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maio12

Práticas comuns no meio neoateísta e a realimentação do preconceito contra os ateus

Pode-se perceber que, desde o ano passado, vem crescendo enormemente, ao menos no Brasil, o movimento ateísta na internet, que ora luta pelo respeito aos direitos e à dignidade dos ateus por parte da parcela teísta da sociedade, ora se investe em criticar as religiões em seus fundamentos filosóficos, morais e práticos. Mas uma parcela notável dessa militância tem se enveredado num caminho, baseado no vale-tudo para desqualificar as crenças das pessoas, que é justamente contraproducente a esses dois propósitos.

Os ateus cobram respeito ao restante da sociedade, mas parte significativa deles está fazendo muito para desmerecê-lo. Críticas difamatórias, reducionistas e falaciosas às religiões em geral; ataques preconceituosos às mesmas e mesmo blasfêmias gratuitas injustificáveis acabam desmoralizando a categoria ateísta e deslegitimando o propósito do estabelecimento de uma cultura de respeito mútuo às diferenças.

É perceptível, aliás, que muitos descrentes querem não estabelecer essa cultura tolerante, mas sim transformar toda as pessoas em ateus e ateias e tornar as religiões algo pertencente ao passado. São os chamados neoateus, que investem boa parte de suas horas de internet para dirigir críticas, muitas delas bastante pesadas, às crenças religiosas em geral.

Muitas dessas críticas são válidas quando questionam, por exemplo, versículos moralmente questionáveis da Bíblia e do Corão e repudiam as tantas violências e ameaças de retrocesso ético perpetradas ao longo dos séculos e na atualidade em nome do Deus monoteísta. Mas perdem a razão quando passam a usar de reducionismos e falácias para desqualificar todas as religiões.

Esses vícios argumentativos são bem visíveis naquelas imagens-panfleto, compartilhadas no Facebook, que tentam estabelecer dicotomias entre religião (genericamente falando) e ateísmo; mundo com religiões e mundo sem religiões; religião e ciência; etc. Diversas dessas figuras já foram criticadas no Consciencia.blog.br.

Comete-se ali a falácia dupla de inversão do acidente e generalização apressada, ao tornar todas as religiões – incluídas também as vertentes liberais das religiões abraâmicas, as religiões-filosofias orientais de caminho, as tão diversificadas religiões pagãs e neopagãs, as crenças monoteístas não abraâmicas (como a Fé Bahá’i, o sikhismo e o espiritismo), as crenças espirituais autóctones (o que inclui espiritualismos indígenas e as religiões populares chinesa e africanas), o xamanismo, o animismo e os sincretismos – exatamente similares às correntes fundamentalistas cristãs, judaicas e islâmicas.

Além disso, são cometidos erros crassos de História e Sociologia, ao se insistir em reproduzir as já refutadas crenças iluministas de que a Idade Média teria sido uma “Idade das Trevas” de completa estagnação científica e tecnológica na Europa e que a substituição completa da religiosidade e da espiritualidade pela Razão e pela Ciência traria felicidade e progresso à humanidade; ignorar que o Império Islâmico medieval vivenciou importantes avanços científicos e protegeu obras filosóficas da Europa Antiga; omitir que as religiões em geral continuam tendo uma importância filosófica – tendo destaque as religiões orientais de dharma –; generalizar àquela religião em todas as suas denominações o fundamentalismo de apenas uma porção de suas vertentes; passar adiante a mentira de que a ciência e sabedoria antigas teriam sido totalmente destruídas na Idade Média europeia; entre tantos outros erros.

E isso sem falar na total falta de senso antropológico por parte de grande porção dos neoateus, ao não reconhecerem as importâncias gnosiológicas das religiões – que existem em campos do conhecimento humano diferentes da Ciência e da Engenharia, como a Cultura, a Mitologia e parte da Psicologia e da Filosofia – e não tentarem entender por que as pessoas continuam religiosas e apegadas aos velhos folclores – ou mesmo aderem a outras religiões depois de se desiludirem com aquelas de onde vieram – apesar de todos os avanços da Ciência, do secularismo e da expansão da literatura racionalista.

