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maio12

Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas: religião “vs” ciência

Encontrei ontem mais uma imagem de cunho neoateísta que destila diversos preconceitos e falácias contra o universo das religiões, principalmente generalizando a todos os sistemas diferentes de crenças características das vertentes fundamentalistas do cristianismo. A figura em questão é dividida em sete partes, cada uma comentada por mim abaixo dela:

1. A situação de cleros manterem pessoas “nas trevas” se aplica apenas às teocracias governadas por religiões organizadas e às denominações religiosas fundamentalistas. Nada há no conceito antropológico de religião que mantenha seus adeptos na ignorância e sob um controle moral clerical.

Muitas religiões não abraâmicas e diversas denominações religiosas abraâmicas, pelo contrário, justamente dão luz ao pensamento das pessoas, sendo que pela via da retidão ética, do caminho para a iluminação espiritual, além de muitos ensinamentos carregados de sabedoria semiempírica de vida como no caso do taoísmo e do budismo.

A imagem usa a dicotomia metafórica trevas/luz para tratar de conhecimento e de liberdade de conhecimento, e, como dito acima, isso só faz sentido em denominações fundamentalistas. Se formos analisar por um olhar antropológico e livre dessa dicotomia, perceberemos que a luz é oferecida tanto pela ciência como pelas religiões, ainda que atuando cada uma em campos específicos do conhecimento humano.

2. Sabe-se hoje que eliminar agentes patogênicos não é papel da religião. Nossa sociedade secular pós-moderna, à exceção das denominações fundamentalistas, já não trata a religião como um faz-tudo a englobar desde regras de vestimenta até rituais de cura, mas sim, no caso das religiões moderadas, como um norte espiritual e filosófico. Mesmo que suas mitologias tenham pouco potencial de mutabilidade, as religiões podem sim mudar, e estão portanto mudando de função. E muitos religiosos já não veem suas crenças como remédios para doenças de ordem não psicológica.

3. Isso também se restringe às denominações religiosas fundamentalistas. E ignora que inúmeros religiosos, muitos deles clérigos, não tratavam conhecimento como heresia, como no caso de diversas personalidades medievais cristãs e muçulmanas. A religião em si não tem nada contra o conhecimento que foge às suas competências. Quem se opõe ao conhecimento e o considera “heresia” é o fundamentalismo religioso.

4. A mesma refutação da parte 2 se aplica aqui. Tem-se hoje cada vez mais ciência de que a religião não tem entre suas funções tratar doenças e amputações, mas sim questões espirituais, filosóficas e às vezes psicológicas.

5. Novamente, isso não é função da religião. Comete-se aqui uma falácia de falsa analogia misturada com falácia do espantalho, porque a religião nunca almejou a competência de fornecer tecnologias ao ser humano – embora já tivesse contribuído muito no passado inspirando avanços na Arquitetura e na Engenharia Civil.

6. Apenas algumas religiões possuem mitos de criação que falam que o ser humano veio do barro. O universo de religiões no seu geral diverge sobre a origem mitológica do ser humano, muitas delas, aliás, concordando com a ciência quando dizem que viemos do “pó” – que pode ser interpretado como pó de estrelas. Isso sem falar nas correntes que metaforizam a criação humana a partir do barro ou de outras fontes. Afirmar, com base nas religiões abraâmicas, que todas as religiões afirmam que o ser humano veio do barro é a chamada falácia de composição, que imputa ao todo uma propriedade da parte.

7. Essa parte ignora que muitas religiões não são obscurantistas a ponto de só enxergarem o que “querem”. Doutrinas religiosas como a espírita e a asatrú dão muito espaço para seus adeptos enxergarem aquilo que os fundadores ou os adeptos antigos não enxergavam. Pelo visto, essa última parte generaliza a todas as religiões a relativa imutabilidade gnosiológica das religiões reveladas, cometendo assim, tal como a parte 6, uma falácia de composição.

