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maio12

Enquanto atuns estão ameaçados de extinção, Folha.com faz novamente apologia à sua pesca

Depois de ter feito, no ano passado, uma reportagem implicitamente elogiosa ao aumento da profundidade do alcance da pesca, a Folha.com novamente faz uma antiética apologia à atividade.

A reportagem intitulada Atum gigante de 470 kg causa rebuliço entre chefs japoneses em São Paulo, convenientemente publicada na seção Comida – ao invés de Ambiente ou Bichos, como deveria ser com toda reportagem que fale de animais – sutilmente comemora o assassinato de um enorme atum, considerando o acontecimento um motivo de êxtase aos chefs de culinária onívora japonesa. Tratava-se de um atum bluefin atlântico (Thunnus thynnus), considerado Ameaçado na lista da União Internacional pela Conservação da Natureza e Recursos Naturais (IUCN) e descrito pela própria Folha como “o mais raro” atum do mundo.

Não importou à reportagem o estado ambiental de ameaça de extinção desse atum, nem se o peixe em si sofreu excruciantemente quando foi retirado da água para fins gastronômicos que já se sabe que são completamente desnecessários.

A reportagem acaba incentivando que os pescadores procurem e matem mais atuns como esse, para que os chefs comemorem a pesca de animais gigantes. Essa sanha econômica que tanto mal faz ao meio ambiente pode ser sentida ao lermos esse trecho:

Estavam a esperar, numa ansiedade sem disfarce, o atum “bluefin”, o mais raro e cobiçado do mundo, que estava a caminho.

Nunca nenhum daqueles cozinheiros, muitos deles há 30 anos nesse mercado, havia visto um peixe daquele tamanho: robusto, prateado, brilhante, de 470 kg e quase três metros de comprimento.

Desde a década de 70, diziam, um peixe daquele porte não era pescado no Brasil.

Quando são pegos, geralmente em águas mais profundas e frias (onde acumulam mais gordura, que serve de energia e isolamento térmico), vão direto para o maior mercado de peixes do mundo, em Tóquio, que já foi cenário de leilões milionários.

São os japoneses, fanáticos pela pesca do atum, que observam por imagem de satélite, à exaustão, os padrões migratórios desses animais velozes, que se alimentam de sardinha, lula e arenque.

Assim, incrementam a busca em alto-mar, em barcos espalhados pelos oceanos, com altíssima tecnologia, que lhes permite “fisgar” os peixes em grandes profundidades. 

E a total desnecessidade e elitismo dessa pesca ficam patentes no trecho seguinte da reportagem:

Após tratado na presença dos sushimen frenéticos, de câmeras em punho, foram aproveitados 380 kg, vendidos por R$ 152 mil (R$ 400 o quilo), preço definido ao final da jornada.

[…]

Restaurantes como Aya, Aizomê, Koji, Nagayama, Kosushi e Sushi Lika levaram parte dessa carne valiosa. Ela será servida, até acabar o estoque, a preços que chegam a R$ 100 por dupla de sushi.

Isso seguido por um infográfico, que omite completamente a situação ambiental das quatro espécies de atum mais perseguidas pelo ser humano no mundo (albacora, yellowfin, bluefin e blackfin), e uma lista de quatro restaurantes de culinária onívora japonesa em todos os quais o sushi de atum é sempre caríssimo, custando cada um entre 25 e 50 reais, mostrando que a pesca de atuns já não serve mais a qualquer propósito nutricional, mas sim por prazer gastronômico, um luxo cuja futilidade e dispendiosidade são comparáveis ao uso de casacos e acessórios de pele.

Tal reportagem faz um óbvio desserviço à causa ambiental e animal. Incentiva que a pesca predatória continue matando mais e mais atuns – e, por tabela, outros peixes considerados raros – com todo o sofrimento excruciante da remoção da água e dos métodos de abate (que podem abranger a “simples” asfixia, o abate a pauladas, o choque térmico e outros métodos), tratando os oceanos do planeta como meras piscinas ou minas de carne sob propriedade a serviço dos luxos da humanidade e esvaziando a fauna neles contida. E, claro, incentiva a mentalidade de pôr luxo e glamour acima do direito à vida dos animais não humanos, tal como um site que fala de moda citando objetos de peles naturais.

E o mais grave de tudo é que isso se dá no contexto da prisão e soltura (por enquanto ainda não dá para falar de libertação propriamente dita) do Capitão Paul Watson, líder do Sea Shepherd, uma entidade que visa justamente o combate a esse tipo de matança de animais. Enquanto o Brasil todo faz, preocupadíssimo, junto ao restante do mundo, uma campanha em prol da libertação do herói dos oceanos, convocando o preenchimento de abaixo-assinados, o envio de cartas à ministra da justiça alemã (Watson está detido na Alemanha) e a realização de protestos na frente dos consulados alemães, a Folha.com dá gás e incentivo logo àqueles que mais se interessam na prisão e até na morte do capitão – os matadores da fauna oceânica, pescadores de atuns e outros animais de porte pesado.

Protestos devem ser enviados aos comentários da reportagem (requer cadastro) e também à Redação da Folha.com, via Ombudsman, ao Twitter da seção Comida e à fanpage da mesma no Facebook (os comentários de protesto podem ser deixados nos posts mais recentes da fanpage).

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