E um outro ponto muito grave da militância neoateísta que se tem observado é a recorrência aos puros insultos e blasfêmias, tratando as religiões em geral como puros rejeitos ideológicos, escarnecendo de figuras de deuses e santos, substituindo o nome de Deus por de personagens de desenhos animados (mais notadamente Goku, da franquia japonesa Dragon Ball), entre outras evidentes ofensas.

O deus hindu Ganesha é desrespeitado ao ser comparado a uma aberração genética. Imagem reproduzida do Facebook, de autoria anônima.

Afirmam os integrantes dessa modalidade de militância ateísta: “Respeitamos pessoas, e não crenças”. Essa frase faz sentido quando a intenção do indivíduo ou do movimento como um todo é criticar as “verdades” trazidas pelas religiões, ainda mais aquelas que conflitam com o nosso contexto ético-moral, e negá-las enquanto dogmas que não deveriam ser questionados. Mas perde a razão quando é usada no propósito do achincalhamento gratuito das crenças.

Queiram ou não os ateus, as pessoas afetadas quando, por exemplo, veem a figura de Jesus escarnecida acreditam na(s) divindade(s) profanada(s). E isso ofende não tanto a elas próprias, mas, em sua mentalidade, à(s) divindade(s) ofendida(s). E ofender uma divindade lhes é ainda pior do que desrespeitar a própria família delas. Mas isso acaba não passando pela cabeça daqueles que insistem em comparar Jesus a Goku ou chamar Ganesha de aberração genética. Porque não tentam entender a lógica de pensamento dos religiosos.

Tamanha agressividade parece ser o revide a décadas ou mesmo séculos de perseguição religiosa. Pensam os ateus militantes: se os religiosos em sua maioria passaram esse tempo todo nos desrespeitando, eles merecem levar o troco. Parte-se para uma política de vingança, para, numa catarse coletiva, descontar tudo o que foi sofrido ao longo de anos de discriminação.

Esse comportamento, porém, é bastante irracional e deletério se percebermos que ele se baseia mais numa sede vingativa; numa visão, como visto acima, enviesada e preconceituosa das religiões e/ou na intenção de tornar a população nacional totalmente ateia do que no próprio propósito de tornar os ateus uma categoria plenamente aceita pelo restante da sociedade.

O meio ateísta deveria refletir sobre essas ações. Elas estão mais prejudicando do que fortalecendo a reputação dos ateus. E tendem a substituir os velhos motivos de preconceito – que seríamos depressivos, amorais, tendentes ao crime e de vida vazia – por novos – que os ateus seriam odiadores de religiões e intolerantes contra as crenças das pessoas, desejariam a destruição de todos os sistemas de crença espiritual e costumariam recorrer à mentira e à blasfêmia para desqualificar as religiões.

E tudo o que os ateus menos querem é continuar sendo vítimas de preconceito e discriminação e o serem por ainda mais motivos do que os atuais. Se realmente têm o combate à ateofobia, ao invés da conversão generalizada das pessoas ao ateísmo, como prioridade, terão que rever suas práticas relativas a falar de religiões e deuses.

Nessa imagem, que tem autoria mas ela foi apagada para impessoalizar minha crítica, diversas religiões são rebaixadas a rejeito ideológico que “arruinaria a mente” das pessoas e “sujaria” o planeta. Despreza-se a riqueza filosófica e cultural presente nas crenças simbolizadas na figura e propaga-se assim o mito preconceituoso de que uma pessoa sem religião seria mais “avançada”, “madura” ou “evoluída” do que um religioso.

imagrs

14 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Jose

junho 8 2012 Responder

Simplesmente o melhor texto de um ateu que vi nesses ultimos tempos. Meus parabens, creio em Deus, e você tem meu total respeito!