***

Faço o seguinte apelo aos ateus que têm o costume de compartilhar imagens-panfleto neoateístas: leiam Antropologia e História antes de pensarem em divulgar figuras que falem de “religião” sem especificar qual religião criticam ou que generalizem as características de vertentes fundamentalistas do cristianismo a todas as crenças religiosas. Ninguém de nós quer ser estigmatizado e preconceituado com mais um motivo entre tantos – além de “filhos do diabo”, “depressivos” e “amorais”, corremos, com a divulgação de imagens desse tipo, o risco de sermos considerados ignorantes e mentirosos em termos de conhecimento sobre religiões e, portanto, preconceituosos tanto quanto os religiosos fundamentalistas.

imagrs

6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Bruna

maio 9 2012 Responder

Muito boa a ideia dessa série “desmentindo…”
Só fiquei pensando aqui nessa parte:
“sem especificar qual religião criticam ou que generalizem as características do cristianismo a todas as crenças religiosas”
Acho que para ficar lbem onge dos preconceitos, talvez a gente não deva generalizar nem mesmo o cristianismo. Existem cristãs/os e cristãs/os, cristianismos e cristianismos diversos – fica difícil falar em cristianismo como se fosse uma coisa só, com uma só interpretação.

    Robson Fernando de Souza

    maio 9 2012 Responder

    Vc tem razão, Bruna, vou ajeitar o post. Obrigado pelo toque.

Jéssica

maio 8 2012 Responder

Parabéns, Robson!

Realmente fiquei feliz com o que voce escreveu; Sou cristã, curto o seu blog e obviamente, não concordo com tudo o que voce escreve, mas quanto a postagens neoateistas como essa que voce “desmascarou”, estou inteiramente a favor de que discutamos.
A incoerência existe, ao meu ver, porque o ser humano, desde o primeiro que caminhou por estas terras,está em processo. Nada mais lógico do que isso. Não sei como voce chamaria isso, mas eu chamaria de evolução espiritual. E gostaria de citar, para que cheguemos a razão, o comentário anterior ao meu que diz “Assim teremos crentes e ateus em igualdade de importância na sociedade”. Sei que é dificil concordar com isso, talvez até eu mesma tenha dificuldade de racionalizar assim, que somos ambos importantes na busca dessa evolução humana ou na busca do seu equilibrio; Um sem o outro (ateus e teístas) fatalmente cairíamos em desgraça como já aconteceu tantas e tantas vezes na história da igreja e na da ciência.
Faço aqui um apelo de que nos unamos para combater a ignorância e o preconceito apregoados de ambos os lados.

Meus Respeitos.

    Robson Fernando de Souza

    maio 8 2012 Responder

    Obrigado, Jéssica =)

    Tenho certeza de que ateus e teístas podem sim viver em harmonia, sem que um tente invadir a fé ou não fé do outro e tampouco use falácias e preconceito contra a (des)crença um do outro. E de fato é preciso combater os fundamentalismos dos dois lados.

    Abs

      Júlio

      agosto 30 2012 Responder

      Concordo Robson, basta que todos mantenham as coisas nos seus devidos lugares: religião cuidando do conforto emocional nos templos enquanto que nos centros de pesquisa a ciência cuida de explicar a realidade e manipular a natureza da melhor maneira. Assim viveríamos muito melhor, sem preconceitos, etc. Mas, nesse quesito eu acho que a religião peca, porque ela ainda hoje tenta invadir espaços que não é dela (ciência, tecnologia, política e outros).

ruth iara lopes ferreira

maio 8 2012 Responder

Chegou a hora da busca total da verdade no diálogo, Robson. Assim teremos crentes e ateus em igualdade de importância na sociedade.
Sobre os memes que viajam por aí: eles precisam melhorar de modo geral, sejam eles memes de ateus ou de crentes. Não cabe mais tanta discriminação sendo disseminada pela internet.

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