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maio12

Imagem defende cães e gatos com paixão, mas vacila ao lhes dar uma “finalidade” servil

Ao contrário das imagens recentes, eu não considero a imagem abaixo uma figura lamentável. Mas ela merece uma certa crítica, por carregar um sutil mas existente especismo simbólico, embora a intenção de sua criação tivesse sido ótima:

A figura vem carregada de religiosidade e, aparentemente (não posso confirmar agora), da concepção espírita de evolução espiritual, em que outros seres ajudam o indivíduo a evoluir cada vez mais e alguns parecem ter sido enviados “apenas” para esse fim. Além de trazer uma linguagem poética, difícil de se ler ao pé da letra.

Esse, porém, não é o aspecto que critico – também não pretendo abordar aqui o uso indevido da palavra homem. A questão é que a imagem acaba cometendo, mesmo que totalmente sem querer, uma violência simbólica sutil pautada na tradição da servidão animal, uma vez que mostra os animais domésticos como seres que foram divinamente criados para atender/servir ao ser humano, como seres tão fiéis (ao ser humano, lógico) que sua fidelidade seria uma lição de vida, e não como fins em si mesmos, “criados” para simplesmente viver e atender aos seus próprios interesses individuais.

E deixa a entender que valeria a pena a pessoa tutelar um cão ou gato não apenas para salvá-los do abandono ou do aprisionamento, mas também para tê-los como servos fiéis a seu serviço – ainda que apenas um serviço afetivo. Assim como seria válido perpetuar a existência desses animais porque eles “são enviados de Deus para mostrar ao ser humano o que é fidelidade” – e castrá-los e impedi-los de se reproduzir seria barrar a consumação da obra “didática” de Deus.

A mensagem parece bonita e é bem intencionada, mas pelo visto é muito carregada da emoção do apego aos cães e gatos e foi muito pouco pensada na questão racional-filosófica da existência dos animais não humanos. Sei que muit@s irão criticar este post acusando-o de procurar pelo em ovo, mas considero válido mostrar que, mesmo nas mensagens mais carinhosas, pode haver um resquício dos velhos valores tradicionais de desigualdade moral. Uma homenagem carinhosa às mulheres pode vir sutilmente impregnada de machismo/androcentrismo. E, no caso da imagem acima, uma dedicatória carinhosa a cães e gatos acaba reproduzindo a crença de que alguns animais existem para servir ao ser humano.

imagrs

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A.N.

maio 4 2012 Responder

Discordo de sua análise. Creio que a pessoa que criou o cartão quis dizer na realidade que o homem pode aprender com o comportamento natural de fidelidade de alguns animais; apesar de a imagem mostrar cães e gatos e o texto generalizar com a palavra “animais”. Talvez ela estivesse pensando nos cães, cuja característica natural de fidelidade é bem conhecida e exaltada na cultura popular. Deve-se ainda salientar que a pessoa ainda comparou os animais a anjos, o que dentro da religiosidade das pessoas os colocariam em posição superior aos humanos.

Não creio que houve o uso indevido da palavra “homem” visto que esse significado é corroborado por dicionários e ainda é amplamente usado nos meios de comunicação e nos livros didáticos, apesar de concordar que seu uso deveria ser revisto.

Do pouco conhecimento que tenho, creio que a religiosidade expressa não se refere ao espiritismo (kardecismo) que não utiliza hierarquias católicas como anjos, arcanjos, etc. e não propõe um modelo de evolução na qual uma espécie seja criada especialmente para isso.

    Robson Fernando de Souza

    maio 4 2012 Responder

    A autora da imagem pode ter intencionado falar isso mesmo que você diz. Mas acabou transmitindo uma mensagem um pouco tosca, que reflete um especismo simbólico e sutil.

    E não sei se a figura realmente reflete uma crença pessoal espírita. A comparação a anjos pode ter sido em sentido figurado, não visando uma hierarquia em que anjos fossem superiores aos humanos. Mas ficou claro ali, pelo menos pra mim, que os animais teriam sido “enviados por Deus” pra uma determinada finalidade que não é viver suas próprias vidas.

    Quanto à palavra “homem”, os dicionários e a própria linguagem mudam com o tempo. Um dia vamos deixar de ouvir o ser humano masculino sendo descrito como o ser humano genérico.

ruth iara

maio 4 2012 Responder

Houve nos dizeres da imagem uma licença poética de qualidade duvidosa.

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