    Robson Fernando de Souza

    junho 9 2012 Responder

    Obrigado, José =) De coração.

Alessandro

junho 5 2012 Responder

São comentários carregados como os dois acima que eternizam a discussão. E a propósito, sua argumentação de que um universo complexo demais precisa de um deus pra ter começado a existir(e esse deus mais complexo que o universo veio do nada ne ?) não é das melhores e não te qualifica a menosprezar a inteligencia do outro comentário, muito menos vai fazer sentido aos olhos dos mais céticos. O fato é que quem tiver interesse em outros pontos de vista vai buscar embasamento pra mudar;manter sua opinião e quem nao tiver vai continuar na mesma, independente do que se fale, ou de quem fale.

    cezar

    junho 6 2012 Responder

    O comentário não é meu e sim de um físico norte americano. O que quis foi apenas mostrar que o argumento do colega de que “religião tem de ser combatida com ciência e conhecimento” não procede, uma vez que exitem vários cientistas religiosos.
    “Quanto mais acredito na ciência mais acredito em Deus” (Einstein)
    Embora não professasse nenhuma religião Albert Einstein acreditava na existência de uma causa primeira para o universo.

Alisson

junho 4 2012 Responder

Não é possível entender a lógica de pensamento dos religiosos, pois não existe lógica em acreditar em Deus. O que devemos entender são os motivos que levam a pessoa a manter a sua crença apesar de todas as evidências contrárias. Sou de opinião que religião deve ser combatida com ciência e conhecimento.

    cezar

    junho 4 2012 Responder

    Ciência, razão e uma dose de bom senso levam à noção de um propósito para a criação e havendo um propósito há tbm uma mente por traz. Tanto assim que inúmeros cientitas são profundamente religiosos!
    “A física moderna ensina-me que a natureza é incapaz de se organizar por si mesma. O universo apresenta uma grande organização. Por isto torna necessário admitir uma grande causa primeira.”(c. M. Hathaway – Físico e engenheiro norte americano)
    Portanto que o que você diz não passa de uma grande FALÁCIA!!!
    Estude mais um pouco…

Fabi

junho 4 2012 Responder

Gostei muito do seu texto. Eu mesma já fiz postagens com a imagem de Cristo, porém nunca pensei em como aquele colega religioso se sentiria. Eu postava pois julgava que era direito meu expressar um pensamento da forma que bem entendesse. Eu estava errada. Quando criticamos os religiosos, nos tornamos aquilo que criticamos: ignorantes e intolerantes.
Se a religião é hipócrita, não temos feito diferente, pois nossas manifestações têm sido de ódio, críticas sem fundamentos, beirando ao modismo de um colegial que se junta a um grupo em busca de autoafirmação e identificação social.

    Robson Fernando de Souza

    junho 4 2012 Responder

    Obrigado, Fabi =) Fico feliz que vc tenha mudado de postura nesse sentido.

    De fato tenho visto uma postura, se não de ódio, de aversão e antipatia da parte de muitos ateus no Facebook. E, falando nisso, este blog já criticou várias pérolas de tentativas de difamar as religiões em geral, e criticará outras que aparecerem: http://consciencia.blog.br/tag/desmentindo-imagens-antirreligiosas-preconceituosas

      Jose

      junho 8 2012 Responder

      É uma boa atitude, assim como eu faço o meu papel de criticar as igrejas e pastores que diflamam, roubam , iludem seus fiéis.

