de qualquer responsabilidade ambiental, empregação de uma ministra conservadora que acha que ambientalistas são histéricos e desagradáveis e de um presidente do IBAMA a favor do genocídio de indígenas, política dos ouvidos moucos contra os protestos da população contrária a Belo Monte e ao Código Florestal dos ruralistas, valorização das hidrelétricas e desprezo à energia limpa, exaltação da economia petrolífera (vide o pré-sal, tão falado na propaganda eleitoral em 2010)… Esse discurso de Dilma no Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas foi só mais um retrocesso entre tantos.

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Rogério Maestri

abril 6 2012 Responder

Sinto muito, mas o comentário pontual da presidente sobre a energia eólica é exato. Num país com um potencial hidrelétrico ainda explorado no máximo 40% (com os aproveitamentos de pequenas e micro usinas que não estão nem inventariados), falar em geração eólica é bobagem. Alemanha, Dinamarca, Itália, Inglaterra e outros países europeus não tem nem água, muito menos potencial hidrelétrico a ser aproveitado.
Se fosse tão boa e limpa a energia eólica o ex-presidente do WWF por mais de 20 anos e atual presidente de honra, deixaria colocar geradores eólicos em suas terras, mas ele correu com quem propôs isto.
É engraçado, em toda a Europa, USA e Ásia, a energia hidrelétrica é tratada como energia limpa e renovável por todos os ambientalistas, somente no Brasil, que ainda há potencial a ser explorado é que se acha a hidroeletricidade como uma fonte não limpa e não renovável.
A Islândia citada como um país que tem 100% de energia renovável, 87% desta energia vem de hidrelétricas, só 17% vem de energia geotérmica.
Só no Brasil que desejar energia limpa, renovável e barata para grande parte da população, que quem fala assim se torna “a (TFP, monarquistas, bispos ultraconservadores de igrejas evangélicas e católicas, militares saudosos da ditadura etc.)”.

    Robson Fernando de Souza

    abril 7 2012 Responder

    A questão é que se vem descobrindo que a hidrelétrica não é tão limpa assim. Porque desmata muito e também emite gases-estufa pela decomposição da vegetação inundada. E também tem forte problemática social, porque destrói cidades ribeirinhas (como foi o caso de Canudos) e, por tabela, toda a cultura típica originada nela – de, por exemplo, interação com a Natureza, com o rio que margeiam.

    E deve-se parar de pensar que energia limpa, segura e renovável é apenas eólica e solar. Existem e existirão outras fontes tão logo os engenheiros de energia descubram.

Diêgo Lôbo

abril 5 2012 Responder

Não sou de comentar, mas esse pediu. Ótimo texto, Robson!
Dilma tem sido sim um retrocesso. A gente, que acompanha as lutas de movimentos sociais, sabe o que ela [não] tem feito em relação a estas questões.
Fala dela no Fórum foi ridícula! Muito me admira alguém que sofreu tanto na ditadura ter uma posição tão irredutível e autoritária.

Abraços,
Diêgo Lôbo

    Robson Fernando de Souza

    abril 5 2012 Responder

    Valeu, Diêgo =) E Dilma Rousserra é realmente uma vergonha. Não tínhamos um direitista tão autoritário no poder desde Figueiredo.

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