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Desnecessário, contraproducente e tiro no pé: imagem incentiva o terrorismo agressor contra maltratadores de animais

Atualizado em 03/05/12

A imagem abaixo, de um meme pouco conhecido entre os brasileiros (a Disaster Girl), vem circulando no Facebook – eu a achei hoje de tarde em meu mural:

A imagem deixa a entender que a ameaça e o terrorismo – no sentido de atacar a casa ou outras propriedades de alguém, e não de, por exemplo, quebrar os equipamentos de um matadouro ou de um biotério – seriam formas válidas de se defender os animais. Incentiva o confronto violento entre os defensores dos Direitos Animais e os especistas, como se estes precisassem não ser educados, conscientizados e libertados do estado de ignorância, mas sim agredidos e submetidos à destruição de sua propriedade sem que isso tenha qualquer efeito positivo em sua consciência moral.

A princípio peço que algum/a leitor/a me traga exemplos de pessoas que, depois de terem suas casas ou carros destruídos, tomaram para si a consciência ética de que os animais, incluídos os humanos e não humanos, são todos dignos de respeito e direitos. Alguém que aprendeu que maltratar animais é errado apenas ou principalmente porque sua casa foi incendiada ou seu carro foi inutilizado. Que foi educado para uma nova ética por via do medo e da violência. Se me mostrarem uma quantidade numericamente grande, poderei talvez repensar sobre este post.

Mas de antemão defendo que esse tipo de imagem tem consequências nada positivas para o movimento defensor dos Direitos Animais. Falo isso por causa dos aspectos abaixo:

a) Não há provas de que pessoas coagidas pelo medo e pela violência física (agressão corporal), psicológica (terrorismo psicológico) ou material (destruição de propriedades não relacionadas diretamente com a exploração animal) mudam sua consciência moral em relação àquilo que motivou a violência “retaliativa”. A violência vingada pode até parar, mas o autor jamais o fará por consciência ética, certamente jamais irá aderir à ideologia dos contra-agressores. Por exemplo, o vivisseccionista poderá até desistir de suas pesquisas in vivo, mas jamais aprenderá essencialmente em razão da violência sofrida que as cobaias são seres dotados de dignidade própria. Continuará tratando outros animais como objetos, e ainda por cima vai fazer coro àqueles que acusam os defensores dos Direitos Animais de terrorismo, extremismo e sociopatia. E o abandonador de animais domésticos dificilmente irá parar de abandonar – o que fará no máximo é se mudar e passar a abandonar animais em outra cidade, jamais aprendendo que é errado fazer isso;

b) Com figuras como essa, a reputação dos defensores dos Direitos Animais é prejudicada mais ainda do que já é pelos lobbies interessados na exploração animal. Tendo tanta dificuldade em nos provarmos racionais, ponderados e preferidores da educação conscientizadora e libertadora (e de ações diretas que realmente libertem animais), acabamos, por pérolas como a tal imagem, sendo continuamente vistos como fanáticos, violentos, histéricos, terroristas e extremamente vingativos, como pessoas que querem a morte, a prisão ou o banimento social de todo aquele que não concorde com os Direitos Animais;

c) Os próprios praticantes de ações diretas – que depredam laboratórios de vivissecção e matadouros e libertam animais aprisionados – têm sua imagem seriamente queimada por quem promove o terrorismo colateral de ameaçar e violentar pessoas. Perdem muito do apoio que possuem/possuíam, tanto da sociedade em geral como dos próprios defensores e simpatizantes dos DA, quando aparece algum fanfarrão queimando a casa de um pesquisador vivisseccionista e achando que salvou muitos animais. Pelo contrário, continuarão todos criminalizados pela mídia e pela indústria, ambas as quais dobrarão o esforço de difamar e marginalizar os bons praticantes de ações diretas;

d) Terrorismo contra casas e carros não liberta nenhum animal. Como mostrado mais acima, a vítima da retaliação pode até parar de, por exemplo, fazer pesquisas em cobaias forçadas, mas nada implica que os animais que ele deixou de explorar serão soltos ou que outros pesquisadores não irão explorá-los no lugar do violentado. E mesmo que haja uma ação paralela resgatando do laboratório as cobaias aprisionadas que o retaliado iria explorar, a queima da casa em nada influenciaria positivamente a ação direta de resgate;

e) Estabelece-se uma cultura de tirania, terror, medo e vingança por parte daqueles que defendem o terrorismo agressor contra maltratadores de animais. Como foi mostrado antes, isso não vai educar ninguém, mas sim coagir as pessoas pelo puro medo a não machucarem animais. É pelo terror, pelo medo e pelo totalitarismo não estatal que queremos estabelecer uma cultura de paz pautada no respeito entre os animais humanos e não humanos? Ou é pela conscientização, pela propagação da ética supra-humanista, pela mudança de consciências, pela transformação e libertação das pessoas da antiga ideologia especista? Tomemos como lição as leis de muitos países dominados por ditaduras: crimes não políticos costumam ser punidos com enorme rigor em muitos casos, mas nunca deixam de acontecer em escala maior que pequena. Impor uma lei, ainda mais sendo ela cruel, quando não há qualquer esforço de formação educativa ética das gerações antigas e novas, é apenas enxugamento de gelo e autoritarismo da pior qualidade;

f) Simpatizar o terrorismo agressor é inversamente proporcional a desejar a prevalência da cultura de paz tão defendida pelos Direitos Animais. Pensar que vamos alcançar tal cultura promovendo terror, medo e destruição é algo completamente absurdo. Além de ser também um especismo invertido – considerar os seres humanos não veganos inferiores aos animais não humanos e, por isso, dignos de sofrer violências desnecessárias. O que vai se conseguir é no máximo a total criminalização da defesa dos animais não humanos, uma guerra desnecessária – e ainda baseada em violência propriamente dita – entre especistas e animalistas e consequentes enormes retrocessos na defesa dos animais, em todos os sentidos que se possa imaginar. A ética abolicionista será praticamente marginalizada;

g) Se estendermos os maus tratos do “vizinho” referido na imagem ao consumo de animais – que, mesmo indiretamente, é algo que induz ao maltrato e matança de bilhões de animais sob as grades da pecuária e as redes de arrasto da pesca -, a situação piora ao cubo. Nessa condição, a imagem prega que os onívoros/carnistas sejam agredidos e tenham sua propriedade destruída por comerem carne e consumirem laticínios e ovos. Nada mais tiro-no-pé para as pretensões do movimento vegano-abolicionista do que ver pessoas passando ao público a imagem de que os veg(etari)anos são extremistas e optam pela violência para tentar evitar que os animais sejam explorados.

Eu sinceramente acredito que tal imagem foi criada por alguém mal intencionado, que deseja queimar o filme dos defensores dos Direitos Animais, sabotar de dentro o movimento. Mas infelizmente vejo diversas pessoas divulgando-a inocentemente, achando que estão fazendo bem à defesa dos animais não humanos, quando na verdade estão apenas expressando um nocivo sentimento de vingança e crivando os seus e os nossos pés de balas.

A quem divulgou tal imagem, sugiro: o que acham de expressar amor e respeito aos animais não humanos e promover educação e libertação ética dos humanos, ao invés de expressar ódio e vingança contra aqueles que maltratam direta ou indiretamente animais (e são muito e muito mais seres humanos, numericamente falando, do que o senso comum imagina) e desejar a violência como “solução” para defender os animais?

 

Atualização (03/05/2012, 10:50): Descobri que a imagem em questão reproduz o meme da Disaster Girl, de uma menina que posava como se tivesse causado o incêndio. E lembrei que já havia visto uma variante dessa imagem uma vez, com as frases “Meu vizinho ouvia funk… Não ouve mais”. Como é um meme ainda pouco conhecido no Brasil, a indignação por ter visto tal imagem usada no contexto da defesa animal foi imensa de minha parte (e não voltei atrás nessa indignação). Convenhamos que um meme que lembra violência e terrorismo nunca combinou nem combinará com a temática da causa animal.

Mantenho minha crença: ou as motivações para se associar a Disaster Girl com a causa animal foram maliciosas e tinham a intenção da sabotagem ideológica, ou a pessoa que criou essa variante do meme, caso seja defensora ou simpatizante da defesa animal, foi muito, mas muito desatenta e ingênua sobre a impressão que tal imagem causaria tanto entre os defensores dos Direitos Animais como entre a parcela leiga da sociedade – aquela que ainda é suscetível a acreditar nas difamações divulgadas sobre os defensores dos DA. Isso considerando-se que o meme da Disaster Girl hoje ainda é pouco conhecido entre nós.

imagrs

5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Patrick

março 5 2013 Responder

Comentário de incitação à violência apagado. Essa conduta não é permitida aqui no blog, que é um lugar civilizado. RFS

Carla Maranho

fevereiro 21 2013 Responder

Adorei a imagem! Mostra um mundo novo, em que os monstros humanos devem pensar 50 vezes antes de perpetuar a maldade que é característica unicamente dessa espécie.
Se um dia eu tiver uma filha humana (Deus que me livre disso!), quero que seja assim como ela. Minha heroína!!! <3

Patricia

maio 3 2012 Responder

Eu fiquei bastante chocada com esta imagem. Na verdade, não exatamente com a imagem, mas com o grau de inconsequência que aparentemente tomou conta das redes sociais e, lamentavelmente, das pessoas envolvidas na luta pelos direitos animais. Para piorar minha preocupação, eu conheço várias pessoas que compartilharam esta imagem como se isso fosse algo “normal”, “irônico”, sei lá… fiquei boba! :(

Alex Rodrigues

maio 2 2012 Responder

Olá Robson,

muito bem escrito, mas infelizmente as redes sociais estão lotadas de pessoas incapazes de refletirem sobre qualquer coisa que ultrapasse 2 ou 3 linhas escritas. Um pena…

P.S: Como curiosidade, a origem do meme está explicada aki: http://www.e-farsas.com/disaster-girl-volta-a-fazer-sucesso-no-facebook-sera-real.html

Abs

    Robson Fernando de Souza

    maio 2 2012 Responder

    Obrigado, Alex. De fato as pessoas postam essa imagem sem refletir e acabam transmitindo uma péssima (e distorcida) imagem dos defensores dos Direitos Animais, como pessoas vingativas e “extremistas”.

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