ejedelmal

maio 26 2012 Responder

1 – Idade das Trevas sim! Dizer que café é bebida dos demônios (foi levado pelos árabes para a Europa) e negar a matemática posicional porque o Zero representa a inexistência de Deus (os árabes usavam algarismos, os europeus calculavam com números romanos) é um absurdo atraso.
2 – Certos cultos, ritos e adoração a deuses, como deus sol, deusa lua, a deusa da fertilidade, deus falo, deus mar, são parte da formação cultural de um povo, e levam ao esclarecimento científico. Porém esses ritos são pequenos e localizados.
3 – Os arquiateus também eram pica, perseguiam a Igreja e os protestantes ferrenhamente. Não a toa, essas seitas reagem violentamente, tanto que costumavam queimar pessoas nas fogueiras. Quando Marx perseguia a religião ele sabia exatamente a quem estava perseguindo. E VOCÊS TAMBÉM SABEM!
4 – Candomblé, espiritismo e outras religiões pequenas costumam ser bastante tolerantes, mesmo com quem as ataca. Na verdade, a maioria das religiões e filosofias de vida não causa problemas, são até bastante toleráveis. As três maiores seitas, a dizer, o budismo, o hinduísmo e as abraâmicas (essa com três livros sagrados diferentes) é que tem de ser extintas.
5 – As abraâmicas em especial, são um primor. Começam atacando quem não segue religião alguma (para atraírem fiéis para si). Depois se matam entre si, apesar da mesma origem. Por fim, deixam seus fiéis analfabetos, incultos e miseráveis.
6 – Novamente as abraâmicas: sempre se acham “Os Escolhidos”, matam-se uns aos outros, têm três livros sagrados (Bíblia, Talmude e Corão) que só concordam num personagem: o Capeta. As abraâmicas são definitivamente o culto ao Capeta. Nelas o Capeta é mais poderoso que os três deuses (Alá, Javé, Goku), mas na hora de eleger presidente, escolhem o Beato Chirico, que só é a personificação de Jesus no estado de São Paulo (e até hoje não sabe o que é cumprir um mandato).

    cezar

    junho 4 2012 Responder

    Você deixa bem claro a quem persegue e quem defende. A proveite bastante o mundo. E lembre-se: sempre é tempo de mudar de opinião e isso só depende de você! A paz de Cristo.

    Miasto

    junho 4 2012 Responder

    [Trecho ofensivo apagado. RFS] a internet é uma ferramenta fantástica quando se sabe o que buscar.
    Mas antes de darem suas fundamentadas e bem escritas opiniões, leiam os clássicos.
    Leiam Aristóteles e percebam que já ele era adepto de um monoteísmo lógico. Leiam os grandes historiadores europeus, como Toynbee, e compreendam que o Ocidente é sustentado por três grandes pilares: o racionalismo grego, o direito romano e a ética israelita; todos os três preservados no amálgama cultural do Cristianismo. O Ocidente é cristão.
    [Trecho ofensivo apagado. RFS]
    Aviso: este post não é neoateísta nem antirreligioso, e sim solidário aos religiosos ofendidos (e também aos ateus que têm seu filme queimado pelo antiteísmo). Comente aqui com educação, obedecendo às regras de comentários. Comentários posteriores com grosserias e ofensas serão apagados. RFS

Mayconn

maio 24 2012 Responder

muito bom esse artigo, me lembrou algo que vi na internet.

“O ateismo clássico sempre lutou para que a ciencia não fosse limitada pela religião, o que está correto. Mas o neo ateismo tem um desejo utópico de extirpar qualquer referencia a religião dentro da sociedade.”

ruth iara lopes ferreira

maio 21 2012 Responder

Parabéns !

Há crentes que querem ajudar os ateus a terem para esses um lugar de igual para igual na sociedade. Ateus deixam cada vez mais, felizmente, de serem discrinados. Mas, os ateus, para tanto, precisam se ajudar e este artigo ajuda muito nesse sentido.

Eis um artigo de excelente qualidade útil para ateus e crentes!

Basta da tortura mental de pessoas que procuram impor suas idéias aos outros, mesmo que na construção de emaranhados lógicos que nos obrigam a desviar o nosso próprio caminho de racicínio e também de escolha.

Eu escolhi crer, tu escolheste não crer. Nós nos respeitamos.

A diversidade em todos os sentidos é encantadora.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo